FAPESP e NWO renovam acordo e projetam expansão da cooperação científica

FAPESP e NWO renovam acordo e projetam expansão da cooperação científica

Termo aditivo garante a continuidade de chamadas conjuntas até 2028 e abre caminho para novos centros de pesquisa, parcerias tecnológicas e fortalecimento do intercâmbio acadêmico entre São Paulo e os Países Baixos

Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – A FAPESP e o Conselho de Pesquisa dos Países Baixos (NWO) assinaram, na segunda-feira (26/10), um aditivo de extensão ao acordo de cooperação científica mantido pelas instituições. O objetivo é garantir a continuidade das chamadas de propostas e projetos conjuntos.


“A ideia é estendermos por mais cinco anos nossa cooperação científica por meio de um memorando de entendimento que deve ser assinado em 2028, o ano em que ocorrerá uma reunião entre as instituições”, disse Marcel Levi, presidente do NWO.


O termo foi assinado durante visita da delegação da FAPESP à sede da instituição neerlandesa, em Haia, a 52 quilômetros da capital Amsterdã, com o objetivo de discutir possibilidades para consolidar e expandir a colaboração científica e acadêmica entre o estado de São Paulo e o país europeu.


O encontro precedeu a abertura da FAPESP Week Países Baixos, simpósio internacional promovido pelas duas instituições, que ocorre até amanhã (29/10) na Universidade de Leiden.


“Somos muito flexíveis nos mecanismos que temos para financiar a pesquisa e podemos improvisar, se necessário. Temos apenas uma regra importante nesse sentido: a qualidade dos projetos”, sublinhou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.


A agência neerlandesa de apoio à pesquisa investe anualmente entre € 1 bilhão e € 1,5 bilhão em investigações guiadas pela curiosidade e voltadas a grandes desafios sociais e de infraestrutura. A instituição atua em três frentes principais – realização de pesquisas em institutos próprios, financiamento de projetos e conexão entre pesquisadores e a sociedade –, cobrindo desde a pesquisa básica aberta até o fomento a startups e inovação aberta.


Na esfera internacional, o NWO destina cerca de € 10 milhões por ano para iniciativas bilaterais e multilaterais, mantendo programas estratégicos com a FAPESP em áreas como agricultura, biodiversidade, biorrefinarias integradas para a economia circular, transição energética e aumento da resiliência a eventos climáticos extremos.


“Para nós, é extremamente importante manter a qualidade da pesquisa e garantir seu impacto real na sociedade. Queremos incentivar uma cultura de pesquisa aberta, em que os cientistas tenham liberdade para investigar e trazer experiências únicas, como o conhecimento específico que o Brasil possui e não temos aqui”, disse Ena Voûte, membro da diretoria executiva e responsável pelo portfólio de colaboração internacional do NWO.


Parceria de longo prazo


Para elevar o patamar da cooperação acadêmica e tecnológica entre São Paulo e os Países Baixos, os representantes das duas instituições discutiram a integração de modelos avançados de pesquisa de longo prazo, combinando a atração de centros internacionais, a parceria com empresas e o alinhamento de clusters de excelência científica.


Um dos pilares apresentados pelo presidente da FAPESP foi o modelo dos Centros Internacionais de Pesquisa (CIPs), modalidade de apoio criada recentemente pela Fundação para atrair instituições de prestígio global dispostas a estabelecer presença física permanente em São Paulo. Pelo modelo, uma instituição paulista sedia e custeia a infraestrutura e o corpo técnico, enquanto a instituição estrangeira transfere pesquisadores residentes permanentes, contando com financiamento de pesquisa da FAPESP por até cinco anos (leia mais em: agencia.fapesp.br/54136).


O dirigente da FAPESP citou exemplos já consolidados ou em fase de instalação – como os centros do Instituto Pasteur e do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, e da Sociedade Max Planck, da Alemanha, na Universidade de São Paulo (USP); do Politécnico de Turim, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT); do Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab), na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e da Universidade Tsinghua, da China, na Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além disso, estão em tratativas iniciativas semelhantes com a Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica Aplicada (TNO), no IPT, e com a Universidade de Tecnologia de Delft, na Unicamp.


