Inteligência Artificial pode transformar o trabalho dos historiadores, mas não substitui o olhar humano, aponta estudo

Marcos Rogério Martins Costa

Pesquisa publicada na revista Cadernos Cajuína (ISSN 2448-0916), que tem mais de duas décadas de existência e Qualis A3, discute como ferramentas de Inteligência Artificial (IA) estão ajudando a recuperar documentos históricos, analisar grandes acervos e até revelar textos considerados perdidos, ao mesmo tempo em que levanta questões sobre ética, autenticidade e interpretação do passado. Desde o lançamento do ChatGPT, sabemos que a IA pode escrever textos, produzir imagens, traduzir idiomas, analisar grandes volumes de informações e, com isso,  auxiliar profissionais de diferentes áreas. Mas uma pergunta começa a ganhar espaço também entre pesquisadores das Ciências Humanas: o que acontece quando a IA entra no trabalho de quem investiga e interpreta o passado?

Essa questão está no centro do artigo científico “O historiador no presente-futuro da Inteligência Artificial: inovação, ética e transformação da prática historiográfica”, publicado em julho de 2026 na revista Cadernos Cajuína. O estudo é assinado pelos pesquisadores Marcos Rogério Martins Costa, docente da Universidade Estadual de Goiás (UEG); Marcelo Pereira Passos, historiador formado pela mesma instituição; e Jadir Gonçalves Rodrigues, também professor da UEG. A pesquisa discute uma transformação que já está em andamento. Sistemas baseados em IA vêm sendo utilizados para digitalizar documentos, reconhecer padrões, organizar grandes bases de dados e auxiliar pesquisadores na recuperação de informações históricas.

Fonte: Reprodução da capa de divulgação do artigo na Revista Cajuína, v. 11, n. 9, 2026.

De modo geral, isso significa que tarefas que anteriormente poderiam exigir meses, ou até anos de investigação documental podem ganhar novas possibilidades com o uso de ferramentas computacionais.  Mas os pesquisadores fazem um alerta importante: “a tecnologia pode ampliar a capacidade de investigação do historiador, mas não deve ocupar o lugar da interpretação crítica humana”.

Quando algoritmos ajudam a investigar o passado

Uma das áreas em que a IA apresenta maior potencial para a pesquisa histórica é a análise de grandes quantidades de documentos. Arquivos públicos, bibliotecas, museus e universidades possuem milhões de páginas de manuscritos, livros, jornais, cartas, fotografias e documentos administrativos. Boa parte desse patrimônio histórico já está sendo digitalizada, criando enormes acervos digitais. O problema é que digitalizar um documento não significa necessariamente compreender o seu conteúdo.

É nesse ponto que entram ferramentas de aprendizado de máquina, reconhecimento de padrões e processamento de linguagem. Elas podem auxiliar na identificação de palavras, pessoas, lugares, datas e relações existentes entre milhares ou milhões de documentos. Estudos sobre Humanidades Digitais já demonstram que recursos computacionais podem ampliar as formas pelas quais pesquisadores trabalham com fontes históricas. Autores como Anne Burdick e colaboradores, por exemplo, discutem como a expansão das tecnologias digitais modificou métodos de investigação nas Humanidades. No Brasil, Alexandre Fortes e Leandro Alvim também analisaram como códigos, classificações e sistemas digitais passam a fazer parte do próprio ofício do historiador. A chegada dos modelos mais recentes de IA amplia ainda mais esse debate.

IA ajuda a revelar documentos que pareciam perdidos

Talvez um dos exemplos mais impressionantes dessa transformação venha da arqueologia. O artigo destaca experiências contemporâneas nas quais tecnologias computacionais estão sendo utilizadas para recuperar textos históricos extremamente danificados. Entre elas está o Vesuvius Challenge, iniciativa internacional que utiliza técnicas avançadas de processamento de imagens e Inteligência Artificial para tentar ler papiros carbonizados pela erupção do Monte Vesúvio, ocorrida no ano 79 d.C.

Os documentos são tão frágeis que os abrir fisicamente poderia destruí-los. A solução encontrada pelos pesquisadores foi combinar técnicas de escaneamento com algoritmos capazes de identificar sinais de tinta nas estruturas internas dos papiros. Dessa maneira, partes de textos que permaneceram inacessíveis durante aproximadamente dois mil anos começaram a ser recuperadas digitalmente.

Outro exemplo discutido pelos pesquisadores é o Fragmentarium, projeto dedicado ao estudo e à reconstrução digital de fragmentos de manuscritos medievais. Essas experiências demonstram uma mudança importante: computadores não servem apenas para armazenar documentos históricos. Cada vez mais, também podem auxiliar na descoberta de relações e informações que seriam extremamente difíceis de identificar apenas pela observação humana.

O historiador vai desaparecer?

O avanço dessas tecnologias inevitavelmente provoca outra pergunta: se uma Inteligência Artificial consegue pesquisar milhares de documentos, reconhecer padrões e produzir textos, ainda precisaremos de historiadores? Para os autores do estudo, a resposta passa pela compreensão do que realmente constitui o trabalho historiográfico. História não é simplesmente reunir informações sobre acontecimentos passados.

