Meu nome é Sidarta, e só entendi o peso disso dentro de um templo budista.

Sidarta

Minha mãe leu Hermann Hesse antes de eu nascer.
O livro se chama Siddhartha, publicado em 1922, e conta a jornada de um jovem que abandona tudo em busca da iluminação, não através de dogmas ou mestres, mas da própria experiência vivida. É um dos romances mais influentes do século XX. E foi ele que me deu o nome.

Durante anos, Sidarta foi apenas meu nome. Uma palavra bonita, um pouco incomum, que eu precisava soletrar em cartórios e explicar em apresentações. Eu conhecia sua origem, claro. Mas compreender intelectualmente o peso de um nome é muito diferente de senti-lo.

Eu senti isso no dia em que entrei em um templo budista, em São Paulo.

Era Vesak, a data mais sagrada do calendário budista, que celebra simultaneamente o nascimento, a iluminação e a morte de Sidarta Gautama, o príncipe que abdicou de um palácio e de toda riqueza material para encontrar algo que o dinheiro jamais comprou: clareza, verdade e paz interior.

O mesmo nome.
Séculos de distância.
E eu ali, de pé, sentindo pela primeira vez que talvez minha mãe não tivesse me dado apenas um nome, mas uma direção.

Há dias que chegam com uma leveza diferente. Não pela ausência de peso, mas pela qualidade de quem divide aquele momento com você. Esse foi um desses dias. Talvez por isso tudo o que vi e senti naquele templo tenha me atravessado de forma tão profunda, porque havia algo de inteiro naquele instante, uma completude rara que poucos dias conseguem carregar.

Havia incenso no ar.
Flores de lótus sobre a água.
Centenas de pessoas reunidas em silêncio em um ritual que existe há mais de 2.500 anos.

E eu, um empresário do século XXI, percebendo que tudo aquilo que o mundo corporativo moderno busca desesperadamente, foco, presença, decisões claras, liderança genuína, os monges praticam desde antes de Cristo existir.

Sem podcast.
Sem curso online.
Sem guru de growth hacking.

Isso me fez pensar.

A maioria dos problemas que vejo nas empresas que acompanho não nasce de estratégias equivocadas. Nasce de egos não resolvidos. De medo disfarçado de autoridade. De ansiedade crônica operando no lugar da visão.

O líder que reage em vez de responder.
O sócio que sabota porque não sabe lidar com a própria insegurança.
O empresário que confunde movimento com progresso.

Buda chamaria isso de sofrimento gerado por uma mente não observada. Peter Drucker chamaria de má gestão. No fundo, ambos estão falando da mesma coisa.

O que mais me impactou naquele dia não foi apenas a beleza do ritual. Foi o que vi nas pessoas ao meu redor.

Executivos, mães, jovens, idosos, todos ali praticando algo que o mundo corporativo esqueceu como se chama: presença.

A capacidade de estar completamente onde se está.

A capacidade de estar completamente onde se está.

Vivemos em uma era em que a atenção se tornou o recurso mais escasso da economia. Empresas bilionárias foram construídas exatamente para sequestrar os segundos da sua concentração. Líderes tomam decisões complexas com a mente fragmentada por notificações, reuniões sem pauta e um ruído constante que chamamos, eufemisticamente, de produtividade.

Enquanto isso, a poucos quilômetros dos maiores centros financeiros do país, pessoas comuns praticam diariamente aquilo que toda empresa deveria exigir de seus executivos: o exercício deliberado de pensar com clareza.

A espiritualidade não é o oposto dos negócios. Talvez seja justamente o fundamento que a liderança de alta performance mais negligencia.

Os empresários que construirão as empresas mais relevantes da próxima década não serão necessariamente os mais agressivos, os mais visíveis ou os mais conectados. Serão aqueles que aprenderam a se conhecer. Os que desenvolveram a rara capacidade de agir a partir de valores reais, e não da reatividade emocional. Os que compreenderam que uma empresa é, antes de tudo, o reflexo da consciência de quem a lidera.

Sidarta Gautama tinha um palácio, riqueza e poder. E escolheu sentar em silêncio até compreender o que realmente importava.

Talvez a pergunta mais estratégica que um empresário possa fazer hoje não seja: “Como escalo meu negócio?”, mas sim:

“Quem eu preciso me tornar para merecer aquilo que estou construindo?”

Minha mãe leu Hesse e me deu um nome.

Levei anos para compreender o presente que existia dentro dele.

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