Morrem as pesquisadoras Erotilde Pezatti e Carmen Lúcia Soares

Morrem as pesquisadoras Erotilde Pezatti e Carmen Lúcia Soares

Obituário

Morrem as pesquisadoras Erotilde Pezatti e Carmen Lúcia Soares

Referências nas áreas de Linguística e de Educação Física, respectivamente, ambas foram coordenadoras de área na FAPESP e deixaram contribuições decisivas para a ciência brasileira

Obituário

Morrem as pesquisadoras Erotilde Pezatti e Carmen Lúcia Soares

Referências nas áreas de Linguística e de Educação Física, respectivamente, ambas foram coordenadoras de área na FAPESP e deixaram contribuições decisivas para a ciência brasileira

A linguista Erotilde Goreti Pezatti e a educadora Carmen Lúcia Soares (imagens: acervo da família/FE-Unicamp)

André Julião | Agência FAPESP – Faleceram no mês de maio duas referências em suas áreas, a linguista Erotilde Goreti Pezatti, no dia 18, e a educadora Carmen Lúcia Soares, no dia 22. Ambas fizeram parte da coordenação de Ciências Humanas e Artes da FAPESP.

Coordenadora da área de Linguística da FAPESP entre abril de 2013 e outubro de 2020, Pezatti consolidou uma trajetória acadêmica de quase quatro décadas no Departamento de Letras Modernas do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Ibilce-Unesp), em São José do Rio Preto. Sua atuação foi fundamental para o desenvolvimento da Gramática Discursivo-Funcional (GDF) – teoria linguística que defende que a estrutura da língua é moldada pelas intenções comunicativas e pelo contexto de interação social –, campo no qual se tornou uma referência internacional.

Entre diversas colaborações, trabalhou com um dos fundadores da GDF, Lachlan Mackenzie, professor da Universidade Livre de Amsterdã (Países Baixos). “A GDF foi concebida com o objetivo principal de fornecer um enquadramento formalizado para a comparação tipológica de línguas. No grupo liderado por Erotilde Pezatti, este aspecto também está presente, mas encontra-se subordinado à finalidade mais premente de melhorar a descrição da língua portuguesa no contexto brasileiro”, escreveu Mackenzie no livro Linguística Funcional: retrospectivas, atuações e diálogos – Uma homenagem à Profª Erotilde Goreti Pezatti, publicado em 2021 em razão de sua aposentadoria.

Pezatti, no entanto, seguiu ativa na pesquisa como integrante do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos (PPGEL), unidade que coordenou entre 2013 e 2017. Seu projeto de pesquisa mais recente, submetido ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com início previsto para este ano, visava dar continuidade aos estudos sobre fenômenos de ordenação – linha de investigação iniciada em sua tese de doutorado e consolidada no livro A ordem de palavras em português, publicado pela Parábola Editorial em 2014.

“Erotilde Pezatti foi um exemplo de professora e pesquisadora. Sua contribuição ao Projeto de Gramática do Português Brasileiro Falado foi igualmente intensa e de qualidade. Ela nos deixou muito cedo, pois certamente preparava-se para voos mais altos”, diz Ataliba Teixeira de Castilho, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderança da linguística no Brasil.

“Dentre as inúmeras qualidades da professora Erotilde, destaco sua generosidade, sua organização, seu perfeccionismo, sua liderança e sua competência”, conta Juliano Desiderato Antonio, que realizou pós-doutorado no Ibilce-Unesp sob supervisão de Pezatti e atualmente é professor na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Pezatti era casada com o também linguista e professor aposentado da Unesp Roberto Gomes Camacho, que prepara um capítulo sobre a obra da esposa a ser publicado numa coletânea de estudos sobre gramática funcional.

Mackenzie, da Universidade Livre de Amsterdã, prestará homenagem à colega durante a Nona Conferência Internacional em Gramática Discursivo-Funcional, que será realizada entre 8 e 10 de julho em Córdoba, na Espanha.

“Erô, como era chamada, vai me fazer muita falta. Dela guardarei sempre o sorriso iluminado e a amizade sincera”, encerra Maria Beatriz Decat, professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

História da Educação Física

Carmen Lúcia Soares foi coordenadora da Área de Ciências Humanas e Sociais (Educação) da FAPESP entre 2017 e 2022. Professora permanente da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp desde 1998, influenciou gerações de estudantes de Educação Física e da História da Educação Física.

Seu livro Educação Física: raízes europeias e Brasil, de 1994, fruto de sua dissertação de mestrado, é uma referência para entender o surgimento da área no país.

“Ela desenvolveu, de forma inédita no Brasil, uma linha de pesquisa sobre a história das práticas educativas e dos esportes, mostrando, entre outros aspectos, a contribuição da educação escolar para a construção de uma nova sensibilidade em relação à natureza nas primeiras décadas do século 20, que exigiu, por exemplo, uma educação dos sentidos traduzida na valorização da ‘vida ao ar livre’”, diz Ana Maria Fonseca de Almeida, professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

Outras obras de sua autoria incluem Imagens da Educação no Corpo: estudo a partir da ginástica francesa no século 19 e As roupas nas práticas corporais e esportivas, ambas pela Autores Associados.

“Sua alegria e vitalidade eram contagiantes”, lembra Rosa Fátima de Souza Chaloba, professora da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, em Araraquara. “Muitos anos depois, trabalhando com ela na FAPESP, tive a oportunidade de tê-la como uma amiga querida”, completa a pesquisadora, que atua na Coordenação de Área de Ciências Humanas e Sociais da Fundação.

“Ela atuou na FAPESP com muita dedicação, disciplina e entusiasmo. Reconhecia a excelência da instituição e sua importância científica e social para o Estado de São Paulo e para o país. Analisava todos os processos com muito critério, levando em conta o rigor científico e a relevância social. Ela entendia esse trabalho como uma distinção”, diz Chaloba.

Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que também atuou na FAPESP com Soares, lembra de seu alto astral e rigor científico.

“Era uma pessoa com uma luz muito forte, muito correta, engajada. Sempre muito propositiva, trazia nas reuniões boas discussões e ângulos originais. Deixava nossos encontros leves, ao mesmo tempo em que trazia consistência e rigor”, conta.

 



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *