Ecologia
Número de espécies exóticas de moluscos no Brasil aumenta 215% em 15 anos
Quantidade passou de 26 para 82 entre 2011 e 2025. Pesquisadores apontam necessidade de reforçar medidas de biossegurança, detecção precoce e monitoramento de longo prazo
Ecologia
Número de espécies exóticas de moluscos no Brasil aumenta 215% em 15 anos
Quantidade passou de 26 para 82 entre 2011 e 2025. Pesquisadores apontam necessidade de reforçar medidas de biossegurança, detecção precoce e monitoramento de longo prazo
Mexilhão-dourado provavelmente chegou ao Brasil incrustado no casco ou em água de lastro de navios cargueiros; prejuízos incluem perda de eficiência de usinas hidrelétricas (imagem: Luciano de Souza/Wikimedia Commons)
André Julião | Agência FAPESP – O número de espécies exóticas (não nativas) de moluscos encontradas no Brasil aumentou de 26 para 82 nos últimos 15 anos, segundo o primeiro inventário de amplitude nacional já produzido sobre esses organismos no país. Vinte dessas espécies são consideradas invasoras – ou seja, capazes de causar prejuízos ecológicos, socioeconômicos ou à saúde –, incluindo o mexilhão-dourado e o caramujo-africano. A lista completa inclui organismos terrestres, aquáticos (de água doce) e marinhos (de água salgada).
“Observamos uma taxa acelerada de introdução de moluscos não nativos no Brasil e lacunas persistentes no conhecimento taxonômico e ecológico dessas espécies”, comenta Marcel Sabino Miranda, que participou do estudo durante pós-doutorado no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) com bolsa da FAPESP.
O estudo, publicado em abril na revista Biological Invasions, foi liderado por Fabrizio Marcondes Machado, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com cientistas de diversas instituições, de diversos Estados brasileiros.
Os autores destacam a necessidade urgente de fortalecer medidas de biossegurança e esforços de detecção precoce, além de estabelecer programas de monitoramento de longo prazo em todos os ambientes. Defendem ainda que, quando houver impactos, se definam adequadamente sua qualidade e magnitude.
“Algumas espécies são bem problemáticas, como o mexilhão-dourado e o caramujo-africano, mas a maioria não sabemos se está causando algum dano ou pode vir a causar”, conta Miranda, que atualmente realiza estágio de pós-doutorado na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, com bolsa da FAPESP.
O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) chegou ao Brasil provavelmente no início dos anos 1990, após uma longa jornada de invasões desde a China. Espalhado pela América do Sul, causa entupimentos e perda de eficiência em usinas hidrelétricas, entre outros problemas. Apesar de ser alvo de um plano de controle, o molusco continua prosperando. Estima-se que cerca de US$ 10 milhões já tenham sido aplicados para combatê-lo no Brasil.
O caramujo-africano (Lissachatina fulica), por sua vez, foi introduzido no país como alternativa ao escargot, mas teve o cultivo abandonado e hoje está espalhado pelo território. Pode ser uma praga agrícola, além de hospedeiro intermediário de um parasita causador de meningite, o nematoide Angiostrongylus cantonensis.
Segundo os pesquisadores, há poucas informações sobre moluscos invasores no Brasil, apesar de as invasões biológicas serem apontadas como uma das principais ameaças à proteção da biodiversidade no mundo. Por aqui, o foco predominante está em peixes, artrópodes (insetos) e mamíferos.

Caramujo-africano pode ser vetor de parasitas e praga agrícola (foto: LocoWiki/Wikimedia Commons)
Mar, rios e terra
No levantamento, constam ainda 13 espécies cuja origem não foi possível determinar, chamadas criptogênicas. A cautela na classificação se dá à medida que muitas descrições de espécies são antigas e não trazem estudos biogeográficos ou moleculares para determinar sua origem com segurança – ou seja, se são nativas do Brasil ou não. A nomenclatura evita confusões como a que ocorreu em relação ao mexilhão da espécie Perna perna, por exemplo.
Presente em todo o litoral brasileiro e cultivado para consumo humano, o Perna perna já foi apontado como introduzido no país por ação humana, uma vez que ocorre também na África, região de origem da espécie. Nessa versão da história, a espécie teria chegado ao Brasil no século 16 com as grandes navegações.
Posteriormente, porém, estudos arqueológicos e moleculares apontaram que uma população da espécie, separada em 2 mil anos da linhagem africana, já ocorria no Brasil antes mesmo da chegada dos portugueses em 1500. A espécie, portanto, é nativa da América do Sul e não foi introduzida por ação humana, como se pensava.
As espécies não nativas são distribuídas em três tipos de ambientes. As marinhas e estuarinas são 32, além de quatro criptogênicas. Na água doce, que inclui rios, lagos e lagoas, são 17 não nativas e nenhuma criptogênica. Entre as terrestres, foram documentadas 33 não nativas e nove criptogênicas.
As espécies foram classificadas em diferentes categorias, de acordo com diretrizes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Classificação de Impacto Ambiental para Táxons Exóticos (EICAT) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Espécies “não nativas contidas”, por exemplo, são aquelas com propagação restrita (como em cativeiro) ou sob controle em determinada área geográfica. Na categoria “detectadas”, estão aquelas presentes no ambiente, mas com ocorrências isoladas e sem evidência de crescimento populacional que tenha resultado em estabelecimento ou disseminação.
Espécies “estabelecidas” são as que completam o ciclo de vida no ambiente natural, apresentam sinais de crescimento da população, mas sem impactos negativos aparentes. “Invasoras” são espécies não nativas já estabelecidas em território nacional e que causam algum impacto ecológico, socioeconômico ou à saúde.
Por fim, na categoria “deficiente de dados” estão aquelas com evidências de uma população nativa, mas sem informações suficientes para determinar sua identidade ou nível de impacto. “A maioria nós apenas detectamos, não temos muita informação. O ideal é que fossem realizados grandes estudos e políticas para avaliar os possíveis impactos e planos para conter ou erradicar as espécies que causam prejuízos. Um estudo como esse, porém, é um primeiro passo importante nessa direção”, encerra Miranda.
O artigo Non-native mollusc species in Brazil: a first national inventory and distributional overview pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s10530-026-03794-7.
Fonte ==> Folha SP