Gastronomia tradicional de Florianópolis: do mar direto para a mesa

Publicada em 21/02/2026

Entre redes, barcos e tradição açoriana, a cultura alimentar da ilha preserva sabores que nascem na pesca artesanal e chegam frescos à mesa.

Gastronomia tradicional de Florianópolis não é apenas sobre frutos do mar. É sobre identidade, herança cultural e um modo de vida que respeita o tempo das marés. Quando cheguei à ilha, não demorei a perceber que ali o mar não é paisagem — é sustento, memória e rotina.

A pesca artesanal ainda pulsa em bairros históricos e comunidades tradicionais. Na temporada da tainha, por exemplo, a praia se transforma em palco de cooperação: homens atentos ao movimento do cardume, redes sendo lançadas, famílias acompanhando da areia. É alimento, mas também é celebração.

Foi vivendo essa rotina que comecei a entender, na prática, o que significa a gastronomia tradicional de Florianópolis.

Lembro da primeira vez que fui ao Bar do Arante, no Pântano do Sul. Antes mesmo de provar o peixe fresco, fui impactada pelo cenário: paredes cobertas por bilhetinhos deixados por clientes ao longo de décadas. Cada papel colado ali carrega desejos, promessas e histórias. Enquanto aguardava meu prato — peixe grelhado com pirão e arroz — percebi que aquele restaurante não servia apenas comida; servia memória afetiva. Comer ali é participar de um ritual coletivo.

Outra experiência marcante foi atravessar a ponte e ir até Governador Celso Ramos para conhecer o restaurante do Edu, conhecido pelos frutos do mar fresquíssimos e pela simplicidade que valoriza o ingrediente. No Restaurante do Edu, o sabor fala mais alto que qualquer sofisticação estética. Camarões, peixes e ostras chegam praticamente do barco para a cozinha. A textura, o frescor e o tempero equilibrado revelam o respeito pelo que o mar oferece.

Foi nessas mesas — de frente para o mar, sentindo a brisa salgada e ouvindo histórias de pescadores — que compreendi algo essencial: na ilha, o tempo da comida acompanha o tempo da natureza. Não há pressa quando se depende da maré. Não há excesso quando o ingrediente é protagonista.

A influência açoriana também está presente nos preparos, no uso do pirão, nos ensopados, na valorização do coletivo. Comer em Florianópolis é entender que tradição não é repetição mecânica, mas continuidade cultural.

No meio dessa jornada, percebi que a gastronomia tradicional de Florianópolis se sustenta justamente nessa conexão direta entre origem e prato. Diferente das grandes capitais, onde muitas vezes consumimos experiências aceleradas, ali cada refeição carrega território e identidade.

Hoje, quando penso na ilha, penso no som das redes sendo puxadas, no cheiro da brasa, na simplicidade elegante de um peixe fresco servido sem excessos. Penso nos bilhetinhos do Arante, nos sabores do Edu, nas conversas à beira-mar.

Porque, no fim, a gastronomia tradicional de Florianópolis não está apenas no que se come — está na forma como se vive a comida. Está na pesca artesanal, no respeito ao mar, na mesa compartilhada e na certeza de que cada prato conta uma história.

E é essa gastronomia tradicional de Florianópolis que permanece comigo, como lembrança viva de que o melhor tempero ainda é a origem.

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