Uma pesquisa agraciada com o Nobel de Medicina, um século atrás, tornou-se uma das mais controversas da história. Após a láurea, o trabalho do dinamarquês Johannes Fibiger (1867-1928) tornou-se alvo de questionamentos e descobriu-se que sua conclusão estava errada. Ainda assim, na avaliação de uma pesquisadora, ainda pode ser considerado um passo importante no entendimento do câncer.
Em seus estudos, Fibiger identificou tumores no estômago de ratos e, dentro deles, encontrou vermes nematódeos, como as lombrigas em humanos, aos quais deu o nome de Spiroptera neoplastica (posteriormente reclassificados no gênero Gongylonema).
O cientista dizia acreditar que o câncer era induzido por um veneno ou substância tóxica produzida pelos vermes. O raciocínio e o processo observados por ele baseavam-se em quatro pontos.
O primeiro era a transmissão via hospedeiro intermediário. Fibiger descobriu que baratas serviam como hospedeiros intermediários dos vermes e de seus ovos. Ao alimentar ratos saudáveis com baratas infectadas, ele conseguia induzir a doença de forma controlada.
Outro ponto era o desenvolvimento de lesões e tumores. A presença dos vermes no estômago dos ratos causava inflamação, hiperplasia epitelial e formação de papilomas, ambos benignos, além do surgimento de epiteliomas malignos em diversos casos.
Pela teoria central de Fibiger, os tumores não eram causados apenas pelo dano mecânico do verme, mas sim por uma toxina (ou veneno) secretada pelos nematódeos.
Por fim, ao notar que as metástases encontradas nos pulmões dos ratos não continham vermes, ele supôs que elas ocorriam devido às propriedades especiais do próprio epitélio (tecido) estomacal afetado.
No entanto, estudos publicados nas décadas de 1930 e 1950 demonstraram que as lesões observadas por Fibiger não eram cânceres malignos, mas sim metaplasias e hiperplasias benignas provocadas pela combinação da irritação do verme com uma grave deficiência de vitamina A na dieta dos ratos.
A partir de então, muitos cientistas disseram que o Nobel do dinamarquês não foi merecido. Fibiger nem pôde se defender. Morreu em janeiro de 1928.
Ana Paula Lepique, professora do Departamento de Imunologia do ICB-USP (Instituto de Ciências Biomédicas da USP), concorda que o resultado obtido estava errado. Ela destaca, contudo, a importância do trabalho para a pesquisa científica do câncer.
“Cientistas falam que esse Nobel não foi merecido. Mas será que não? Porque na época, apesar de o resultado estar errado, trouxe um viés muito forte de que um ambiente irritante poderia causar câncer. E olha, isso é verdade. Há vermes que causam câncer em humanos. Não esse, mas outros”, diz Lepique.
Ela cita como exemplos o Schistosoma, que provoca câncer de bexiga, e o Opisthorchis viverrini, câncer de duto de vesícula biliar. Em todos os casos, os vermes geram uma irritação e uma inflamação crônica no tecido. E essa inflamação crônica pode ser fator de risco para câncer, afirma a pesquisadora.
Lepique diz que o principal problema no estudo de Fibiger foi a falta de comprovação daquilo que ele observou com a tecnologia de que dispunha mais de cem anos atrás.
“Para comprovar que uma coisa é causal, que é aquilo mesmo que está causando, tem que preencher uma série de critérios definidos por epidemiologistas. Mas isso tudo vem muito depois desse pesquisador”, continua a professora. “Naquela época, o que ele tinha era observação: tem animais que não têm essa formação no estômago, eu alimento com a barata que tem o verme, eles se contaminam com o verme e passam a ter essas formações no estômago.”
A hipótese que pode explicar a deficiência de vitamina A nos ratos é que Fibiger os alimentava apenas com água e pão.
“O que poderia ter sido feito se ele soubesse disso tudo na época? Alimentar os animais com vitamina A e ver se esse negócio regride ou se não aparece a lesão. Tirar a vitamina A e pôr só o verme, tirar a vitamina A e não dar o verme… Daria para fazer uma série de experimentos para comprovar o que ele estava fazendo.”
Outro ponto levantado pela pesquisadora da USP para explicar as limitações de Fibiger no início do século passado é a falta de um ambiente controlado para as pesquisas, o que era comum na época.
Ela diz que as pesquisas atuais com cobaias são realizadas com o maior cuidado nos biotérios, controlando nível sanitário, ração, água, pH da água, temperatura e quantidade de luz. Fibiger, por outro lado, trabalhava com ratos selvagens e numa condição muito longe da ideal.
“Imagina você pegar um rato selvagem e alimentar com barata. Por outro lado, tem gente que fala ‘ah, mas foi o primeiro estudo randomizado’. É claro, não tinha nenhum controle disso. Era um ‘eu vejo, e é isso. Se eu alimento com a barata, vejo isso; se não alimento com a barata, vejo aquilo.’ Então, de fato, sim, ele viu um resultado, só que a conclusão que ele tirou estava errada, não foi correta, porque ele não tinha controle de outras variáveis que estavam presentes ali naquele momento”, afirma Lepique.
A professora resume o trabalho de Fibiger como um experimento cujo resultado teve uma conclusão errada, mas que abriu um campo na oncologia que depois outros perseguiram e identificaram causas e fatores etiológicos para o câncer, ajudando a comunidade científica a conhecer melhor a doença.
Fonte ==> Folha SP – TEC