Ocupação russa pode ter impactado animais em Tchernóbil – 13/07/2026 – Ciência

Lince caminha sobre solo parcialmente coberto por neve, com vegetação seca ao redor e árvores ao fundo em ambiente de pouca luz.

A região radioativa ao redor de Tchernóbil, na Ucrânia, tornou-se um improvável refúgio para a vida selvagem. Após o derretimento do reator em 1986, quase todos os moradores foram retirados dali e o acesso à área passou a ser restrito. As florestas se regeneraram e as populações de animais selvagens prosperaram.

Em 2020, Svitlana Kudrenko, então doutoranda em conservação da natureza, decidiu estudar a abundância e a diversidade desses animais. Ela instalou câmeras de monitoramento por toda a Zona de Exclusão de Tchernóbil, de cerca de 2.600 quilômetros quadrados.

No início de 2022, quando as tropas russas invadiram a Ucrânia e ocuparam Tchernóbil, as câmeras continuaram funcionando.

Kudrenko e seus colegas analisaram as filmagens e descobriram que, embora a ocupação de Tchernóbil tenha durado pouco mais de um mês, a guerra pareceu provocar mudanças significativas no comportamento de animais selvagens, alterando seus padrões de atividade. Eles descreveram seus achados na revista Science, em junho deste ano.

Os efeitos foram complexos, com espécies respondendo às atividades militares de diferentes formas. Alguns animais fugiram, enquanto outros se refugiaram na floresta.

“Nossos resultados fornecem informações sobre como a vida selvagem responde a conflitos armados em tempo real”, disse Kudrenko, que é ucraniana e conduziu a pesquisa como parte de sua dissertação na Universidade de Freiburg, na Alemanha. “A guerra não afeta só os humanos.”

Tropas russas ocuparam a zona de exclusão em 2022, do fim de fevereiro até março, usando a área como base de operações. Os militares dirigiram tanques pela região, cavaram trincheiras, enterraram minas e explodiram uma ponte. Dezenas de armadilhas fotográficas de Kudrenko permaneceram operacionais durante esse período.

Para o estudo, os cientistas analisaram imagens de 31 estações de armadilhas fotográficas, registrando 11 espécies —entre os quais linces, corços, cervos-vermelhos, raposas-vermelhas e lebres-europeias — antes, durante e depois da ocupação.

Os cientistas também entrevistaram 25 pessoas, entre as quais algumas que trabalhavam ou viviam na zona de exclusão. Eles pediram ao grupo que classificasse a intensidade das atividades militares durante cada dia da ocupação em uma escala de 0 a 10. Por exemplo, 5 correspondia à movimentação de veículos militares; 8 significava mísseis de cruzeiro; 10 para “o tipo de atividade de conflito armado mais barulhento e destrutivo”, como bombardeios aéreos ou ataques de artilharia, segundo Kudrenko.

Eles também utilizaram dados de satélite para identificar dias com anomalias térmicas —picos repentinos de temperatura que sugerem a ocorrência de incêndios.

As duas espécies mais detectadas no estudo foram o corço —pequeno e solitário habitante das florestas— e o cervo-vermelho, que costuma se reunir em manadas em paisagens abertas. Eles pareceram reagir de formas opostas. Conforme a intensidade do conflito aumentava, as detecções de corços diminuíam. Já as de cervos-vermelhos cresciam.

Essas respostas opostas podem ter origem nas diferenças de comportamento básico e ecologia das duas espécies, segundo Kudrenko.

Os corços, conhecidos por serem tímidos, tendem a ficar paralisados quando assustados e frequentemente se abrigam em seus habitats. Os cervos-vermelhos são mais propensos a correr diante de ameaças potenciais, e os habitats abertos que preferem também foram o “epicentro das atividades de guerra” na zona de Tchernóbil, de acordo com Kudrenko. Isso significa que os cervos-vermelhos podem ter fugido com frequência —e, portanto, foram capturados mais vezes pelas câmeras.

De modo geral, os cervos-vermelhos aparentemente aumentaram a atividade diurna e reduziram a noturna durante a ocupação, segundo o estudo.

As imagens das câmeras de monitoramento sugeriram que as raposas-vermelhas e as lebres-pardas também podem ter se tornado menos ativas à noite. Mas em datas com anomalias térmicas, as detecções noturnas de lebres-pardas aumentaram, talvez porque estivessem “tentando fugir dos incêndios”, disse Kudrenko.

Em algumas espécies, como linces e lobos, os cientistas encontraram poucos sinais de mudanças comportamentais significativas. Isso pode ser porque simplesmente não houve muitas detecções dessas espécies pelas câmeras de monitoramento. Também é possível que algumas das características únicas da zona de exclusão —seu tamanho e a atividade humana extremamente restrita— tenham ajudado a amortecer os efeitos do conflito, segundo a pesquisadora.

O estudo destaca o fato de que raramente existe uma “resposta única para todos” à guerra e fornece informações valiosas sobre as respostas da vida selvagem no dia a dia, na avaliação da ecologista Kaitlyn Gaynor, da Universidade da Colúmbia Britânica, que não participou da nova pesquisa.

Não está claro se as mudanças comportamentais documentadas tiveram consequências negativas ou de longo prazo para os animais em Chernobyl. A guerra pode ter uma série de outras consequências para os animais selvagens —destruição de habitat, poluição ambiental e mortalidade direta—, mas o estudo em questão não foi projetado para avaliar esses pontos.

“Existem todas essas consequências não intencionais dos conflitos armados”, afirmou Gaynor. “E acho que o estudo mostra que a vida selvagem é uma espectadora desses conflitos, sendo afetada de maneiras cujas consequências ainda não compreendemos totalmente.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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