O desmonte de uma falsa narrativa de progresso inevitável

O desmonte de uma falsa narrativa de progresso inevitável

Por uma outra globalização

O desmonte de uma falsa narrativa de progresso inevitável

Em sua obra mais célebre, Milton Santos desconstrói o mito da integração universal e revela, nas brechas do sistema, as bases para uma globalização fundada na solidariedade

Por uma outra globalização

O desmonte de uma falsa narrativa de progresso inevitável

Em sua obra mais célebre, Milton Santos desconstrói o mito da integração universal e revela, nas brechas do sistema, as bases para uma globalização fundada na solidariedade

Livro se organiza a partir de uma tríade conceitual que se tornou célebre: globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Em Por uma outra globalização, de 2000, Milton Santos realiza uma das interpretações mais originais da globalização contemporânea, propondo uma leitura que rompe com o senso comum e com a narrativa dominante produzida pelos centros de poder. O livro se organiza a partir de uma tríade conceitual que se tornou célebre – globalização como fábula, como perversidade e como possibilidade – e que sintetiza, ao mesmo tempo, uma crítica radical e um horizonte de transformação.

A globalização como fábula corresponde ao mundo tal como ele é contado. Trata-se de uma construção ideológica que apresenta o planeta como um espaço unificado, transparente e acessível a todos, onde a difusão das técnicas e da informação permitiria uma integração generalizada das economias e das sociedades. Nesse discurso, a velocidade dos fluxos, a instantaneidade das comunicações e a ampliação dos mercados aparecem como sinais de progresso inevitável. Milton Santos mostra, porém, que essa narrativa não descreve o mundo real, mas o encobre. Ela constitui, em suas palavras, uma fábula, isto é, uma representação construída para legitimar a ordem existente e neutralizar a crítica. Ao vender a imagem de um mundo homogêneo, esse discurso oculta as diferenças profundas que estruturam o espaço global e naturaliza desigualdades que são, na verdade, produzidas historicamente.



Manuscrito original do livro, disponível no acervo do IEB-USP (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Quando se passa da fábula à realidade, emerge a globalização como perversidade. Aqui, o autor desloca o foco para o funcionamento efetivo do sistema, revelando que a globalização, longe de integrar, fragmenta; longe de distribuir, concentra. A técnica – elemento central do mundo contemporâneo – não é neutra: ela é apropriada por atores hegemônicos e colocada a serviço de uma lógica de acumulação que reforça assimetrias. Como consequência, o mundo se organiza de maneira seletiva, articulando espaços altamente integrados aos circuitos globais e outros que permanecem marginalizados ou subordinados. Nesse contexto, fenômenos como o desemprego estrutural, a precarização do trabalho e a exclusão social não são desvios, mas resultados inerentes ao modelo. O próprio território torna-se a expressão visível dessa desigualdade, pois, como o autor insiste ao longo de sua obra, o espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações, e é justamente nessa articulação que se materializam as relações de poder.

A perversidade da globalização manifesta-se também no plano da vida cotidiana, onde a promessa de universalização do consumo convive com a impossibilidade real de acesso para a maioria da população. O consumo, apresentado como linguagem comum da cidadania global, torna-se, na prática, um mecanismo de diferenciação e exclusão. A informação, por sua vez, embora tecnicamente difundida, é socialmente controlada, o que limita sua capacidade de promover uma verdadeira democratização. Assim, o que se apresenta como integração é, na realidade, uma integração subordinada, na qual vastos segmentos da população são incorporados apenas de forma parcial e precária.

No entanto, a originalidade de Milton Santos está em não encerrar sua análise na denúncia. A terceira dimensão – a globalização como possibilidade – introduz um movimento decisivo no argumento. O mesmo processo que produz desigualdades cria também as condições para sua contestação. A unicidade técnica do planeta, ao tornar o mundo interdependente, abre espaço para uma consciência igualmente universal. Nesse ponto, o autor desloca o olhar para os sujeitos subalternos e para as práticas do cotidiano, identificando neles uma potência frequentemente ignorada pelas análises tradicionais. É nesse contexto que surge a figura dos homens lentos, aqueles que não participam plenamente da lógica acelerada do capital e que, por isso mesmo, desenvolvem uma percepção mais aguda das contradições do sistema.

Esses sujeitos, longe de serem passivos, constroem formas alternativas de uso do território, baseadas na solidariedade, na proximidade e na reinvenção dos recursos disponíveis. A técnica, nesse caso, pode ser reapropriada e ressignificada, deixando de ser apenas instrumento de dominação para tornar-se meio de ação coletiva. Como observa o próprio autor, cada lugar é, à sua maneira, o mundo, e é justamente no lugar – entendido não como mero cenário, mas como espaço vivido – que se abrem as possibilidades de transformação. A força do lugar reside na capacidade de articular experiências, produzir sentidos e sustentar práticas que escapam, ao menos parcialmente, à lógica dominante.

O livro aponta, assim, para a emergência de uma outra globalização, fundada não na competitividade e na exclusão, mas na solidariedade e na cidadania. Essa outra globalização não é uma utopia abstrata, mas uma possibilidade inscrita nas contradições do presente. Ela depende da construção de um novo projeto político, capaz de reorientar o uso das técnicas e de colocar o território a serviço da maioria. Nesse sentido, a obra de Milton Santos articula crítica e esperança, mostrando que o mundo contemporâneo, ao mesmo tempo em que intensifica as desigualdades, contém os elementos de sua própria superação.

Ao final, o que se delineia é uma mudança de perspectiva: a globalização deixa de ser vista como destino inevitável e passa a ser compreendida como processo histórico, aberto à intervenção humana. Contra o pensamento único que pretende impor uma única racionalidade, Milton Santos afirma a pluralidade das experiências e a possibilidade de construção de um mundo mais justo. Sua análise não apenas desmonta as ilusões do presente, mas também restitui à sociedade a capacidade de imaginar e produzir o futuro.



Fonte ==> Folha SP

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