Morre Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado no Brasil

Morre Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado no Brasil

Obituário

Morre Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado no Brasil

“O Brasil perdeu um grande médico com alma de cientista. Sua carreira foi marcada pela visão estratégica e pioneirismo”, lamentou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP

Obituário

Morre Silvano Raia, pioneiro no transplante de fígado no Brasil

“O Brasil perdeu um grande médico com alma de cientista. Sua carreira foi marcada pela visão estratégica e pioneirismo”, lamentou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP

Membro titular da Academia Nacional de Medicina, Raia foi secretário da Saúde da Prefeitura de São Paulo e coordenador executivo do Conselho Técnico Consultivo do Comitê Estratégico do Ministério da Saúde (imagem: ANM/reprodução)

Agência FAPESP – Silvano Raia, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), faleceu ontem (28/04) aos 95 anos. Há pouco menos de um mês ele comemorou, com a equipe de pesquisa, o sucesso de um projeto por ele idealizado: o nascimento do primeiro porco geneticamente modificado do Brasil com o objetivo de gerar órgãos para transplantes em humanos sem provocar rejeição imunológica.

“O Brasil perdeu um grande médico com alma de cientista. Sua carreira foi marcada pela visão estratégica e pioneirismo: introduziu no país os transplantes hepáticos e agora liderava iniciativas dos xenotransplantes”, disse Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.

Raia realizou seu primeiro transplante de fígado com doador falecido em 1985 e, três anos depois, também teve sucesso no primeiro transplante com doador vivo. A técnica “ampliou possibilidades terapêuticas e passou a salvar milhares de vidas”, destacou o Ministério da Saúde em nota de pesar.

“Junto ao Ministério da Saúde, contribuiu para a estruturação e expansão da rede de transplantes no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), apoiando a qualificação de equipes, a implantação de serviços e a ampliação do acesso da população a procedimentos de alta complexidade em todo o país”, ressalta a pasta.

Quando se aposentou, em 2000, tinha realizado 560 transplantes de fígado no Hospital das Clínicas da FM-USP, de acordo com seu perfil no site da Academia de Medicina de São Paulo. De 2002 a 2006, no cargo de chefe da Unidade de Transplante do Hospital Israelita Albert Einstein, realizou mais 500 transplantes.

Raia formou-se em medicina pela USP em 1956, instituição onde também obteve o título de doutorado. Em 1967, fez o pós-doutorado pela Universidade de Londres, com uma tese sobre nova técnica de histoquímica que, no Brasil, lhe valeu o Prêmio Lafi, conferido no ano seguinte.

Desde o início de sua formação em medicina, Raia teve uma trajetória de sucesso. Ainda calouro venceu o concurso para professor de zoologia do Curso Preparatório ao Vestibular Oswaldo Cruz. No final do primeiro ano do curso recebeu uma bolsa de estudos para um estágio de três meses na Universidade de Heidelberg (Alemanha); no final do terceiro, começou a atuar como auxiliar instrumentador do professor Edmundo Vasconcelos; no quinto ano, realizou uma gastrectomia parcial, ainda segundo seu perfil na Academia de Medicina de São Paulo.

Concluído o pós-doutorado em Londres, retornou ao Brasil e ingressou no Serviço de Cirurgia de Moléstias do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde constituiu o Grupo de Cirurgia do Fígado e da Hipertensão Portal, que, mais tarde, se transformaria na Unidade de Fígado do HC-FM-USP.

Em 1978, obteve o título de livre-docente em cirurgia experimental pela FM-USP e, meses mais tarde, o de livre-docente em clínica cirúrgica. Em 1983, assumiu o cargo de professor titular em clínica cirúrgica da faculdade, passando a chefiar o Serviço de Cirurgia do Fígado e Hipertensão Portal do HC-FM-USP.

De 1982 a 1986, foi diretor da Faculdade de Medicina. Durante seu mandato, reestruturou os cursos paramédicos; criou os Laboratórios de Investigação Médica (LIMs) e instituiu a Fundação Faculdade de Medicina (FFM), entre outras iniciativas.

Membro titular da Academia Nacional de Medicina (ANM), foi secretário da Saúde da Prefeitura de São Paulo e coordenador executivo do Conselho Técnico Consultivo do Comitê Estratégico do Ministério da Saúde. Na pasta, também coordenou as ações para desenvolvimento, capacitação e assistência de novas modalidades de transplantes.

“O professor Raia construiu uma trajetória marcada pela excelência, inovação e dedicação inabalável ao ensino e à assistência médica. Sua energia singular, sua visão pioneira e sua capacidade de inspirar gerações de médicos permanecerão como um legado vivo entre nós. Mais do que um grande cirurgião, foi um exemplo de compromisso com a ciência, com os pacientes e com o futuro da medicina brasileira”, lamentou em nota o presidente da ANM, Antonio Egidio Nardi.

 



Fonte ==> Folha SP

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