Poluição
Matéria orgânica dos oceanos está carregada de poluentes industriais e farmacêuticos
Pesquisadores analisaram dados de mais de 2 mil amostras de água, coletadas ao redor do mundo e encontraram níveis expressivos de contaminação em grande parte delas. Resultado acende alerta sobre presença de substâncias nocivas na cadeia alimentar marinha
Poluição
Matéria orgânica dos oceanos está carregada de poluentes industriais e farmacêuticos
Pesquisadores analisaram dados de mais de 2 mil amostras de água, coletadas ao redor do mundo e encontraram níveis expressivos de contaminação em grande parte delas. Resultado acende alerta sobre presença de substâncias nocivas na cadeia alimentar marinha
Pesquisadores durante coleta de amostras de água na Ilha de Moorea, na Polinésia Francesa (foto: Daniel Petras/UCR)
André Julião | Agência FAPESP – A matéria orgânica dissolvida na água dos oceanos está repleta de poluentes industriais, fármacos, pesticidas e outras substâncias derivadas de atividades humanas, segundo um estudo publicado em março na revista Nature Geoscience.
A pesquisa analisou 2.315 amostras de água coletadas em diversos pontos do oceano entre 2017 e 2022, por grupos de pesquisa de diferentes países, cujas informações estavam disponíveis em bancos públicos. Nessa amostragem, foram identificadas as assinaturas químicas de 248 compostos produzidos por atividades humanas (conhecidos como xenobióticos). A maior parte está ligada à produção de plástico, mas também foram identificados resquícios de medicamentos como o atenolol, para hipertensão arterial, e inseticidas, como DEET e icaridina, usados em repelentes.
“Observamos que esses compostos estavam muito mais amplamente disseminados do que imaginávamos”, conta Bruno Ruiz Brandão da Costa, coautor brasileiro do estudo, realizado durante estágio de pós-doutorado com bolsa da FAPESP na Universidade da Califórnia (UC) em Riverside, nos Estados Unidos.
A chamada “matéria orgânica dissolvida” é uma mistura complexa de compostos que podem ser produzidos por algas, plantas e microrganismos ou chegar ao ambiente aquático a partir do solo (carregados pela chuva), da decomposição de folhas e de outros organismos.
Os pontos de coleta de água estavam distribuídos nos oceanos Índico, Atlântico Norte, Pacífico Central e Oriental, incluindo o Mar Báltico e o Caribe. A presença desses compostos foi mais intensa em regiões costeiras, onde o sinal químico ultrapassou 20% da composição das amostras, podendo chegar a 76% em locais onde rios que recebem efluentes (esgoto doméstico e industrial) se encontram com o mar. Nas áreas consideradas de mar aberto, distantes da costa, o sinal encontrado foi bem menor, em média 0,5%.
“Ainda assim, é um número significativo, considerando que esses pontos estão bem distantes de atividades humanas”, ressalta Costa.
Vale notar que essa “assinatura química” funciona como um radar, e não como uma balança. A tecnologia usada aponta que o poluente está lá e mostra o quanto ele se destaca no meio de todas as outras substâncias da amostra. Ou seja, o estudo revela quais produtos químicos estão na água e a proporção deles no todo, mas não mede a quantidade exata (concentração) de cada um em gramas ou miligramas. Para ter esse número exato, os cientistas precisariam fazer testes específicos para dosar cada poluente individualmente.
Alguns compostos só foram detectados por meio de uma ferramenta chamada redes moleculares. Em vez de procurar por uma correspondência exata nos bancos de dados, essa técnica agrupa os poluentes de acordo com semelhanças na estrutura das moléculas. Assim, mesmo que uma substância específica não esteja cadastrada, os cientistas conseguem identificá-la ao compará-la com moléculas parecidas que já são conhecidas. É o que acontece com as substâncias resultantes da metabolização de fármacos (metabólitos) pelo organismo humano ou de outros seres, que guardam traços químicos muito parecidos com o remédio original.
