Entre os dias 28 e 30 de abril, a Universidade Estadual de Goiás (UEG), por meio do Câmpus Sudoeste, Sede Quirinópolis, promoveu o II Diálogos em Diversidade e Inclusão (Diadi), evento que reuniu pesquisadores, docentes, estudantes e comunidade externa para discutir os desafios contemporâneos da inclusão e das políticas públicas no ensino superior. A iniciativa integrou o IX Ciclo de Palestras do Câmpus e abriu um espaço de reflexão crítica sobre pertencimento, diversidade e transformação social.
Participei do evento conduzindo uma roda de pertencimento sobre inteligência artificial (IA), inclusão e educação, temática que vem atravessando minhas pesquisas acadêmicas e minha atuação como professor da UEG – Câmpus Nordeste, Sede Formosa, no curso de Letras. Em um momento em que a IA deixa de ser apenas uma inovação tecnológica para ocupar o centro das discussões educacionais, científicas e éticas, torna-se urgente refletir sobre o modo como utilizamos essas ferramentas dentro e fora das universidades. Por isso, acolhi com entusiasmo a oportunidade de participar do referido evento.

Fonte: UEG – Câmpus Sudoeste, Sede Quirinópolis. Créditos: Equipe Organizadora do evento.
Durante o encontro, discutimos a proposta da “morfossintaxe dos prompts”, conceito que desenvolvi e apresentei em 2025 como resultado de meu pós-doutoramento na Fundação Oswaldo Cruz, no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), junto ao Programa de Pós-Graduação em Vigilância Sanitária, sob supervisão do Prof. Dr. Fausto Klaund Ferraris, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A proposta parte da compreensão de que a construção de prompts, comandos direcionados às inteligências artificiais generativas, não constitui apenas uma operação técnica, mas também linguística, discursiva e cognitiva.
Ao longo da apresentação, demonstrei como a organização sintática, a clareza textual, a contextualização e a intencionalidade discursiva influenciam diretamente a qualidade das respostas produzidas pela IA. Mais do que instruções mecânicas, os prompts podem ser entendidos, discursiva e pragmaticamente, como formas de pensamento, organização argumentativa e domínio da linguagem. Nesse sentido, entender a morfossintaxe dos prompts significa também discutir acessibilidade, inclusão e letramento digital, uma vez que estudantes e pesquisadores precisam desenvolver competências críticas para dialogar de maneira consciente e estratégica com essas tecnologias.
Diante disso, ferramentas de leitura automatizada, tradução, adaptação textual e personalização da aprendizagem possuem potencial para reduzir barreiras enfrentadas por estudantes com deficiência, neurodivergências ou dificuldades de aprendizagem. Contudo, é preciso reconhecer que nenhuma tecnologia é neutra. A forma como ela é aplicada determina se será instrumento de emancipação ou mecanismo de aprofundamento das desigualdades. Ou seja, não é só usar a IA, mas empregá-la de forma ética e responsável.

Fonte: UEG – Câmpus Sudoeste, Sede Quirinópolis. Créditos: Equipe Organizadora do evento.
Foi justamente essa preocupação que permeou os debates do Diadi. A universidade contemporânea precisa compreender que inclusão não se resume ao acesso físico aos espaços acadêmicos. Inclusão significa, sobretudo, garantir permanência, escuta, participação e condições reais para que diferentes sujeitos produzam conhecimento. Nesse cenário, a IA surge simultaneamente como possibilidade e também como desafio.
Ao longo da roda de conversa, abordamos os impactos éticos do uso indiscriminado dessas ferramentas na produção acadêmica. A IA pode auxiliar na organização de ideias, na revisão textual e na ampliação do acesso à informação, mas não pode, enfatizo, substituir a reflexão crítica humana. Quando terceirizamos completamente o pensamento para a máquina, comprometemos justamente aquilo que constitui a essência da ciência: a capacidade de interpretar, questionar e produzir novos sentidos sobre a realidade. A nossa humanidade é posta em xeque, porque a mecanizamos.
A discussão torna-se ainda mais relevante quando observamos o crescimento acelerado dessas tecnologias em ambientes educacionais. Hoje, alunos utilizam sistemas de IA para elaborar trabalhos, produzir textos e até estruturar pesquisas científicas. O problema não está necessariamente no uso da ferramenta, mas na ausência de critérios éticos, metodológicos e pedagógicos para orientar sua utilização. A universidade precisa liderar esse debate de maneira responsável, criando diretrizes claras e promovendo formação crítica para docentes e discentes, como já disse diversas vezes em palestras e outras reportagens.
Nesse sentido, o II Diadi mostrou que discutir diversidade também implica discutir tecnologia. Não há mais como separar inclusão social das transformações digitais que atravessam a sociedade e a constituem. A IA já influencia o modo como aprendemos, ensinamos, pesquisamos e nos relacionamos com o conhecimento: do Tinder ao WhatsApp, a IA está presente. Ignorar essa realidade seria negar um dos principais debates do nosso tempo.
Trago, ainda, um ponto de vista interessante. A mestranda em Nanobiotecnologia pela Universidade de Brasília (UnB) e sócia-administradora da startup Escrita com Ciência, Erika Gadelha, destacou durante um debate recente na academia que a IA já não pode mais ser compreendida como uma simples tendência passageira ou uma “modinha tecnológica”, mas como uma nova forma de atuação da sociedade civil organizada, capaz de reconfigurar relações sociais, científicas e produtivas em escala global. Segundo a bióloga, “a tecnologia não existe fora da experiência humana; ela é uma extensão de nossas capacidades cognitivas, sociais e culturais”. Erika ressaltou ainda que o próprio desenvolvimento do homo sapiens esteve diretamente ligado à capacidade humana de criar tecnologias, produzir linguagem e transformar a natureza por meio do conhecimento.
Voltando ao evento, a psicóloga Mirella Paola Biela, que atua na UEG em Quirinópolis, nos recebeu com acolhimento e sensibilidade, ressaltando a importância de ações voltadas ao desenvolvimento humano, emocional e acadêmico dos estudantes. Segundo essa profissional, “promover espaços de escuta, palestras e rodas de conversa fortalece o sentimento de pertencimento dos alunos dentro da universidade e amplia o cuidado com a saúde mental e com a inclusão”. Essa atuação demonstra como o trabalho interdisciplinar entre educação, psicologia e políticas institucionais pode transformar o ambiente universitário em um espaço mais humano e acessível.
Outro importante destaque do evento foi a contribuição do professor Raoni Ribeiro Guedes Fonseca Costa, atualmente Diretor do UEG Câmpus Sudoeste – Sede Quirinópolis. Em suas intervenções, o docente ressaltou a importância de iniciativas que aproximem universidade e comunidade, fortalecendo ações voltadas à inclusão, ao diálogo interdisciplinar e à formação crítica dos estudantes. Segundo o estudioso, “eventos como o Diadi fazem com que a universidade se torne o espaço de construção coletiva, respeito às diferenças e, sobretudo, valorização da diversidade humana”.

À esquerda, o Prof. Dr. Raoni Costa, ao centro o Prof. Dr. Marcos Costa e à direita, a psicóloga Mirella Biela.
Fonte: UEG – Câmpus Sudoeste, Sede Quirinópolis. Créditos: Equipe Organizadora do evento.
Por tudo isso, posso dizer que, em Quirinópolis, o II Diadi reafirmou justamente esse compromisso: construir uma universidade mais inclusiva, dialógica e preparada para os desafios do futuro. E talvez a principal lição do evento seja esta: a tecnologia só faz sentido quando colocada a serviço de nossa humanidade – e nunca o inverso disso.