Parte de um crânio fossilizado está ajudando cientistas a compreender melhor os megarraptores, dinossauros carnívoros conhecidos por usar garras enormes para dilacerar suas vítimas. O resto do espécime tinha o porte de um tigre. Ele rondava o território que hoje corresponde à Ilha de Wight, ao largo da costa sul da Inglaterra, em torno de 120 milhões de anos atrás.
A espécie, batizada de Invictibellatrix amberina, é um dos primeiros integrantes dos megarraptores. Sua descoberta foi descrita em um artigo publicado no último dia 14 no periódico Royal Society Open Science.
O fóssil amplia o conhecimento sobre a anatomia craniana dos megarraptores e, por ser o primeiro exemplar conhecido na Europa, ajuda a revelar como o grupo se espalhou pelo mundo.
O Invictibellatrix amberina é um dos menores megarraptores. Ele media aproximadamente cinco metros de comprimento e pesava tanto quanto um tigre de grande porte, que pode chegar a 300 quilos. Possivelmente penas semelhantes a filamentos cobririram seu corpo.
Os megarraptores integravam o grupo dos terópodes, que abrange todos os dinossauros carnívoros. “Eles são bastante singulares entre os terópodes porque têm cabeças relativamente pequenas e esguias, mas braços longos e fortes, com enormes garras nas mãos, além de esqueletos de constituição muito leve”, afirmou Cassius Morrison, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Leeds (Inglaterra) e principal autor do novo estudo.
“As características indicam que eram caçadores ágeis, capazes de perseguir presas e usar seus braços e garras para capturá-las e estripá-las”, acrescentou o pesquisador.
O maior megarraptor conhecido, chamado Maip, atingia dez metros de comprimento e habitava a Patagônia no crepúsculo da era dos dinossauros, cerca de 50 milhões de anos após a época em que viveu o Invictibellatrix amberina.
Megarraptores menores, a exemplo do Invictibellatrix amberina, podem ter caçado mamíferos e répteis menores e filhotes de dinossauros. Já os megarraptores maiores atacariam dinossauros herbívoros como os hadrossauros de bico de pato e os saurópodes de pescoço longo, embora provavelmente não os de maior porte.
A forma de caça deles diferia da de predadores gigantescos como o Tyrannosaurus rex. Este usava a cabeça grande e robusta, os dentes enormes e a incrível força de sua mordida para matar as presas, porém tinha braços diminutos, de pouca utilidade na caça.
O Invictibellatrix amberina não era o principal predador da Ilha de Wight, onde havia terópodes maiores, além de vários dinossauros herbívoros, e pode ter desempenhado um papel parecido ao das hienas.
Há um debate entre paleontólogos sobre a posição dos megarraptores na árvore genealógica dos terópodes. Apesar das diferenças em sua constituição física e em suas estratégias de caça, uma das hipóteses é que fossem parentes próximos dos tiranossauros, grupo que incluía o T. rex e outros que dominaram as paisagens da América do Norte e da Ásia em períodos posteriores do Cretáceo.
Predadores de topo
Invictibellatrix significa guerreira indomável. Morrison observou que, após um início modesto, os megarraptores evoluíram e se tornaram predadores de topo na América do Sul, na Austrália e na Antártida. Os tiranossauros assumiram essa posição na América do Norte e na Ásia.
Uma das principais hipóteses sustenta que os megarraptores surgiram na Ásia antes de migrar pela Europa em direção à África e, depois, à América do Sul, onde prosperaram até os dinossauros serem condenados à extinção pelo impacto de um asteroide, há 66 milhões de anos.
Essa hipótese, porém, carecia de evidências fósseis porque, até agora, nenhum megarraptor havia sido identificado na Europa.
“Essas descobertas ajudam a desvendar a evolução de um dos grupos de terópodes mais misteriosos”, afirmou Charlie Scherer, doutorando da University College London (Reino Unido) e coautor do estudo.
O fóssil de Invictibellatrix amberina, uma caixa craniana fragmentada, foi descoberto há cerca de um século e adquirido pelo Museu de História Natural de Londres em 1924. “Desde então, ficou esquecido em uma das gavetas da coleção, e ninguém o notou até alguns anos atrás”, disse Scherer.
Embora o T. rex possa ser mais imponente do que o Invictibellatrix amberina, os pesquisadores observaram que, se uma pessoa fosse de alguma forma transportada de volta no tempo, o segundo aparentemente representaria um perigo maior.
“Um terópode menor como o Invictibellatrix amberina provavelmente seria uma ameaça muito maior para um ser humano do que algo como o T. rex, porque seríamos pequenos demais para que o T. rex nos considerasse uma refeição que valesse a pena, devido ao seu tamanho colossal e à quantidade de energia necessária para nos capturar”, explicou Morrison.
“Mas teríamos o tamanho perfeito para algo menor como o Invictibellatrix amberina, já que pesaríamos entre um terço e um quarto do peso dele, o que faria de nós uma refeição substanciosa, não apenas um petisco. Além disso, ele teria agilidade e capacidade de manobra suficientes para perseguir e capturar um ser humano.”
Fonte ==> Folha SP – TEC