Elton Alisson, da Serra do Aracá | Agência FAPESP – Na sala de comando do 3º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro em Barcelos, no norte do Amazonas, um grupo de cientistas admirava, no início da tarde de 24 de agosto, um grande painel com a reprodução de uma fotografia aérea em preto e branco do Parque Estadual da Serra do Aracá, com suas cachoeiras gigantes escorrendo por paredões de pedra desnuda e adentrando um vale profundo de floresta densa.
O breve momento de contemplação foi interrompido pelo aviso de um oficial de que deveriam se dirigir a uma área de decolagem no próprio quartel, onde um helicóptero Black Hawk estava a postos para transportá-los justamente para o cenário que viam na imagem capturada em 2019 pelas lentes do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (1944-2025), para a célebre série Amazônia.
Cerca de uma hora depois da decolagem, a aeronave começou a sobrevoar o imponente platô de um tepui (montanha de topo plano), a 1.260 metros de altitude, onde foi instalado o acampamento principal da expedição. Ao desembarcar, os cientistas puderam ver a imagem real e ter o primeiro contato direto com uma paisagem de campos rupestres, semelhante aos encontrados na Chapada Diamantina, na Bahia, e na Serra do Espinhaço, que se estende por Minas Gerais e Bahia.
O terreno de arenito, caracterizado por afloramentos rochosos e solos alagados, com vegetação baixa e esparsa, não guarda nenhuma semelhança com as paisagens de floresta densa e rios volumosos tipicamente associadas ao bioma amazônico. A viagem de helicóptero até o ponto do acampamento, por exemplo, começou sobrevoando as ilhas fluviais que contornam a região de Barcelos, seguiu por campinaranas (tipo de vegetação da Amazônia que cresce sobre solos de areia branca) cercados pelas águas escuras do rio Negro, depois por um manto verde, denso e contínuo de floresta que se estendia por centenas de quilômetros em todas as direções, até alcançar os paredões rochosos de quartzito da Serra do Aracá, que se erguem abruptamente da paisagem plana da floresta ao redor.
“É uma paisagem amazônica que não tem nada a ver com as florestas e que grande parte das pessoas desconhece”, diz à Agência FAPESP Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição, apontando para o seu entorno, no topo do tepui. A equipe, formada por 16 pesquisadores, pretende passar três semanas em campo, coletando a maior diversidade possível de espécies de fauna e flora da região, além de amostras de água e solo. A expedição é financiada pela FAPESP e realizada com apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança.
A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, incluindo USP, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos), Universidade de Toulouse (França), Universidade Autônoma de Madri (Espanha) e Museu de História Natural de Oslo (Noruega) – todos com formação no Brasil e larga experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas em répteis e anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.
Fim da saga
A chegada ao Aracá marcou o início do fim de uma saga inaugurada há três anos para planejar e executar a expedição, que envolve uma série de desafios logísticos. O plano original previa a instalação de um segundo acampamento na porção mais alta do complexo de montanhas Tulu-Tuloi, do qual a Serra do Aracá faz parte, a 2.070 metros de altitude. O objetivo era gerar dados comparativos com os resultados obtidos anteriormente pelo mesmo grupo de pesquisadores em expedições realizadas no Pico da Neblina, em 2017, e na Serra do Imeri, em 2022.
Em razão da dificuldade de acesso, das condições meteorológicas instáveis e dos riscos de segurança envolvidos na tentativa de pousar um helicóptero de grande porte em uma área de precipícios e com visibilidade variável, porém, a coordenação da expedição e o Exército decidiram realocar o segundo acampamento para um maciço desgarrado da Serra do Aracá, situado a 850 metros de altitude.
“Optamos por substituir esse segundo acampamento para essa montanha, no passado conectada [com o restante da serra], mas que está separada do Aracá”, explica Trefaut. Esse bloco isolou-se fisicamente da serra principal por causa de processos erosivos, afirma Trefaut.
