Com a circulação de peças entre galerias, feiras, instituições e colecionadores, montagem, manuseio e conservação preventiva ganham importância em uma cadeia na qual falhas operacionais podem comprometer patrimônio artístico e financeiro. Com 12 anos de experiência, Marcus Vinicius Mauri acompanha de perto a profissionalização dessa atividade.
Quando uma obra de arte é negociada, a atenção costuma se concentrar no artista, no comprador e no valor da transação. Mas existe uma etapa posterior que raramente recebe a mesma visibilidade: fazer com que aquela peça chegue ao próximo destino preservando suas características e seja instalada exatamente nas condições necessárias.
Essa operação integra uma cadeia que envolve galerias, feiras, museus, instituições culturais, colecionadores, transportadores, conservadores e profissionais especializados em montagem e manuseio. Quanto maior o valor ou a complexidade da obra, maior tende a ser a responsabilidade sobre cada movimentação.
O tema ganha relevância diante da dimensão econômica do setor. Segundo o Art Basel & UBS Art Market Report 2026, o mercado global de arte movimentou US$ 59,6 bilhões em 2025, crescimento de 4% em relação ao ano anterior. Foram estimadas 41,5 milhões de transações, indicando que, além do valor negociado, existe um grande volume de objetos circulando dentro dessa economia.
É justamente nessa etapa menos visível do mercado de arte que atua Marcus Vinicius Mauri, técnico especializado em manuseio e instalação de obras, com 12 anos de experiência. Sua trajetória inclui trabalhos com galerias, artistas, colecionadores e instituições culturais, além da participação em grandes eventos do setor, como SP-Arte e ArtRio.
Para Mauri, o crescimento e a profissionalização do mercado ampliam uma percepção fundamental: uma obra de arte não pode ser tratada como uma mercadoria convencional. Material, peso, dimensões, fragilidade, sistema de fixação e características do ambiente interferem diretamente na maneira como cada peça deve ser manipulada.
“Cada obra possui particularidades. Antes de começar uma instalação, é preciso entender a peça, o espaço e aquilo que o projeto exige. O trabalho técnico começa muito antes de colocar a obra na parede”, afirma.
O que acontece com uma obra de arte depois que ela é vendida?
A assinatura de uma venda encerra uma etapa comercial, mas inicia outra operação.
Uma peça adquirida por um colecionador pode precisar ser retirada de uma galeria, acondicionada, transportada, recebida no destino, desembalada e instalada. Se estiver participando de uma exposição ou feira, o processo pode se repetir diversas vezes ao longo de sua circulação.
Em cada uma dessas etapas existem riscos diferentes.
Uma obra pode ter dimensões incompatíveis com determinado acesso, exigir várias pessoas para movimentação, possuir pontos específicos de apoio ou demandar ferramentas e sistemas de fixação próprios. Em instalações contemporâneas, o desafio pode ser ainda maior, porque diferentes materiais e elementos precisam funcionar como parte de um conjunto.
É justamente essa ausência de padronização que diferencia a logística da arte de operações tradicionais.
Em uma cadeia convencional, eficiência costuma ser construída pela repetição. Na arte, experiência também significa saber reconhecer quando aquilo que funcionou em uma peça não deve ser repetido na seguinte.
Para galerias e colecionadores, essa especialização possui implicação econômica. O valor de uma obra não termina no preço pago por ela. Preservar o patrimônio adquirido passa a integrar o próprio investimento.
Montagem de obras de arte também é gestão de risco
A singularidade é uma das características econômicas mais relevantes de uma obra original.
Quando um produto industrializado sofre dano durante uma operação logística, muitas vezes existe outro exemplar disponível para substituição. No mercado artístico, essa possibilidade pode simplesmente não existir.
Uma pintura original, uma escultura ou uma instalação pode concentrar valor financeiro, histórico e afetivo em um único objeto. Mesmo quando um dano admite intervenção especializada, podem surgir custos de restauração, atrasos, questões relacionadas a seguro e impactos sobre a própria integridade do trabalho.
Por isso, montagem e manuseio também podem ser entendidos como atividades de gerenciamento de risco.
O profissional precisa avaliar antecipadamente como determinada peça será movimentada, quantas pessoas serão necessárias, quais equipamentos deverão ser utilizados e quais características do espaço podem interferir na execução.
Segundo Mauri, uma parte importante da experiência está justamente em reconhecer limites.
Em determinadas situações, profissionalismo não significa encontrar uma maneira rápida de concluir a operação, mas interrompê-la até que existam condições adequadas.
Essa lógica aproxima o trabalho técnico da conservação preventiva: reduzir a probabilidade de dano antes que seja necessário discutir como corrigi-lo.