O historiador precisa analisar quem produziu determinado documento, em qual contexto ele foi elaborado, quais interesses estavam envolvidos, que conceitos eram utilizados naquele período e quais vozes foram registradas, ou excluídas, das fontes disponíveis. Essa preocupação aproxima o estudo de uma longa tradição teórica da historiografia e da filosofia.

Autores como Reinhart Koselleck, Hans-Georg Gadamer, Quentin Skinner, J. G. A. Pocock e Ludwig Wittgenstein, mobilizados na discussão desenvolvida pelos pesquisadores, ajudam a mostrar que compreender um texto ou acontecimento histórico exige muito mais do que localizar palavras ou identificar padrões estatísticos. Palavras mudam de significado ao longo do tempo. Conceitos políticos e sociais também carregam experiências históricas específicas. Um algoritmo pode encontrar milhares de ocorrências de determinada palavra em documentos antigos. O desafio do historiador continua sendo compreender o que aquela palavra significava para as pessoas daquele período e naquele contexto.

O perigo de uma história produzida sem contexto

As mesmas tecnologias capazes de ampliar o acesso ao passado também criam novos problemas. Um deles é a possibilidade de produção de informações aparentemente convincentes, mas historicamente incorretas. Modelos generativos podem produzir textos, imagens, documentos e reconstruções extremamente realistas. Isso torna cada vez mais importante verificar a origem das informações e a autenticidade das fontes. Na prática, o historiador do futuro poderá enfrentar um cenário paradoxal.

Ao mesmo tempo em que terá acesso a uma quantidade de documentos jamais imaginada pelas gerações anteriores, também precisará desenvolver métodos cada vez mais sofisticados para distinguir documentos autênticos de conteúdos manipulados ou artificialmente produzidos. Essa preocupação ultrapassa a História.

A UNESCO, em sua Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial e em documentos posteriores dedicados à IA generativa na educação e na pesquisa, tem chamado atenção para princípios como transparência, responsabilidade, supervisão humana e proteção dos direitos fundamentais no desenvolvimento e utilização dessas tecnologias. No campo da pesquisa histórica, essas questões ganham uma dimensão adicional: como garantir a autenticidade da memória coletiva em uma época na qual imagens, vozes e documentos podem ser artificialmente produzidos?

Entre o passado e o “presente-futuro”

Para discutir essa transformação, os pesquisadores recorrem especialmente às contribuições do historiador alemão Reinhart Koselleck. Este mostrou que as sociedades estabelecem relações complexas entre experiências acumuladas no passado e expectativas construídas em relação ao futuro. A partir dessa perspectiva, o artigo utiliza a ideia de “presente-futuro” para refletir sobre um momento em que tecnologias que até pouco tempo pertenciam ao campo da ficção ou das expectativas futuras passam rapidamente a integrar o cotidiano da pesquisa.

A Inteligência Artificial coloca o historiador justamente nessa fronteira. Ao mesmo tempo em que investiga sociedades desaparecidas há décadas, séculos ou milênios, o pesquisador precisa aprender a trabalhar com tecnologias que estão transformando profundamente a maneira como o próprio conhecimento histórico é produzido.

Uma nova ferramenta e não um novo historiador

A principal conclusão do estudo não apresenta a IA nem como inimiga nem como substituta da História. Ela aparece como uma ferramenta auxiliar. Algoritmos podem acelerar pesquisas, localizar documentos, organizar informações e revelar padrões que seriam difíceis de perceber manualmente. Também podem ampliar o acesso a acervos históricos e colaborar na preservação de documentos. Mas transformar essas informações em conhecimento histórico continua exigindo interpretação.

É necessário compreender contextos, confrontar fontes, identificar silêncios, reconhecer interesses, avaliar contradições e construir explicações fundamentadas sobre sociedades e acontecimentos. Em outras palavras, quanto maior for a capacidade tecnológica disponível para investigar o passado, maior poderá ser também a necessidade de pensamento crítico. O desafio do historiador diante da IA talvez não seja disputar com as máquinas quem consegue processar mais documentos. Será aprender a utilizar essa capacidade tecnológica sem abrir mão justamente daquilo que caracteriza o conhecimento histórico: a interpretação crítica das experiências humanas no tempo.

SAIBA MAIS

Artigo científico

COSTA, Marcos Rogério Martins; PASSOS, Marcelo Pereira; RODRIGUES, Jadir Gonçalves. O historiador no presente-futuro da Inteligência Artificial: inovação, ética e transformação da prática historiográfica. Cadernos Cajuína, v. 11, n. 9, e3550, 2026. Disponível em: https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/3550
Acessado em: 21 ago. 2026.

Fonte: Imagem produzida com Inteligência Artificial Generativa (ChatGPT/OpenAI), 2026.

UNESCO. Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial.  Disponível em: https://www-unesco-org.translate.goog/en/articles/recommendation-ethics-artificial-intelligence?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc
Acessado em: 21 ago. 2026.

Foto Capa Fonte: Imagem produzida com Inteligência Artificial Generativa (ChatGPT/OpenAI), 2026.

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