“Uma das perguntas que buscaremos responder por meio dos resultados da expedição é se a biota [comunidades e plantas e animais] de diferentes montanhas são ecologicamente similares e evolutivamente relacionadas”, conta.
Estrutura dos acampamentos
Para garantir a cobertura de coletas de grupos de fauna e flora nas duas áreas, será adotado um sistema de rodízio entre as bases. Durante a primeira semana de expedição, toda a equipe permaneceu reunida no acampamento principal. Após esse período inicial, será implementado um regime de alternância: grupos de pesquisadores serão deslocados para o acampamento secundário, instalado no bloco desgarrado, onde realizarão coletas intensivas por cerca de cinco dias. Ao fim de cada ciclo, a equipe retornará à base principal para dar lugar a um novo grupo de cientistas.

Vista aérea do acampamento principal, onde a equipe permaneceu reunida na primeira semana da expedição (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Ambos os acampamentos foram estruturados para prover abrigo, infraestrutura de pesquisa, alimentação e conectividade durante toda a expedição, em meio ao isolamento absoluto. O campo-base foi organizado em sete barracões de lona, enquanto o acampamento secundário terá uma estrutura mais compacta, com três barracas – uma de alojamento para cinco pessoas, conjugada com laboratório; outra para a cozinha, operada por um cozinheiro do Exército; e uma terceira que serve como posto de comando. Ambas as bases contam com internet, rádios e telefones satelitais, além de barracas iglu com isolamento térmico e sacos de dormir que ficarão à disposição dos pesquisadores para vigilâncias de campo e monitoramento de armadilhas.
Além dos pesquisadores, a expedição conta com a participação de 17 militares – em sua maioria da região Norte – para dar suporte aos cientistas nos deslocamentos, abertura de trilhas (picadas), fixação de armadilhas de coleta, no preparo das refeições e no atendimento médico. No batalhão em Barcelos, há uma equipe de busca e salvamento de prontidão para emergências aéreas ou resgates complexos, composta por um sargento-chefe e dois socorristas.
Desafio logístico
A montagem dos acampamentos e o transporte de materiais até o topo da serra exigiram o manejo de toneladas de carga por helicópteros do Exército. “Foram transportadas para os acampamentos cerca de 5 toneladas de materiais, como barracas e camas, sem contar comida e água”, relata o major Jorge Leandro.
Para viabilizar a subida dessa carga para os acampamentos, foi utilizada uma base na comunidade Yanomami de Ajuricaba – a 89 quilômetros da Serra do Aracá – como ponto logístico intermediário, para onde foram transportados insumos por via fluvial, pelo rio Negro, antes do envio aéreo. Toda essa movimentação precisou ser adaptada ao modelo de helicóptero Black Hawk que, conforme explicam os oficiais do Exército, é compacto e possui volume interno restrito, limitando a capacidade de carga interna e exigindo uma matemática rigorosa de peso, combustível e vento.
Além da limitação de peso, a engenharia militar teve de adaptar a implantação das barracas às condições reais e acidentadas do solo. Originalmente, o Exército planejava erguer o acampamento em um platô elevado, plano e seco identificado em voos de reconhecimento feitos no ano passado para localizar áreas mais propícias para pouso e decolagem. Porém, a necessidade de acesso à água levou os militares a deslocarem a base a cerca de 100 metros de um riacho que, por conta da época de menor vazão, tem apenas um filete de água.
Por conta dessa nova localização, as barracas tiveram de ser fixadas diretamente sobre solo de rocha – uma escolha feita pela engenharia militar para evitar o encharcamento e os lamaçais comuns do terreno –, exigindo soluções cuidadosas de amarração por causa dos ventos fortes e do risco de elevação repentina do leito d’água.
Colocação de armadilhas
O primeiro grupo, com dez integrantes, que partiu no primeiro voo da base militar em Barcelos às 10h15, rumo ao Aracá, era composto principalmente por pesquisadores que foram encarregados de empacotar os materiais utilizados na expedição, despachados semanas antes, somando mais de 500 quilos de equipamentos e suprimentos.