Feiras de arte transformam a montagem em uma operação de alta precisão
Se uma instalação individual já exige planejamento, grandes feiras acrescentam outra variável: escala.
Eventos como SP-Arte e ArtRio reúnem, durante períodos relativamente curtos, galerias, artistas, colecionadores, curadores e compradores. Antes da abertura dos pavilhões, porém, ocorre uma intensa operação de bastidores.
Obras chegam quase simultaneamente. Estandes precisam ser preparados. Caixas são abertas. Peças são conferidas, movimentadas e instaladas. Diferentes equipes trabalham lado a lado enquanto o relógio avança em direção à abertura.
Mauri acumulou experiência nesse tipo de ambiente e observa que o prazo curto exige coordenação, não improvisação.
“Em uma feira existem várias operações acontecendo ao mesmo tempo. É necessário cumprir o cronograma, mas sem permitir que a pressa reduza o cuidado. Organização e comunicação entre as equipes fazem muita diferença”, explica.
A eficiência dessa etapa possui reflexo sobre a própria atividade comercial.
Para uma galeria, participar de uma feira envolve investimento em espaço, transporte, equipe, produção e relacionamento. A montagem é o momento em que todo esse planejamento começa a adquirir forma física diante do futuro comprador.
Um atraso ou problema técnico pode gerar retrabalho justamente quando existe pouca margem de tempo disponível.
Nesse contexto, a equipe responsável pela instalação não atua apenas na dimensão estética do evento. Participa também da infraestrutura necessária para que a operação comercial aconteça conforme planejado.
Instalar uma obra exige compreender a intenção do artista
Existe ainda uma característica que diferencia o trabalho com arte de outras atividades de instalação: nem todas as decisões são exclusivamente técnicas.
Altura, distância, posição, sequência e relação com o ambiente podem fazer parte da linguagem de uma exposição.
Uma obra não precisa apenas estar fisicamente segura. Precisa ser apresentada de maneira compatível com aquilo que artista e curadoria pretendem comunicar.
Isso transforma a comunicação em uma competência importante para equipes técnicas.
Mauri relata que, ao longo da carreira, trabalhou diretamente com artistas e responsáveis por projetos expositivos para transformar conceitos em soluções executáveis. Em determinados casos, o espaço apresenta limitações que exigem adaptação; em outros, a própria natureza da obra demanda uma sequência específica de montagem.
O papel do técnico não é substituir a decisão artística, mas encontrar meios seguros de concretizá-la.
Essa fronteira exige experiência porque uma solução tecnicamente possível nem sempre preserva a intenção original da obra. Da mesma forma, uma proposta conceitual pode precisar ser ajustada diante de limitações estruturais do ambiente.
Quando essa conversa acontece corretamente, técnica e criação deixam de competir e passam a trabalhar de maneira complementar.
Pandemia obrigou o mercado de arte a experimentar novos formatos
Essa capacidade de adaptação foi colocada à prova durante a pandemia de Covid-19.
Com galerias, museus e espaços culturais submetidos a restrições, o setor precisou encontrar alternativas para manter atividades e preservar alguma relação entre público e produção artística.
Foi nesse contexto que Mauri participou de um dos projetos mais marcantes de sua trajetória: o Drive-Thru Art, ligado à Galeria Luis Maluf.
A proposta buscava permitir contato com obras em um formato adaptado às limitações daquele período. Para a equipe técnica, isso significava trabalhar fora da dinâmica tradicional de uma exposição.
Mauri foi responsável pela execução das instalações dos painéis e pela liderança da equipe de montagem, mantendo comunicação constante com os artistas envolvidos.
O projeto exigia organização operacional, decisões rápidas e adaptação às condições sanitárias daquele momento, sem abandonar os critérios técnicos necessários à instalação das obras.
Mais do que um episódio isolado, a experiência evidenciou uma característica do mercado cultural durante a pandemia: criatividade não ficou restrita aos artistas. Galerias, produtores e profissionais de bastidores também precisaram redesenhar processos para continuar operando.
Para Mauri, o período reforçou a importância de profissionais capazes de interpretar rapidamente novas condições sem transformar adaptação em perda de qualidade.
Conservação preventiva começa no primeiro manuseio
Quando se fala em preservação de obras, é comum associar o tema à restauração. Mas existe uma etapa anterior e menos visível: evitar que determinados danos ocorram.
A conservação preventiva trabalha justamente com essa lógica.
