Fóssil revela ancestral das centopeias modernas – 18/05/2026 – Ciência

Centopeia com corpo segmentado em tons de marrom claro a escuro, curvado em forma de gancho, com várias pernas curtas e pontiagudas em cada segmento, sobre fundo azul texturizado.

Há cerca de 425 milhões de anos, criaturas com muitas pernas chamadas miriápodes rastejaram para a terra firme e nunca mais olharam para trás.

Hoje, as 13 mil espécies de centopeias, piolhos-de-cobra e outros miriápodes vivos (do grego “incontáveis” e “pernas”) são encontradas em praticamente todos os ambientes terrestres da Terra, incluindo cavernas, casas e parques. Alguns até vivem centenas de metros abaixo da superfície.

Determinar como os miriápodes se adaptaram para dominar a terra seca tem se mostrado difícil devido à escassez de fósseis dos primórdios do grupo, quando seus ancestrais totalmente aquáticos se arrastavam pelos fundos dos mares antigos.

Uma equipe de cientistas examinou recentemente um tesouro de fósseis desenterrados no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, e descobriu uma nova espécie de miriápode que possuía pernas aerodinâmicas e segmentadas semelhantes às de seus parentes modernos, os piolhos-de-cobra. As descobertas dos pesquisadores, publicadas no último dia 6 na revista Proceedings of the Royal Society B, revelaram que esses animais estavam bem adaptados para a vida em terra muito antes de deixarem a água.

“De certa forma, os miriápodes tinham uma vantagem quando chegaram à terra”, disse Derek Briggs, paleontólogo da Universidade de Yale e autor principal do novo artigo.

Os fósseis recém-descritos foram encontrados em uma pedreira em Waukesha, um subúrbio a oeste da cidade de Milwaukee. Durante o início do período Siluriano, há cerca de 437 milhões de anos, essa área de Wisconsin era um litoral ameno próximo ao equador, habitado por trilobitas, lampreias (peixes agnatos), as sanguessugas mais antigas conhecidas e escorpiões ancestrais.

A antiga Waukesha estava longe de ser um paraíso tropical: uma baía rasa, salgada e desprovida de oxigênio. À medida que carcaças do mar circundante eram arrastadas para o fundo, tapetes microbianos sepultavam os restos em uma película pegajosa. Isso manteve os animais enterrados neste cemitério Siluriano com características impecavelmente bem preservadas.

Os paleontólogos Donald Mikulic e Joanne Kluessendorf coletaram muitos desses espetaculares fósseis de Waukesha. Em 1985, a dupla se uniu a Briggs para publicar um artigo preliminar sobre os fósseis de Waukesha, que mencionava “animais semelhantes a miriápodes”.

Levaria mais de 40 anos para os cientistas descreverem formalmente esses fósseis enigmáticos. Briggs e seus colegas examinaram 35 fósseis semelhantes a miriápodes pertencentes à coleção do Museu de Geologia da Universidade de Wisconsin, em Madison. Algumas das criaturas fossilizadas estão enroladas como lagartas em movimento, enquanto outras estão orientadas como pontos de interrogação. Os maiores espécimes medem um pouco mais que um clipe de papel.

Vários dos fósseis preservam em detalhes características da anatomia interna do animal. Manchas de tom azulado representam músculos que percorriam o tronco do animal e foram substituídos pelo mineral francolita, rico em carbonato encontrado em rochas sedimentares, à medida que se decompunham. Manchas escuras e brilhantes indicam a estrutura interna em forma de escada que prendia os músculos no lugar. Alguns dos fósseis contêm vestígios dos pequenos olhos do animal, enquanto um espécime traz vestígios de um possível coração.

Os pesquisadores nomearam a nova espécie de Waukartus muscularis. O corpo flexível do antigo artrópode era composto de 11 segmentos e uma parte traseira terminando em um par de misteriosas estruturas em forma de lâmina. Como os miriápodes modernos, o Waukartus era coberto por pares de apêndices, incluindo um pequeno conjunto na frente da cabeça que pode ter função sensorial ou de alimentação. Os membros que percorriam o tronco do Waukartus eram curtos e segmentados, permitindo que o animal rastejasse pelo fundo do mar de maneira semelhante à forma como os piolhos-de-cobra modernos se movem em terra.

A estrutura simples dos membros do Waukartus é notável. Muitas criaturas contemporâneas, como os trilobitas, tinham membros ramificados, com uma parte para movimento e outra que servia como aparelho respiratório. Em contraste, as pernas do Waukartus são desprovidas de estruturas semelhantes a brânquias, sugerindo que os miriápodes antigos aperfeiçoaram sua estrutura de locomoção antes de fazerem sua fatídica jornada para a terra firme.

Paul Marek, entomólogo da Virginia Tech que estuda a evolução dos piolhos-de-cobra e não participou do artigo, diz acreditar que outros fósseis dessa parte do período Siluriano podem preservar outros grupos de animais que também estavam se preparando para a vida em terra.

“Esse é um período de tempo importante para entender essa transição crítica para formas terrestres realmente sofisticadas”, disse ele. “Não estou surpreso que esses animais tenham simplificado estruturas importantes como as pernas quando ainda viviam debaixo d’água.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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