“Este é um dos estudos mais completos sobre a presença de poluentes na matéria orgânica dissolvida do oceano. Porém, ainda é uma primeira análise, que pode ser expandida para estudos mais focados em determinados poluentes e incluir outras regiões do planeta”, pondera Costa.
O pesquisador lembra que futuras investigações devem incluir áreas que ficaram de fora pela falta de estudos anteriores utilizando a mesma metodologia, como o Atlântico Sul, que banha a costa brasileira. Para isso, o professor da UC Riverside e coordenador do projeto, Daniel Petras, busca parceiros em outras partes do mundo.

Coautores do estudo processam amostras durante trabalho de campo na África do Sul (foto: Daniel Petras/UCR)
Tipos de poluentes
Os poluentes mais abundantes nas amostras, de modo geral, foram os industriais, principalmente de origem petroquímica. Fármacos foram os mais pronunciados em amostras coletadas em áreas de estuário (onde rios desaguam no mar) ou perto delas, principalmente em regiões urbanizadas. Os sinais mais intensos de pesticidas estavam na costa da África do Sul e no Caribe, mas foram quase inexistentes nas amostras de oceano aberto.
Entre os poluentes industriais, os cinco mais detectados foram encontrados em mais de 30% de todas as amostras. Entre as classes identificadas no estudo estão polialquileno glicóis, ftalatos e organofosfatos.
Os ftalatos são usados para tornar plásticos mais flexíveis e duráveis. Parte dos organofosfatos é empregada como aditivo em materiais industriais, inclusive como retardante de chama. Esses compostos chamam atenção por sua ampla dispersão no ambiente marinho e, em alguns casos, por riscos ambientais e à saúde já descritos na literatura científica.
“Esses resultados trazem mais evidências de que compostos orgânicos produzidos por atividades humanas, incluindo substâncias associadas a plásticos, já contribuem para uma porção substancial da matéria orgânica dissolvida nos oceanos e podem influenciar, de maneiras ainda pouco compreendidas, o ciclo do carbono e o funcionamento dos ecossistemas marinhos”, afirma Costa, que atualmente realiza pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e no Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) – também com bolsa da FAPESP.

Locais onde as amostras foram coletadas (imagem: Jarmo-Charles J. Kalinski et al./Nature Geoscience)
Com relação aos fármacos, cinco metabólitos apareceram em 10% a 37% das amostras. O mais frequente foi um metabólito do atenolol, usado no tratamento para hipertensão. Na sequência vieram delorazepam, um benzodiazepínico usado para tratamento de ansiedade; ácido nalidíxico, um antibiótico; cloroquina, antimalárico também empregado em algumas doenças autoimunes; e valsartana, outro anti-hipertensivo.
Costa ressalta que a detecção desses medicamentos não está ligada apenas ao uso amplo dessas substâncias, mas também a características como persistência e comportamento das moléculas no ambiente, que influenciam por quanto tempo elas permanecem na água e quão facilmente podem ser identificadas.
Entre os pesticidas, DEET e icaridina, usados em repelentes de insetos, foram detectados em 30% e 6% das amostras, respectivamente.
Os autores concluem que os resultados são um alerta sobre a necessidade de monitorar os poluentes de forma contínua e padronizada, com dados organizados e compartilhados segundo os princípios da ciência aberta (de acesso gratuito). Dessa forma, outros pesquisadores poderão acessá-los e utilizá-los em outros estudos, o que ajuda a ampliar a reprodutibilidade das análises e a compreender melhor os impactos dos compostos produzidos por humanos nos ecossistemas marinhos e no ciclo de carbono da Terra.
O artigo Widespread presence of anthropogenic compounds in marine dissolved organic matter pode ser lido em: nature.com/articles/s41561-026-01928-z.
Fonte ==> Folha SP