No cotidiano de quem manipula obras, prevenção aparece em decisões aparentemente simples: identificar corretamente os pontos de apoio, evitar pressão sobre áreas sensíveis, selecionar materiais adequados, controlar a movimentação e avaliar previamente o ambiente em que a peça será instalada.
Essas práticas ganham importância porque determinados danos são cumulativos. Uma movimentação inadequada pode não produzir uma consequência imediatamente perceptível, mas contribuir para problemas posteriores.
Em coleções particulares, a análise também precisa considerar as características do imóvel.
Uma residência não possui necessariamente a mesma estrutura de uma galeria. Tipo de parede, circulação, incidência de luz, posição de móveis e dimensões do ambiente podem interferir na solução adotada.
Para o colecionador, portanto, instalação não é apenas uma decisão estética. É parte do cuidado com o patrimônio adquirido.
Esse contexto ajuda a explicar por que confiança se torna um ativo relevante para profissionais do segmento. Ao longo de 12 anos, Mauri construiu relações com artistas, galeristas, curadores e colecionadores, em uma atividade na qual reputação é formada pela combinação entre conhecimento técnico, responsabilidade e consistência de execução.
Quando preservar uma obra significa preservar uma memória
Uma das experiências que mais marcaram Mauri ocorreu fora da lógica estritamente comercial.
Ele participou da montagem de uma exposição no Centro Cultural São Paulo em homenagem ao artista Vermelho Steam, falecido durante o período da pandemia.
Poucos meses antes, os dois haviam trabalhado juntos, o que transformou o projeto em uma experiência particularmente significativa.
A responsabilidade técnica permanecia a mesma: receber, movimentar e instalar as obras de maneira adequada. O significado do trabalho, entretanto, havia mudado.
As peças passavam a integrar uma exposição construída também em torno da memória e do legado do artista.
“Eu tinha trabalhado diretamente com ele pouco tempo antes. Participar daquela montagem mostrou de uma forma muito forte que nosso trabalho não envolve somente a instalação física. Em determinados momentos, estamos ajudando a preservar a história de um artista”, afirma Mauri.
A experiência evidencia uma característica singular da economia da arte. O mesmo objeto pode reunir simultaneamente valor financeiro, cultural, histórico e emocional.
É por isso que reduzir a operação técnica apenas à ideia de transporte ou instalação deixa de fora uma parte importante de sua responsabilidade.

Marcus Vinicius Mauri
Profissionalização acompanha um mercado de arte mais sofisticado
À medida que o mercado de arte amplia sua estrutura comercial, cresce também a necessidade de profissionalização das atividades que sustentam a circulação física das peças.
Galerias participam de feiras em diferentes localidades, colecionadores ampliam acervos, instituições desenvolvem exposições temporárias e artistas trabalham com materiais e formatos cada vez mais variados.
Cada movimento cria novas exigências para quem atua nos bastidores.
Não basta conhecer ferramentas ou técnicas de fixação. O profissional precisa compreender conservação preventiva, organização logística, trabalho em equipe, comunicação com artistas e capacidade de operar sob cronogramas rigorosos.
A experiência prática continua sendo fundamental porque grande parte do conhecimento é construída diante de situações concretas. Ao mesmo tempo, a sofisticação do setor tende a exigir processos mais estruturados, sobretudo quando estão envolvidos acervos de elevado valor ou obras com características particularmente sensíveis.
Nesse cenário, especialistas em montagem e manuseio deixam de ocupar apenas uma função operacional e passam a integrar a cadeia de proteção do patrimônio.
A economia da arte continua depois da venda
O mercado costuma medir seu desempenho por valores negociados.
É uma métrica necessária, mas incompleta para compreender toda a atividade que existe ao redor de uma obra.
Depois que uma venda é concluída, outros profissionais entram em cena. A peça precisa ser acondicionada, movimentada, transportada, recebida e instalada. Em uma feira ou exposição temporária, todo esse processo poderá acontecer novamente pouco tempo depois.
É nesse intervalo entre um espaço e outro que atua uma cadeia quase invisível para o público.
Para Marcus Vinicius Mauri, a melhor execução técnica é justamente aquela que não disputa atenção com o objeto instalado. O visitante deve entrar em uma exposição e perceber a obra, não o esforço necessário para colocá-la ali.
Essa discrição, porém, não significa irrelevância econômica.
Em um mercado global que movimentou US$ 59,6 bilhões em 2025, proteger a integridade física das peças que sustentam essas transações também faz parte do funcionamento do negócio.
O preço pode ser definido na negociação. O significado pode nascer do artista. Mas, entre a criação, a venda e o próximo destino, existe uma responsabilidade menos visível: garantir que a obra continue sendo aquilo que era antes de começar a se mover.