Estudo mapeia microbiota do gado Nelore para reduzir emissões de metano

Estudo mapeia microbiota do gado Nelore para reduzir emissões de metano

Pesquisadores da Embrapa identificam no rúmen de bovinos alvos moleculares ligados à produção do gás e à eficiência alimentar; resultados foram apresentados durante a FAPESP Week Países Baixos

Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – Pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) investigam a interação entre os microrganismos do intestino (microbiota) e a genética do gado Nelore, raça de corte mais criada no Brasil. O objetivo é criar estratégias para reduzir a emissão de metano, importante gás de efeito estufa, e melhorar o aproveitamento da ração pelos animais.


Alguns dos principais resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram apresentados pela pesquisadora Luciana Regitano, da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP). A palestra ocorreu na quarta-feira (28/10), durante a FAPESP Week Países Baixos fapesp.br/week/2026/netherlands.


Em entrevista à Agência FAPESP, Regitano explicou que a equipe identificou pontos-chave na regulação da digestão do gado e na emissão de metano. “Nossos dados mostram como a variação na expressão dos genes microbianos se conecta diretamente a dois fatores de grande interesse econômico e ambiental: o volume de metano gerado e a eficiência no aproveitamento da ração.”


A pecuária é uma das principais fontes de gases de efeito estufa. O metano é gerado durante a digestão natural dos bovinos, processo conhecido popularmente como “arroto do boi”. No rúmen, a maior câmara do estômago do animal, microrganismos quebram as fibras dos vegetais e, durante esse trabalho, produzem o gás. Além do impacto climático, essa produção consome de 2% a 12% de toda a energia que o boi obteria da ração.


Para entender e intervir nesse ambiente, a equipe da Embrapa usa técnicas conjuntas de biologia molecular que analisam, ao mesmo tempo, o DNA, o RNA, as proteínas e outras substâncias químicas. “Analisamos simultaneamente os tecidos do bovino e os componentes da microbiota do seu sistema digestivo”, contou Regitano.




Luciana Reginato: “Nossos dados mostram como a variação na expressão dos genes microbianos se conecta diretamente a dois fatores de grande interesse econômico e ambiental: o volume de metano gerado e a eficiência no aproveitamento da ração” (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)


Novas soluções


Ao mapear as moléculas de RNA que estavam sendo produzidas no rúmen, os cientistas catalogaram enzimas ligadas ao melhor aproveitamento da ração e à menor produção de metano, que representam alvos biotecnológicos para o desenvolvimento de novos aditivos para o rebanho. “A identificação detalhada das enzimas e rotas metabólicas ruminais abre caminho para soluções biotecnológicas aplicáveis na pecuária de corte”, afirmou a pesquisadora.


Uma das linhas mais avançadas é a formulação de compostos capazes de bloquear ou desacelerar as enzimas responsáveis por formar o metano. Hoje já existem aditivos comerciais que agem no final desse processo, mas os dados da Embrapa mostram novos caminhos metabólicos para criar inibidores mais precisos e eficientes.


Intervir na digestão do gado, no entanto, exige cuidado. A produção de metano absorve o hidrogênio livre que sobra da fermentação dos alimentos. Se a formação do gás for simplesmente bloqueada, o acúmulo de hidrogênio pode tornar o estômago ácido (alteração de pH) e prejudicar a digestão. “Nossas estratégias buscam não apenas inibir a enzima que gera o metano, mas também redirecionar esse hidrogênio para rotas metabólicas benéficas, como a produção de propionato, um ácido graxo essencial que serve como importante fonte energética para o bovino”, explicou Regitano.


Outra linha de pesquisa foca no desenvolvimento de probióticos (microrganismos vivos benéficos) e prebióticos (ingredientes alimentares e fibras que nutrem seletivamente bactérias desejáveis). Ao desvendar as exigências nutricionais das bactérias associadas à menor emissão de gás e à alta conversão alimentar, é possível formular suplementos dietéticos que favoreçam a colonização permanente dessas linhagens no rúmen.


A equipe também estuda como o próprio boi controla os microrganismos de seu estômago. Para isso, os cientistas isolaram minúsculas bolsas de transporte (nanovesículas) produzidas pelo organismo do animal. Elas carregam moléculas (microRNAs) resistentes que ajudam a regular a atividade dos genes.


“Descobrimos que certos microRNAs produzidos pelos bovinos apresentam forte ligação, em simulações de computador, com o funcionamento dos genes dos microrganismos do rúmen”, detalhou Regitano. A hipótese, que agora passa por testes em laboratório, é que o animal usa essas moléculas para modular as bactérias do seu estômago. Como esses microRNAs são estáveis e fáceis de reproduzir artificialmente, eles podem virar uma base para novas tecnologias reguladoras.


Barreira econômica


A equipe já encontrou marcadores genéticos do boi associados a certos microrganismos, mas selecionar diretamente os animais de corte com a melhor microbiota ainda esbarra nos custos, aponta Regitano.


“Diferentemente do que se observa na avicultura, na suinocultura ou no gado de leite, a literatura científica e nossos próprios dados confirmam que a seleção genética direta para alterar a microbiota em gado de corte não apresenta um retorno financeiro favorável com as tecnologias atuais”, comparou. “O custo para sequenciar a microbiota e incluir essa informação nos índices de seleção genômica é muito alto frente ao ganho em desempenho produtivo ou redução de emissões. Contudo, em parceria com geneticistas, continuamos avaliando se novas metodologias de avaliação e barateamento de sequenciamento poderão mudar essa equação no futuro.”


Em um estudo feito com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), o grupo acompanhou animais Nelore do pasto até a engorda final no confinamento. O trabalho mostrou que as bactérias que se instalam no estômago do bezerro ainda no pasto influenciam o desenvolvimento do animal pelo resto da vida.


“Identificamos diversos microrganismos presentes na fase inicial de pastagem que se correlacionam fortemente com a eficiência alimentar e o ganho de peso medidos meses mais tarde, quando o animal já está no confinamento”, relatou Regitano. “Isso demonstra que, embora a dieta mude radicalmente do pasto para a ração concentrada, a colonização microbiana estabelecida no início da vida a pasto cria um ambiente fisiológico e nutricional favorável cujos benefícios se perpetuam até o abate.”


Os estudos revelaram também que a microbiota do estômago influencia traços de comportamento do gado. Isso reforça a importância de enxergar o bovino como um holobionte – conceito que define o animal hospedeiro e toda a sua comunidade de microrganismos como uma unidade ecológica única e integrada. A Embrapa agora amplia a pesquisa para outras raças e climas, em parceria com instituições dos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha, Austrália e Países Baixos.


“A consolidação dessas redes internacionais nos permite compreender como diferentes ambientes e genótipos interagem com o microbioma, assegurando que o avanço científico se traduza em tecnologias práticas e sustentáveis para a pecuária tropical”, avaliou Regitano.


Microrganismos desconhecidos


A despeito dos avanços, os estudos revelaram um significativo desafio científico: a imensa maioria dos microrganismos que vivem no rúmen é totalmente desconhecida. “Cerca de 40% do que identificamos nas amostras do gado Nelore não figuram em nenhum banco de dados internacional. Deparamo-nos com uma quantidade imensa de genes cuja função no organismo ainda não sabemos qual é”, relatou a pesquisadora.


As análises indicam que aproximadamente 48% das espécies microbianas encontradas podem ser inéditas para a ciência, a maioria nunca isolada em laboratório. Para superar essa lacuna, Regitano estabeleceu parcerias com especialistas em bioinformática e inteligência artificial (IA).


“Essa tecnologia nos permite prever a função dos genes em escala veloz. Em seguida, pretendemos isolar esses microrganismos e expressar suas proteínas em ensaios laboratoriais, validando experimentalmente o que descobrimos nas simulações feitas em computador”, pontuou a pesquisadora.


Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.

 



Fonte ==> Folha SP

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