José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Registros produzidos diariamente pelos sistemas nacionais de informação em saúde, muitos deles vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS), vêm sendo transformados em uma poderosa ferramenta para municiar políticas públicas, medir a efetividade de vacinas, identificar desigualdades sociais e detectar precocemente surtos infecciosos. Segundo o médico imunologista Manoel Barral-Netto, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na Bahia, o Brasil reúne condições excepcionais para esse tipo de investigação por possuir um dos maiores acervos de dados em saúde do mundo, acumulado ao longo de décadas e abrangendo quase toda a população.
“O desafio é transformar esses dados em conhecimento útil para melhorar a saúde da população”, afirmou Barral-Netto durante a 4ª Conferência FAPESP 2026, realizada na última sexta-feira (26/06).
Esse patrimônio informacional inclui registros nacionais de nascimentos, óbitos, internações hospitalares, vacinação, atenção primária e vigilância epidemiológica, organizados em bases consolidadas desde a criação do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), em 1991. O Datasus é o órgão do Ministério da Saúde responsável por desenvolver, manter e integrar os sistemas nacionais de informação em saúde do SUS.
Segundo o pesquisador, poucos países dispõem de uma cobertura populacional tão ampla. “Os nossos dados não são ideais, mas são muito melhores do que muita gente no Brasil pensa. Eles permitem responder perguntas extremamente importantes, desde que sejam analisados com rigor”, sublinhou o pesquisador.
A conferência, intitulada “Não é sorte, é ciência: Jogando os dados a favor da saúde”, foi aberta pelo presidente da Fundação, Marco Antonio Zago, que destacou a trajetória científica do pesquisador e sua contribuição para a saúde pública brasileira. “Conheço o professor Barral há mais de 20 anos. Trabalhamos juntos, interagimos frequentemente e, com isso, a minha admiração por sua clareza de pensamento, criatividade e capacidade de trabalho tem aumentado progressivamente”, disse. Segundo Zago, a carreira de Barral-Netto “combina pesquisa básica, pesquisa translacional e formulação de políticas científicas”. Mais recentemente, passou a contribuir decisivamente, também, para a construção da infraestrutura brasileira de análise de grandes bases de dados em saúde, permitindo o desenvolvimento de políticas públicas baseadas em evidências.
Ao longo da palestra, Barral-Netto mostrou como essa infraestrutura vem sendo utilizada por organismos como o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fiocruz-Bahia, e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde Digital (DigiSaúde), sediado na Fiocruz Bahia e coordenado por Barral-Netto.
Criado em 2016 a partir de uma iniciativa concebida pelo epidemiologista Maurício Barreto, cuja contribuição Barral-Netto fez questão de destacar, o Cidacs beneficiou-se com o apoio de agências nacionais e internacionais de fomento e passou a integrar grandes bases de dados administrativos, preservando a identidade dos cidadãos em ambiente informacional altamente seguro e permitindo sua utilização em políticas públicas e pesquisa científica.
Hoje o Cidacs sustenta a maior coorte populacional do mundo. No contexto da epidemiologia e da saúde pública, uma coorte é um conjunto de pessoas que compartilham uma característica comum e são acompanhadas ao longo do tempo para investigar como diferentes fatores influenciam sua saúde ou a ocorrência de determinados eventos. O aspecto essencial de uma coorte é o acompanhamento longitudinal. Em vez de observar apenas um retrato instantâneo da população, os pesquisadores acompanham a trajetória dos indivíduos ao longo dos anos, verificando, por exemplo, quem desenvolve uma doença, quem é hospitalizado, quem recebe uma vacina ou quais fatores estão associados a maior ou menor risco de determinados desfechos.
Embora mantenha o nome histórico de “Coorte de 100 Milhões de Brasileiros”, ela reúne atualmente informações de cerca de 140 milhões de pessoas que passaram pelo Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), integradas a diversas bases nacionais de dados, entre elas o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) e o Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Dependendo do projeto de pesquisa, a integração pode incluir ainda outras bases, além de registros de programas sociais, como o Bolsa Família, ampliando a capacidade de investigar determinantes da saúde, avaliar políticas públicas e acompanhar desfechos em saúde ao longo do tempo.
Os resultados já produzidos ilustram o potencial dessa abordagem. Estudos mostraram, por exemplo, que programas de transferência de renda reduziram significativamente a mortalidade infantil evitável no Nordeste; que desigualdades socioeconômicas continuam influenciando os desfechos em saúde mesmo sob cobertura universal do SUS; e que eventos climáticos extremos afetam de maneira muito mais intensa crianças pertencentes às famílias mais pobres.
Um desses trabalhos revelou que períodos prolongados de seca aumentam em mais de 18% a mortalidade de crianças menores de 5 anos, sobretudo entre famílias de baixa renda. Outro estudo, publicado recentemente na Nature Medicine, demonstrou que pessoas consideradas curadas da tuberculose continuam apresentando risco elevado de morte durante um período de até 14 anos após o diagnóstico, indicando que o acompanhamento clínico deveria prosseguir muito além do término do tratamento.
Quanto ao DigiSaúde, trata-se de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) que integra ciência de dados, inteligência artificial e saúde pública para transformar grandes bases de dados em ferramentas capazes de prever riscos, orientar políticas públicas e fortalecer a resposta do SUS aos principais desafios sanitários do país.
Saúde pública de precisão
Barral-Netto lembrou que a saúde digital percorreu um longo caminho desde os primeiros prontuários eletrônicos implantados nas décadas de 1960 e 1970. Hoje, além dos registros clínicos digitalizados, incorpora sequenciamento genômico em tempo real, inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, telemedicina, dispositivos vestíveis, análise de mobilidade populacional (fundamental para a previsão da propagação de patógenos) e sistemas de vigilância epidemiológica (capazes de integrar informações provenientes de diferentes fontes). “Podemos tomar decisões com base em dados muito recentes, o que proporciona um grande ganho em agilidade”, afirmou.
A partir dessa infraestrutura, o pesquisador apresentou o conceito de saúde pública de precisão. Adaptando para a saúde coletiva uma ideia originalmente desenvolvida na escala individual, a proposta consiste em oferecer “a intervenção certa, para a população certa, no momento certo”. Em vez de formular políticas homogêneas para toda a população, ela busca identificar grupos específicos que apresentem maior vulnerabilidade ou respondam de maneira diferente às intervenções em saúde.
Barral-Netto ilustrou essa abordagem com o debate recente sobre a suspensão cautelar da estratégia de vacinação contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A medida foi adotada após a notificação de 42 eventos adversos entre cerca de 500 mil pessoas vacinadas, cuja eventual relação causal com o imunizante permanece sob investigação. Segundo ele, mesmo quando um risco existe, ele frequentemente se restringe a grupos muito específicos, definidos por idade, condição clínica ou outros fatores. “Às vezes basta modificar a recomendação para um determinado grupo. O benefício coletivo da vacinação continua sendo muito maior do que um evento adverso extremamente raro”, pontuou.
O pesquisador lembrou ainda um princípio frequentemente atribuído a Rui Barbosa: tratar igualmente pessoas diferentes não produz justiça. Na saúde pública, afirmou, esse princípio significa reconhecer diferenças biológicas, sociais, econômicas e ambientais para construir políticas mais eficientes e equitativas.
Foi também a partir dessa infraestrutura que nasceu, durante a pandemia de COVID-19, o VigiVac, sistema de vigilância ativa criado pelo governo federal para avaliar continuamente a efetividade e a segurança das vacinas em condições reais de utilização. Como explica Barral-Netto, eficácia e efetividade representam conceitos distintos. A eficácia é medida em ensaios clínicos randomizados, realizados em condições rigorosamente controladas. A efetividade, por sua vez, corresponde ao desempenho da vacina observado na população, quando entram em jogo fatores como idade, doenças preexistentes, diferenças socioeconômicas e atraso na aplicação das doses. “É a efetividade que interessa para a saúde pública. É ela que mostra quanto a vacinação realmente protege a população”, explicou.
Para produzir essas estimativas, o VigiVac integra registros individuais de vacinação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) com informações sobre hospitalizações, óbitos e notificações de casos graves, reutilizando bases já existentes do SUS. Como todos os dados são gerados rotineiramente pelo sistema de saúde, o monitoramento pode ser realizado continuamente e praticamente sem custo adicional.
Uma das primeiras aplicações do sistema foi a avaliação das vacinas utilizadas durante a pandemia de COVID-19. Os estudos conduzidos pela equipe demonstraram, por exemplo, que o esquema heterólogo composto por duas doses da CoronaVac seguidas de reforço com a vacina BNT162b2, da Pfizer-BioNTech, alcançou efetividade de aproximadamente 91% contra hospitalizações e de 94% contra óbitos — resultados posteriormente publicados na revista Nature Medicine. Os trabalhos também mostraram que a combinação de plataformas vacinais diferentes produzia proteção superior à inicialmente prevista.
Outra contribuição recente apresentada na conferência refere-se à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), causador do câncer cervical. Utilizando a mesma infraestrutura de integração de dados, pesquisadores do Cidacs demonstraram que a imunização reduz significativamente tanto as lesões precursoras quanto a incidência do câncer do colo do útero, um resultado considerado particularmente relevante por ter sido obtido em um país de renda média, utilizando dados do mundo real.
Para Barral-Netto, o principal mérito do VigiVac está em demonstrar que registros administrativos originalmente produzidos para a gestão do SUS podem gerar ciência de excelência internacional. “Esses dados não foram coletados para pesquisa. Foram produzidos para administrar o sistema de saúde. Mas, quando analisados adequadamente, permitem responder perguntas científicas extremamente importantes”, enfatizou.
Detecção antecipada de surtos infecciosos
O mesmo princípio orienta o AESOP (sigla de Alert-Early System of Outbreaks with Pandemic Potential), projeto atualmente coordenado por Barral-Netto e destinado à detecção antecipada de surtos infecciosos. Em vez de esperar que pacientes graves cheguem aos hospitais, o sistema procura identificar sinais muito mais precoces de circulação de agentes infecciosos. Para isso, integra três conjuntos principais de informações: atendimentos por síndrome gripal na atenção primária, dados semanais sobre a venda de medicamentos isentos de prescrição e análises metagenômicas capazes de identificar centenas de patógenos por meio de evidências genéticas.
O sistema detecta uma anomalia com base nos dados de atendimentos, farmácias etc. Em seguida, orienta a coleta de amostras clínicas de pacientes na região sob alerta. Essas amostras são submetidas a sequenciamento metagenômico, permitindo identificar patógenos conhecidos e até novos vírus. Assim, as evidências genéticas são encontradas em amostras clínicas de pacientes, não em amostras ambientais. No entanto, o projeto AESOP também desenvolve uma linha complementar de vigilância ambiental, com estudos específicos sobre detecção de vírus em águas residuais (esgoto), por exemplo.
Essas camadas de informação são processadas por modelos estatísticos e algoritmos de aprendizado de máquina que identificam desvios significativos em relação ao comportamento esperado e emitem alertas antes que o surto se consolide.
Segundo Barral-Netto, essa estratégia permite antecipar em duas a três semanas a identificação de surtos respiratórios, oferecendo tempo para que estados e municípios reforcem ações de vigilância, ampliem a capacidade assistencial e orientem a população. “O município ganha duas ou três semanas para agir. Em vigilância epidemiológica, isso faz uma enorme diferença”, resumiu.
Os primeiros resultados do AESOP foram obtidos em um projeto-piloto realizado no Amazonas. Conforme dados apresentados na conferência, 72 profissionais de vigilância foram treinados, 86 surtos respiratórios foram detectados e 87% dos alertas emitidos pelo sistema foram posteriormente confirmados pelos municípios, beneficiando uma população de aproximadamente 4 milhões de habitantes. A plataforma está sendo expandida para todo o país e também para a vigilância de arboviroses (doenças infecciosas transmitidas por insetos, principalmente mosquitos). Nesse caso, além das informações provenientes dos serviços de saúde, passam a ser incorporados indicadores como a venda de repelentes e outros produtos relacionados ao controle da dengue, buscando identificar mudanças no comportamento da população que possam sinalizar precocemente a circulação desses vírus.
Governança, privacidade e soberania dos dados
Barral-Netto sublinhou que nenhuma dessas iniciativas seria viável sem uma estrutura robusta de governança dos dados. Como disse, a confiança da sociedade depende da garantia de que informações pessoais jamais sejam utilizadas de forma inadequada. No Cidacs, pesquisadores nunca recebem acesso aos bancos originais. A integração das diferentes bases é realizada por uma equipe especializada em um ambiente computacional de alta segurança, onde identificadores pessoais são utilizados apenas durante o processo de vinculação dos registros. Em seguida, esses identificadores são removidos, e apenas conjuntos de dados desidentificados são disponibilizados para análise. Ele descreveu ainda a infraestrutura física do centro, que inclui salas de acesso controlado, computadores isolados da internet, conexões dedicadas, monitoramento permanente e mecanismos que impedem a extração não autorizada de informações.
Ao tratar dos desafios futuros, defendeu três prioridades para a saúde digital brasileira: ampliar a interoperabilidade entre os diferentes sistemas de informação do SUS, incorporar de forma crescente ferramentas de inteligência artificial às atividades de vigilância epidemiológica e fortalecer a soberania nacional sobre dados estratégicos. Para Barral-Netto, esse último ponto merece atenção especial. “Hoje, muitas vezes, nem nossos e-mails institucionais estão sob infraestrutura nacional. Quando falamos de dados de saúde de mais de 200 milhões de brasileiros, a responsabilidade é muito maior”, observou.
O evento teve a participação do professor Oswaldo Baffa Filho, coordenador da comissão organizadora das Conferências FAPESP 2026, e de Soraya Smaili, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Baffa observou que um dos grandes desafios contemporâneos consiste em extrair conhecimento de enormes volumes de informação para apoiar decisões qualificadas. Na mesma linha, Smaili ressaltou que as grandes bases nacionais de informação representam uma nova fronteira para a pesquisa em saúde. Segundo ela, a experiência desenvolvida pelo Cidacs e pelo DigiSaúde demonstra como a integração segura dessas informações vem ampliando as possibilidades da pesquisa biomédica, fortalecendo a vigilância epidemiológica e subsidiando políticas públicas.
Ao concluir a conferência, Barral-Netto voltou ao tema que atravessou toda a sua apresentação: o verdadeiro valor dos grandes bancos de dados não está no volume de informações que armazenam, mas na capacidade de transformá-las em conhecimento útil para a sociedade. “Não é sorte, é ciência”, resumiu, retomando o lema que deu título à palestra. E acrescentou: “Os dados já existem. O que precisamos é saber utilizá-los para produzir evidências que melhorem a vida das pessoas”.
A 4ª Conferência FAPESP 2026, “Não é sorte, é ciência: Jogando os dados a favor da saúde”, pode ser acessada em: youtu.be/fPF-A90MWQI.
Fonte ==> Folha SP