Saúde Mental
Jovens LGBTQIAPN+ apresentam maior risco de uso de substâncias psicoativas
Pesquisa da USP avaliou dados de 1.492 pessoas sobre consumo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína; resultados sugerem a influência de fatores como discriminação, estigma e exclusão social como causas do comportamento
Saúde Mental
Jovens LGBTQIAPN+ apresentam maior risco de uso de substâncias psicoativas
Pesquisa da USP avaliou dados de 1.492 pessoas sobre consumo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína; resultados sugerem a influência de fatores como discriminação, estigma e exclusão social como causas do comportamento
Só o consumo de álcool foi semelhante entre os grupos: 85,9% entre jovens LGBT+ e 83,7% entre cis-heterossexuais (imagem: Sean Bernstein/Unsplash)
Agência FAPESP * – Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) revelou que jovens brasileiros integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ apresentam maiores taxas de uso de substâncias psicoativas, bem como iniciam o consumo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína mais cedo em comparação com cisgêneros heterossexuais. A sigla LGBTQIAPN+ representa a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero, englobando pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, transexuais, travestis, queer (pessoas que transitam fora dos padrões tradicionais de gênero e sexualidade, ou que ainda estão em processo de descoberta e questionamento sobre sua identidade), assexuais, pansexuais e não-binárias.
A pesquisa está sendo conduzida pelo psiquiatra Caio Petrus Monteiro Figueiredo, durante doutorado na FM-USP, com bolsa oferecida pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM). O orientador é o também psiquiatra Arthur Caye, gerente de pesquisa do CISM.
O CISM é um dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) da FAPESP, com sede na Universidade de São Paulo (USP) e parceria das federais de São Paulo (Unifesp) e do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O doutorando avaliou dados de 1.492 jovens, entre 9 e 21 anos, das cidades de São Paulo e Porto Alegre. O grupo faz parte da Brazilian High Risk Cohort (BHRC) – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais –, um dos mais importantes estudos do mundo sobre neurodesenvolvimento, que investiga as origens genéticas e ambientais dos transtornos. Também chamado “Conexão Mentes do Futuro”, o projeto faz parte das atividades do CISM.
Os participantes responderam a questionários sobre orientação sexual, identidade de gênero e uso de quatro substâncias psicoativas: álcool, tabaco, cannabis e cocaína. As análises estatísticas compararam as respostas de jovens LGBTQIAPN+ e cisgêneros heterossexuais, considerando fatores como idade, sexo ao nascimento, cor de pele e classe socioeconômica. Do total de participantes, 247 se identificaram como LGBTQIAPN+.
Também foram aplicados testes de regressão logística e análises de sobrevivência para estimar prevalência e idade de início do uso de substâncias. A “regressão logística” é uma técnica estatística que avalia relações entre uma e mais variáveis, servindo para estimar a probabilidade de um evento ocorrer. Já as “análises de sobrevivência” são um conjunto de métodos estatísticos que os cientistas usam em estudos epidemiológicos e clínicos para avaliar o tempo até um acontecimento determinado.
O estudo foi publicado em outubro no periódico International Review of Psychiatry.
Resultados
O estudo conduzido por Figueiredo apontou maiores taxas de consumo por jovens LGBTQIAPN+ para os quatro tipos de substâncias. Um total de 48% dos membros da comunidade usa tabaco, contra 37% dos cis-heterossexuais; 40% deles consomem cannabis versus 27% entre os demais; e 7,4% cocaína, contra 3,6%. Apenas o consumo de álcool foi semelhante entre os grupos: 85,9% para o primeiro e 83,7% para o segundo.
As análises também revelaram diferenças significativas em relação ao sexo de nascimento. Além de relatarem maior uso de tabaco, cannabis e cocaína, pessoas designadas como mulheres ao nascer e que se identificam com uma orientação sexual diferente da heteronormativa iniciaram o consumo dessas substâncias mais cedo, em média, entre 10 e 15 anos. Já as mulheres heterossexuais iniciaram com 13 a 17 anos.
O recorte relacionado à orientação sexual mostrou que as maiores taxas de uso foram entre as mulheres bissexuais. Do total delas, 77,9% usam álcool; 26,3% tabaco; 56% cannabis e 9,2% cocaína. Sobre a cor da pele, o estudo separou entre autodeclaração “branca” e “não branca” dada pelos pais dos participantes, mas não encontrou diferenças significativas. O mesmo aconteceu em relação ao status socioeconômico dos participantes.
Em resumo, a investigação científica aponta que jovens LGBTQIAPN+, em especial mulheres bissexuais, enfrentam risco ampliado de uso precoce e mais intenso de substâncias.
Fatores sociais e ciência de impacto
Para os pesquisadores envolvidos no estudo, os resultados sugerem a influência de fatores sociais e estruturais, como discriminação, estigma e exclusão social, para o consumo mais frequente e mais precoce de substâncias psicoativas entre esses jovens.
“Experiências de preconceito, rejeição e isolamento social aumentam o sofrimento psicológico, reduzem a busca por redes de apoio e serviços de saúde mental e podem acabar levando ao uso de drogas como ‘forma de enfrentamento’ entre jovens LGBTQIAPN+”, aponta Figueiredo.
Para o pesquisador, diante dos achados do estudo é recomendável que haja a implementação de estratégias de prevenção focadas no gênero e na diversidade sexual dos jovens brasileiros. “Ações devem ser integradas a programas escolares e comunitários, além de intervenções digitais que alcancem adolescentes em contextos de vulnerabilidade”, diz.
O artigo Patterns of substance use and initiation among LGBTQIAPN+ youth in Brazil: Evidence from a population-based cohort pode ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/09540261.2025.2573758.
* Com informações de Mainary Nascimento, do CISM.
Fonte ==> Folha SP