Outro mecanismo debatido foi o dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs), que envolvem parcerias de até dez anos com financiamento compartilhado em 50% entre a FAPESP e empresas privadas. Zago destacou o caso bem-sucedido mantido com a empresa neerlandesa Koppert na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), focado em controle biológico para substituir defensivos químicos na agricultura, além dos centros desenvolvidos com a Shell, para a produção de hidrogênio verde a partir de etanol, e com a Embraer, voltado à aviação sustentável.


Clusters de excelência


Complementando a apresentação dos grandes centros aplicados, o diretor científico da FAPESP, Marcio de Castro, destacou o lançamento do novo centro voltado ao aprimoramento da qualidade e sustentabilidade da cadeia produtiva de carne bovina no país, estabelecido em parceria com a Minerva Foods.


No âmbito da pesquisa científica de fronteira, o dirigente e representantes da Diretoria Científica da FAPESP propuseram o alinhamento estratégico de clusters de excelência, promovendo o pareamento entre os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) paulistas – apoiados pela FAPESP por até 11 anos – e os programas de excelência do NWO. “No futuro, poderíamos pensar em algo como uma cooperação mais estruturada e de longo prazo entre grupos de excelência em ambos os lados”, sublinhou Zago.


Para respaldar a expansão das chamadas conjuntas, a FAPESP anunciou o direcionamento de recursos adicionais para sete áreas consideradas estratégicas: biotecnologia; transição digital e inteligência artificial; tecnologia quântica; produção sustentável de alimentos e biodiversidade; saúde humana e animal; transição energética; e violência e segurança pública.


Além disso, discutiu-se a simplificação para o engajamento em consórcios europeus, como o Horizon Europe, e em redes de doutorado Marie Skłodowska-Curie Actions. O assessor da Diretoria Científica da FAPESP, Niels Olsen, explicou que a Fundação pode aportar diretamente os recursos necessários para os pesquisadores de São Paulo integrados a grupos de excelência europeus previamente selecionados, tornando o ingresso em grandes projetos internacionais mais rápido e eficiente.


Fortalecimento de laços acadêmicos


A delegação brasileira realizou no mesmo dia uma visita à Universidade de Tecnologia de Delft (TU Delft), a cerca de 55 km de Amsterdã, onde foi recebida pela presidente do Conselho Executivo, Ingrid Thijssen. A dirigente destacou o orgulho da instituição, prestes a completar 185 anos de fundação, em abrigar 28 mil estudantes e mais de 125 instalações de pesquisa de classe mundial, como a vila de testes de sustentabilidade Green Village.


O campus da instituição abriga a Green Village, um “laboratório vivo” que funciona como uma minicidade livre de regulamentações tradicionais, permitindo a cientistas, startups, empresas e governos testar inovações urbanas em condições reais com moradores de verdade.


“Nossa colaboração com o Brasil vem de longa data. Vemos muitas oportunidades para o futuro em nossa cooperação, ampliando áreas como materiais críticos e educando novas gerações de pesquisadores. Nossa ambição compartilhada é aprofundar a colaboração, desenvolver nossos talentos e criar impacto por meio da pesquisa e inovação”, afirmou Thijssen.


A dirigente e representantes da instituição destacaram um marco único na colaboração com o Brasil: o único programa de duplo diploma de doutorado mantido pela TU Delft em todo o mundo é realizado com a Unicamp. A parceria, mantida há mais de 25 anos, já formou mais de 50 doutores em áreas como engenharia química, microbiologia industrial, gestão hídrica e biotecnologia.


Os representantes da universidade neerlandesa também sublinharam que a cooperação científica entre o estado de São Paulo e os Países Baixos reflete um avanço bibliométrico consistente e de alto impacto. Análises apresentadas durante a visita indicam que, nos últimos 15 anos, foram registradas mais de 10 mil publicações científicas em coautoria entre pesquisadores paulistas e neerlandeses.


Além disso, os dados bibliométricos revelam que a taxa de crescimento das publicações conjuntas entre pesquisadores neerlandeses e brasileiros aumentou 10% entre 2013 e 2022, superando a alta geral de 6,5% registrada nas publicações internacionais neerlandesas.


Ao final do dia, a delegação brasileira foi recebida pelo embaixador Fernando Simas Magalhães em uma recepção na Embaixada do Brasil em Haia.


Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos: fapesp.br/week/2026/netherlands.

 



Fonte ==> Folha SP

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