Ouvir os dois lados da história: essa máxima está na alma do jornalismo contemporâneo. Quase como um mantra, ela é repetida e ensinada em cursos de jornalismo no Brasil e no mundo. Arregaçar as mangas e ir atrás do “outro lado” seria o caminho para um jornalismo realmente imparcial. Para muitos, esse é o mundo ideal: ao ouvir as partes envolvidas em uma disputa, o debate público se tornaria mais inclusivo, equilibrado e democrático.
Tudo isso pode soar bem e eventualmente pode até funcionar. Mas há temas e domínios em que essa máxima encontra limites claros.
Como mostraram Naomi Oreskes e Erik Conway em “Mercadores da Dúvida”, desde o começo da década de 1990 a indústria de combustíveis fósseis reagiu ao avanço do consenso científico sobre o efeito estufa apropriando-se justamente desse princípio jornalístico. Ao se apresentar como “o outro lado” da história, difundiu desinformação sistemática sobre um tema que já estava amplamente estabelecido no campo científico.
O resultado foi a produção de uma falsa equivalência: ao tratar como simétricas posições que não compunham um debate real, parte importante da cobertura jornalística acabou colocando, lado a lado, um consenso científico consolidado e interesses econômicos travestidos de controvérsia.
Não é apenas no âmbito das ciências e dos avanços científicos que isso acontece. As políticas públicas que estão permeadas por consensos científicos passam por algo parecido.
Em dezembro de 2009, o governo brasileiro lançou o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, trazendo consigo a promessa de um grupo responsável pela instalação de uma Comissão Nacional da Verdade. O objetivo era apurar violações de direitos humanos ocorridas na ditadura militar.
Além de todas as reações geradas na sociedade civil e em partidos políticos, as Forças Armadas vieram a público com duras críticas àquela proposta. Comissão Nacional da Mentira, Comissão Nacional da Meia Verdade e Omissão Nacional da Verdade foram alguns dos termos que desfilaram em vários jornais Brasil afora —tudo em nome de “ouvir o outro lado”. O problema é que não se tratava de uma outra voz em debate. Tratava-se da negação sistemática da violência ditatorial e dos direitos humanos das vítimas e de seus familiares.
Outro exemplo dos limites da imparcialidade apareceu nos debates em torno da adoção de políticas de ação afirmativa no ensino superior. Aqui, a disputa era real, mas seu enquadramento público foi seletivo. Ao se dizer neutra, parte importante da mídia brasileira escolheu operar de modo enviesado: editoriais assumidamente contrários às políticas afirmativas conviviam com a escolha de experts cujas posições reforçavam esse enquadramento anticotas.
O resultado foi a redução de um debate plural a uma controvérsia capenga. Ignorando diagnósticos sustentados por evidência empírica, nossos maiores jornais veiculavam objeções e opiniões como se fossem mera “ciência”.
O negacionismo não se sustenta apenas pela fabricação de falsas dúvidas, mas também pelas regras que organizam seletivamente o debate público. Ao tratar negações sistemáticas como se fossem apenas mais um “lado” a ser ouvido, a mídia cria pseudossimetrias que fazem de uma opinião uma posição “científica”. Falsas arenas de discussão conferem visibilidade e legitimidade a ataques organizados à ciência e aos direitos humanos.
O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.
Fonte ==> Folha SP – TEC