Matemática é uma descoberta ou criação da mente humana? – 18/03/2026 – Ciência

Fachada frontal da Academia de Atenas com colunas dóricas iluminadas ao entardecer. Duas estátuas de filósofos em mármore branco estão em destaque nas laterais da escadaria que leva à entrada principal. Bandeira grega hasteada no topo do edifício.

A importância da questão que dá título a este texto tem um impacto direto na matemática, mas também determina como entendemos a realidade e, em última instância, como concebemos nosso próprio pensamento.

As raízes da controvérsia remontam à Grécia clássica, há 2.500 anos, onde o apogeu da filosofia grega ocorreu graças à matemática. Desde então, o fascinante é que ambas as posições contaram com intelectuais de primeira linha ao longo da história.

O princípio de tudo: a Escola de Pitágoras

O primeiro a traçar este caminho foi o matemático e filósofo grego Pitágoras de Samos (570-495 a.C.).

Além de cunhar o termo “philosophia”, ele propôs a ideia revolucionária de tudo é feito de relações matemáticas: o “kosmos”, a harmonia musical e até mesmo conceitos abstratos como a justiça. Ele defendia que os números eram puros, fixos e eternos. E dizia acreditar que eles eram o caminho para acessar uma ordem oculta da existência (independente do ser humano).

Para seguir Pitágoras, um círculo de aproximadamente 500 homens e mulheres (é a escola conhecida mais antiga em que as mulheres tinham um papel intelectual ativo) formaram uma comunidade secreta: a escola pitagórica.

Aristóteles, embora divergisse da visão desse grupo de fiéis, reconheceu seu trabalho em “Metafísica”: “Foram as primeiras pessoas a cultivar a matemática. Não apenas a fizeram avançar, mas, alimentando-se dela, acreditaram que seus princípios eram os princípios de todos os seres”.

Para Pitágoras e sua escola, o importante não era a matemática como ferramenta, mas como ontologia (como um ser). Não é que os números “servissem” para descrever o mundo; eram o mundo. Uma ideia que evoluiu com o platonismo matemático.

Platão e a realidade eterna do número

O filósofo grego Platão —cujo nome verdadeiro era Aristocles (427-347 a.C.)— herda o conhecimento pitagórico, embora reestruture a ontologia do número seguindo sua famosa teoria dualista: mundo sensível e mundo inteligível. Por exemplo, em seu diálogo mais conhecido, “A República”, ele apresenta a geometria como aquilo que “existe eternamente” (no mundo inteligível).

Em “Menón”, ele mostra como um jovem escravo “resolve” um problema matemático graças à maiêutica socrática: fazer “nascer” um conhecimento a partir de perguntas. Assim, Platão honra tanto Pitágoras quanto seu mentor, Sócrates, ao sugerir que as verdades matemáticas não são aprendidas, mas existem de forma inata na mente humana e emergem por meio da reminiscência.

No “Timeu” (livro que leva o nome de um pitagórico), o filósofo sustenta que a matéria possui uma estrutura geométrica fundamental, formada por figuras regulares que mais tarde ficariam conhecidas como sólidos platônicos. Suas propriedades tornam essas formas únicas: existem apenas cinco.

Posteriormente, os sólidos platônicos foram procurados na natureza. Hoje sabemos que eles se encontram, por exemplo, em cristais, vírus, organismos unicelulares, gases e aglomerados de galáxias.

Euclides e Newton: pontos de uma mesma reta

O polímata que descreveu com precisão os sólidos platônicos foi Euclides de Alexandria (séculos 4º e 3º a.C.), e ele o fez na obra matemática mais influente de todos os tempos: “Elementos”. Com ela, nasce a geometria euclidiana.

Nessa compilação de 13 livros também aparece a mensagem de que a geometria oferece um caminho para as verdades atemporais. Para Euclides, os postulados (proposto cinco) e os axiomas dos quais se derivam os teoremas não são inventados, mas sim universalmente considerados verdadeiros (embora o postulado cinco relacionado às linhas paralelas tenha sido contestado).

Muitos séculos depois, Isaac Newton (1643-1727) utilizou a matemática para estabelecer as bases da física e da astronomia modernas com sua obra mais famosa: “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica”.

Em suas páginas, Newton demonstrou elegantemente que os movimentos do Cosmos podiam ser previstos por meio de cálculos.

Com isso, ele apoiou Galileu, que sustentava que “o livro da natureza está escrito em termos matemáticos”.

Um exemplo disso é a sucessão de Fibonacci: ela é encontrada em muitas flores, na distribuição das folhas ao longo do caule em todos os principais grupos de plantas terrestres (filotaxia) e no corpo humano. Há quem acredite que a espiral áurea associada a essa sequência também esteja presente na concha do molusco do gênero Nautilus, mas isso é um mito.

Em resumo, os objetos matemáticos se consolidam como idealizações adequadas para abordar o conhecimento da natureza. Poderíamos dizer que Euclides e Newton, juntamente com Platão, compõem o triângulo pitagórico perfeito onde a matemática é “descoberta”.

Poincaré e Einstein percorrem a perpendicular

A virada conceitual ocorre no final do século 19 e início do século 20. O polímata francês Henri Poincaré (1854-1912) defendia que se escolhem umas geometrias em detrimento de outras não porque sejam “verdadeiras” em sentido absoluto, mas porque simplificam nossa descrição do mundo.

Essa ideia se torna especialmente poderosa com o desenvolvimento das geometrias não euclidianas, que mostraram que o famoso quinto postulado de Euclides não era uma necessidade lógica. O espaço podia ser concebido de múltiplas maneiras coerentes. A geometria, portanto, já não descrevia o espaço, mas sim espaços possíveis.

O físico alemão Albert Einstein (1879-1955) levou essa concepção até suas últimas consequências. Na Relatividade Geral, o espaço-tempo deixa de ser um cenário rígido e euclidiano para se tornar uma entidade dinâmica e curva, descrita por meio da geometria riemanniana (assim chamada em homenagem ao matemático alemão Bernhard Riemann). A gravidade já não é uma força newtoniana, mas o efeito geométrico dessa curvatura. Paradoxalmente, uma matemática desenvolvida sem aplicação física direta acabou se tornando a linguagem mais precisa para descrever a estrutura do Universo.

Einstein apontou uma tensão fundamental: a matemática é extraordinariamente eficaz, mas sua relação com o mundo não é direta. Ela não reflete a realidade tal como ela é, mas sim como podemos formalizá-la.

Inventar para descobrir com Zenão

Descobrir e inventar são dois verbos que remetem a concepções ontológicas irredutíveis. Descobrir pressupõe que os entes matemáticos existam independentemente do sujeito que os pensa, enquanto inventar faz com que sua existência dependa do ato humano de conceituar, nomear e formalizar.

Voltemos brevemente à Grécia clássica. O paradoxo da dicotomia de Zenão de Eleia (século 5º a.C.) afirmava que o movimento parece impossível, e essa dificuldade conceitual perdurou por séculos. Mas a “invenção” matemática das séries infinitas permitiu mostrar que a soma desses passos infinitos converge para uma distância finita. Assim, embora essa ferramenta tenha sido uma criação humana, por meio dela “descobre-se” uma propriedade real do movimento, ilustrando assim a relação entre invenção e descoberta na matemática.

Portanto, a matemática provavelmente habita nesse ponto intermediário. Não inventamos a realidade, mas sim as linguagens com as quais a interpretamos. E a matemática é, talvez, essa linguagem refinada que nossa mente criou para explorar regularidades e conferir coerência ao que observamos.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original



Fonte ==> Folha SP – TEC

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *