José de Nazaré: paternidade, presença e trabalho

Jonathas Argiles

Nessa semana, ao final de um dia de trabalho. Olhei para minha mesa e vi um espaço um pouco bagunçado, um pingo de café aqui, outro ali, enfim, normal.

Então, comecei a organizar minha mesa para o dia seguinte, fui limpar a cafeteira, caneca, cuia, copo, etc. Peguei um pano úmido, o álcool, limpei as gotas de café antes derramadas e, por um instante, me lembrei da Santa Missa.

Sim, olhei para a minha mesa de trabalho e me peguei fazendo – em certa medida – os mesmos movimentos que o Padre (Pai), quando está limpando o altar, guardando os cálices, patena, etc.

Como que, a minha mesa, fosse o meu altar. Sim, é na minha mesa de trabalho que coloco toda minha vida, de certa forma é onde escrevo, projeto, crio e elaboro campanhas inteiras.

É nela que leio, muitas vezes, que mateio solito, enfim. É o meu céu e o meu calvário.

E há dois mil anos foi isso que São José nos ensinou: o cotidiano também pode ser um lugar sagrado. O Evangelho não registra nenhuma palavra pronunciada por ele. Ainda assim, sua vida fala por meio do trabalho, da obediência e, principalmente, da presença.

José estava quando Maria precisava ser acolhida. Estava quando foi necessário partir para o Egito e proteger o Menino da perseguição de Herodes. Estava quando Jesus crescia em Nazaré. Estava em sua oficina, ensinando um ofício, sustentando sua casa e transformando o trabalho diário em uma forma concreta de amor.

Por isso, todos os dias eu consagro o meu dia de trabalho a São José. Pai, mestre, irmão, amigo, professor.

Mesmo que você não seja religioso, católico, enfim. Todos os dias essa é a oração que me guia no meu trabalho:

Ó glorioso São José, modelo de todos os que se consagram ao trabalho, alcançai-me a graça de trabalhar com espírito de penitência, em expiação dos meus pecados; de trabalhar com consciência, pondo o cumprimento do meu dever acima das minhas inclinações naturais; de trabalhar com agradecimento e alegria, olhando como uma honra o poder desenvolver por meio do trabalho os dons recebidos de Deus.

Alcançai-me a graça de trabalhar com ordem, constância, intensidade e presença de Deus, sem jamais retroceder ante as dificuldades; de trabalhar, acima de tudo, com pureza de intenção e desapego de mim mesmo, tendo sempre diante dos meus olhos todas as almas e as contas que prestarei a Deus a do tempo perdido, das habilidades inutilizadas, do bem omitido e das vaidades estéreis em meus trabalhos, tão contrárias a obra de Deus.

Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo a vossa imitação, ó patriarca São José. Esse será meu lema na vida e na hora da morte. Amém

Há algo nessa oração que ultrapassa a ideia de “trabalho”, obviamente. Ela não pede apenas capacidade para trabalhar mais, mas ordem, constância, consciência e presença. Essa é a diferença entre simplesmente cumprir tarefas e compreender que o trabalho também pode ser uma forma de entrega.

Jonathas Argiles

No Dia dos Pais, São José também nos convida a pensar sobre a paternidade para além dos grandes discursos. Ser pai, muitas vezes, é justamente e simplesmente, estar. É permanecer quando ninguém percebe, proteger sem fazer anúncio, orientar pelo exemplo e assumir responsabilidades que raramente recebem aplausos.

Por exemplo, existe uma passagem no evangelho de João (Jo 21, 2) que percebemos dois personagens que não possuem grande destaque.

Porém, quanto esses dois personagens não terão vivido sem que isso tenha sido relatado? Talvez tenham conversado com o Senhor, observado seus gestos e até visto a maneira como Ele tomava o café da manhã.

Esses personagens escondidos também seguiam o Senhor. Eles nos recordam daqueles momentos em que pensamos, erroneamente, que não estamos fazendo a diferença, que nossa oração não está sendo ouvida ou que nossas ações, por menores que sejam, não estão sendo percebidas.

Estamos ali, ainda que não sejamos descritos minuciosamente nos textos da história, mas visíveis aos olhos que verdadeiramente importam.

Esse estar, entretanto, exige de nós prontidão, magnanimidade, certeza e retidão.

Talvez a paternidade também seja construída assim. Muitos dos gestos que formam a vida de um filho jamais serão registrados ou lembrados. Ninguém escreverá sobre todas as vezes em que um pai acordou mais cedo, voltou cansado, renunciou a alguma coisa, ensinou uma tarefa ou permaneceu em silêncio ao lado do filho, que precisava dele. Isso não significa que esses gestos sejam pequenos; significa apenas que algumas das coisas mais importantes da vida acontecem sem testemunhas.

São José não precisou ocupar o centro da narrativa para cumprir plenamente sua missão. Ele trabalhou, cuidou e permaneceu. Sua presença não produziu discursos, mas ofereceu a Jesus um lar, um ofício, proteção e uma referência humana de paternidade.

Por isso que São José continua sendo tão atual. Em uma época em que tantas pessoas desejam ser vistas, reconhecidas e lembradas, ele nos ensina a dignidade de cumprir uma missão mesmo quando ninguém está olhando. Sua vida não foi construída pela necessidade de aparecer, mas pela disposição de servir.

Há uma diferença entre estar fisicamente em um lugar e verdadeiramente se fazer presente – quem é pai vai entender bem – porque a presença exige atenção. Exige interromper aquilo que estamos fazendo para escutar, perceber o que o outro necessita e aceitar que nem sempre teremos uma resposta pronta. Um pai presente não é aquele que resolve tudo, mas aquele cuja existência comunica ao filho: “você não precisa enfrentar isso sozinho”.

Isso também vale para o trabalho. Podemos passar horas diante de uma mesa sem realmente estar nela. Podemos executar tarefas de maneira automática, cumprir prazos e, ainda assim, permanecer ausentes daquilo que fazemos. São José nos recorda que o trabalho não é apenas aquilo que produzimos, mas também a maneira como nos oferecemos por meio dele.

Limpar a mesa ao final do dia pode ser mais do que organizar objetos. É preparar novamente o lugar da entrega. É reconhecer que, no dia seguinte, voltaremos para oferecer nossos dons, suportar nossas limitações e construir alguma coisa — mesmo que pequena — para aqueles que dependem de nós.

A paternidade também se constrói assim: na repetição silenciosa do cuidado.

Talvez, ao final, seja isso que Deus espere de nós no trabalho e na família: não necessariamente feitos extraordinários, mas a disposição de estar por inteiro onde fomos colocados.

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