Momentos após desembarcar, essa primeira equipe começou rapidamente o processo de reconhecer as embalagens e desembalar as caixas de papelão, plásticas e de isopor, além de malas usadas para acondicionar os materiais e levá-los para a “tenda-laboratório”, para onde serão encaminhadas as amostras coletadas e feitas as análises iniciais.
Logo após a chegada do segundo grupo, composto por mais nove integrantes, às 13h45, eles se organizaram em equipes para iniciar a instalação dos equipamentos de coleta, uma tarefa altamente coordenada que começa como um esforço coletivo para estruturar as frentes de pesquisa de campo. Estava oficialmente aberta a “temporada de coletas”.
Nos primeiros dias de expedição, a maior parte da equipe se mobilizou para enterrar no solo cem baldes plásticos, que funcionarão como armadilhas de interceptação e queda (pitfalls), seguindo trilhas abertas com a ajuda de militares.
Esse método é utilizado para capturar pequenos animais que se deslocam pelo chão, como anfíbios, lagartos, cobras e pequenos mamíferos. O sistema consiste basicamente em enterrar baldes plásticos vazios no solo de forma que suas bordas fiquem totalmente rentes à superfície. Para direcionar os animais até os recipientes, são instalados anteparos ou barreiras direcionais feitas de lona cortada e sustentadas por estacas feitas com galhos de árvores.

Sapo do gênero Boana sp localizado na região (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Essas barreiras de lona conectam os conjuntos de baldes, que podem ser dispostos em diferentes formatos, como em linha reta (“linhão”), em “T” ou em “Y”. A lógica de captura aproveita o comportamento natural das espécies: ao correr ou se deslocar pela mata, o animal encontra o obstáculo físico da lona, tenta contorná-lo e acaba caindo diretamente no balde.
A rotina de monitoramento exige que os pesquisadores revisem as armadilhas diariamente, de preferência na parte da manhã, garantindo que os bichos não fiquem muito tempo presos e expostos ao Sol.
“Apesar da simplicidade do conceito, ele é incrivelmente eficiente, uma vez que nos ajuda a revelar uma fauna que não conhecíamos”, explica Ivan Prates, pesquisador do Museu de História Natural de Oslo, durante a instalação dos primeiros baldes no primeiro dia da expedição.
Esse tipo de amostragem permite registrar grupos de animais que vivem sob o solo ou escondidos no folhiço, e que raramente seriam detectados por buscas ativas convencionais. Além disso, os baldes são distribuídos estrategicamente por múltiplos hábitats porque, segundo Prates, permitem diversificar a amostragem de ambientes.
Próximo aos baldes, a entomologista Gabriela Procópio Camacho, pesquisadora do Museu de Zoologia da USP, instalou armadilhas compostas por copos plásticos descartáveis com uma mistura de água e detergente, enterrados rente ao chão, como os baldes, para a captura de insetos.
“O detergente quebra a tensão superficial da água e permite que os insetos afundem. Caso contrário, se os recipientes contivessem apenas água limpa, os insetos simplesmente pousariam na superfície e voariam embora”, conta Camacho enquanto confere a colocação de um dos copinhos na terra.
Embora o método seja voltado para a captura de insetos em geral – resultando na queda eventual de besouros, grilos, gafanhotos e baratas –, a pesquisadora sublinha que esse tipo de armadilha é especialmente indicado para a coleta de formigas, sua especialidade de estudo.
Para otimizar a amostragem no topo do tepui, as armadilhas são deixadas funcionando por 48 horas, diferentemente do padrão de 24 horas que costuma ser adotado em outras áreas onde Camacho já pesquisou. Como se trata de uma expedição única, a entomologista decidiu estender o prazo de funcionamento por considerar que será uma oportunidade exclusiva. “Como os insetos que eu coleto morrem, deixo acumular e depois volto e recolho tudo de uma vez. Aí tiro eles da água e os preservo em álcool para serem analisados quando retornar para São Paulo”, explica.
