Cá entre nós, pelo menos metade da diversão de escrever sobre ciência é descobrir um novo pedacinho de terminologia maravilhoso, e o meu favorito desta semana seguramente é “engodo caudal”.
Podemos empregar a expressão quando falamos das serpentes da família dos viperídeos, chamadas coletivamente de víboras e que têm entre seus membros as cascavéis do gênero Crotalus e as jararacas do gênero Bothrops. O dito engodo se dá quando um desses predadores sofisticados ondula a cauda, com movimentos ritmados, para dar a impressão de que aquilo é uma minhoca ou coisa que o valha se debatendo. A presa da serpente acha que seu almoço chegou e, é claro, vai parar no papo da cobra, que dá o bote se aproveitando de sua distração.
Trata-se de um sistema simples e elegante, daqueles que a seleção natural é mestra em construir, ainda mais considerando o fato de que a cauda ondulatória pode ter coloração diferente do resto do corpo do bicho, o que favorece ainda mais sua função de isca. Agora, pesquisadores brasileiros conseguiram mapear a trajetória evolutiva desse truque, ajudando a entender como ele está conectado com o desenvolvimento dos répteis.
Está tudo descrito em artigo na revista científica Ethology Ecology & Evolution, assinado por Aída Giozza e Veronica Slobodian, da UnB (Universidade de Brasília). Giozza foi orientada em seu mestrado por Reuber Brandão, também pesquisador da UnB e coautor do trabalho.
Para entender as raízes evolutivas de um conjunto de características, uma estratégia comum adotada pelos biólogos é mapear como elas estão distribuídas num grupo de seres vivos com ancestrais comuns, e foi essa a abordagem adotada pela equipe da UnB. O ponto de partida deles foi uma ampla filogenia (“árvore genealógica” evolutiva) dos viperídeos, com 263 espécies.
Dessas, os pesquisadores conseguiram dados mais confiáveis sobre 220 serpentes –só entraram na análise aquelas sobre as quais havia informações seguras sobre o engodo caudal e as características associadas a ele.
É que, quanto a isso, havia outra peça do quebra-cabeças: é comum que o comportamento esteja associado à fase da vida do réptil. Nos viperídeos, o engodo caudal muitas vezes é aplicado quando a cobra é jovem e captura presas “de sangue frio”, como lagartos e anfíbios. Ao ficar adulta, a serpente muitas vezes abandona a estratégia e se dedica à captura de animais de “sangue quente” –mamíferos e aves.
Nem todas as espécies da lista contavam com dados seguros sobre as três características (engodo caudal, cauda visualmente diferente do resto do corpo e troca de presas na idade adulta). Ainda assim, as informações foram suficientes para mostrar que havia uma conexão entre pelo menos os dois primeiros traços (o truque e a cor da cauda), e talvez entre os três.
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Tudo indica, portanto, que se trata de uma estratégia evolutiva que pode estar presente desde a origem das serpentes do grupo, sendo “sintonizada” de diferentes formas dependendo das características de cada espécie.
Alguns viperídeos de pequeno porte, por exemplo, não fazem a troca de presa preferida, usando o engodo caudal ao longo da vida toda. Já as cascavéis famosas pela presença do guizo podem ter usado a cauda inicialmente para o engodo e só depois ela adquiriu também a função de ameaçar possíveis predadores quanto ao perigo de sua presença.
Por fim, existem algumas possibilidades intrigantes no que diz respeito à presença do engodo caudal nas cobras filhotes. A estratégia pode se manter na linhagem dos viperídeos porque ela diminui os riscos da predação –já que a jovem cobrinha pode fazer a presa vir até ela, em vez de sair por aí a procurá-la. Ou então pode ser útil porque evita a competição da serpente juvenil com as adultas, já que elas dependem de presas diferentes.
O trabalho teve apoio da Capes e do CNPq. Reuber Brandão é também membro da RECN (Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, iniciativa da Fundação Grupo Boticário).
Fonte ==> Folha SP – TEC