Armadilhas passivas
Para capturar pequenos mamíferos terrestres, os pesquisadores utilizam uma estratégia que combina diferentes tipos de armadilhas de amostragem passiva. Uma delas é uma gaiola de captura – uma caixa alongada de metal –, que é distribuída ao longo de trilhas identificadas com fitas coloridas. Em cada ponto de marcação, são colocadas duas armadilhas de tamanhos diferentes – quando uma delas é pequena demais para capturar um animal de maior porte, existe outra ao lado para garantir que seja apanhado.
As gaiolas utilizam uma isca altamente odorífera – uma mistura de amendoim, sardinha e aveia –, com o objetivo de atrair espécies onívoras (que se alimentam tanto de fontes animais como vegetais) e generalistas (que comem uma grande variedade de alimentos). “Colocamos a isca bem no fundo da gaiola porque ela tem uma plataforma que, ao ser pisada pelo animal, libera um pequeno gatilho que fecha a tampa e o prende ali”, relata Alexandre Percequillo, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), enquanto confere se há animais nas gaiolas colocadas no dia anterior.
As gaiolas atuam de modo conjunto com as armadilhas do tipo pitfall, para aumentar o sucesso de amostras coletadas, detalha Ana Paula Carmignotto, professora da UFSCar. “Às vezes, tem espécies que não vão se sentir atraídas pela isca ou vão ter medo de entrar nas armadilhas, mas se elas estiverem forrageando por ali, acabam caindo nos baldes.”

A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, todos com formação no Brasil, incluindo USP, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Instituto Federal do Amazonas, UFSCar, Universidade de Toulouse (França), Universidade Autônoma de Madri (Espanha), Museu de História Natural de Oslo (Noruega) e Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos), onde trabalha a botânica Jenifer de Carvalho Lopes (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Para o monitoramento de morcegos, pássaros e espécies de difícil visualização, os pesquisadores utilizam redes de neblina e tecnologias de registro passivo. Diferentemente das armadilhas terrestres, as redes para morcegos e pássaros são de captura direta: são instaladas no horário de atividade dos animais e exigem monitoramento contínuo a cada 20 minutos. Paralelamente, são empregados gravadores de bioacústica, que operam passivamente durante a noite, capturando frequências de ultrassom de morcegos e outros animais que emitem som até 384 kHz para posterior comparação com bibliotecas de sonogramas.
Além disso, armadilhas fotográficas (câmeras trap) ativadas por sensores de calor e movimento são fixadas em árvores um pouco acima da altura do joelho, em áreas mais abertas, para evitar falsos disparos causados pela vegetação. Elas funcionam 24 horas por dia para registrar de forma não intrusiva a presença de mamíferos de médio e grande porte, além de pequenos roedores e marsupiais.
No momento em que Carmignotto instalava as câmeras trap, em uma área de vegetação mais fechada do platô, outros pesquisadores participantes chegavam à mesma área na tentativa de também começar a explorá-la.
“Nos primeiros dias de expedições multidisciplinares como essa, é comum encontrar pesquisadores de diferentes especialidades em um mesmo local. Isso acaba atrapalhando um pouco, porque os animais percebem a movimentação, ouvem o som das vozes e do pisoteio, e acabam fugindo desses lugares”, conta a pesquisadora, que também participou da expedição ao Imeri. “Mas, à medida que a expedição vai avançando, os grupos vão se dispersando para diferentes locais de coleta.”
Embora a vegetação do topo seja predominantemente aberta, a grande extensão do platô alimenta a expectativa dos cientistas de registrar uma diversidade de espécies maior em comparação com as expedições anteriores.
Para ler a reportagem anterior sobre a expedição à Serra do Aracá acesse: agencia.fapesp.br/59032.
Fonte ==> Folha SP