Mídia Ciência
Estudo define indicadores para orientar a restauração de campos úmidos no Cerrado
Trabalho de pesquisadores da Unicamp e do Instituto de Pesquisas Ambientais vincula o sucesso da recuperação dessas áreas abertas ao restabelecimento do lençol freático e alerta que o plantio de árvores prejudica o ecossistema
Mídia Ciência
Estudo define indicadores para orientar a restauração de campos úmidos no Cerrado
Trabalho de pesquisadores da Unicamp e do Instituto de Pesquisas Ambientais vincula o sucesso da recuperação dessas áreas abertas ao restabelecimento do lençol freático e alerta que o plantio de árvores prejudica o ecossistema
Para consolidar os valores de referência, a pesquisa analisou de forma abrangente 15 remanescentes naturais preservados de campos úmidos no Sudeste do Brasil (foto: Andra Dalbeto)
Karla Morato | Agência FAPESP * – Os campos úmidos do Cerrado estão desaparecendo rapidamente e sua recuperação esbarra em um erro prático e histórico: a tentativa de aplicar lógicas de reflorestamento – como o plantio de árvores – que acabam descaracterizando e destruindo ecossistemas que são naturalmente abertos.
Para corrigir essas intervenções inadequadas, um novo estudo publicado em junho na revista Restoration Ecology estabeleceu, pela primeira vez, indicadores ecológicos simples e valores de referência para medir o sucesso da restauração dessas áreas. A pesquisa demonstrou que métricas visuais e rápidas – como a contagem de espécies por metro quadrado (m2) e a porcentagem da cobertura total de gramíneas – são altamente eficazes para diagnosticar a integridade da área e guiar o manejo, substituindo a necessidade de avaliações botânicas exaustivas.
Mas o que exatamente define esses ambientes? Os campos úmidos, que englobam formações como as veredas, são ecossistemas desprovidos de florestas, caracterizados por uma densa vegetação herbácea que cresce sobre solos mal drenados ou sazonalmente encharcados. Segundo o estudo apoiado pela FAPESP e conduzido por Andra Dalbeto, doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a dinâmica dessas áreas – que abrigam uma biodiversidade única e sustentam serviços como a manutenção dos ciclos hidrológicos – é rigorosamente controlada pelas oscilações do lençol freático. Por isso, o artigo traz uma conclusão categórica: como a água subterrânea é o motor primário dos campos úmidos, qualquer projeto de restauração biológica estará fadado ao fracasso se não garantir, em paralelo, a recuperação das condições hidrológicas originais do local.
“Campos úmidos são ecossistemas naturalmente abertos e seu principal serviço ecossistêmico está ligado à água: eles regulam o fluxo hídrico, armazenam água no solo, mantêm a umidade da paisagem e sustentam processos ecológicos associados ao lençol freático”, explica Dalbeto.
A investigação se insere nos esforços do projeto BIOTA Campos, coordenado pela pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) Giselda Durigan e apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.
“Quando se aplica o plantio de árvores em campos úmidos, usando a lógica válida para a restauração florestal, o impacto é profundo porque altera a disponibilidade de luz, a estrutura da vegetação, a dinâmica do solo e o uso da água pelas plantas. Em vez de restaurar, a intervenção pode descaracterizar o ecossistema”, comenta Dalbeto.
Até então, faltavam valores de referência bem definidos para diagnosticar a integridade de uma área ou atestar o real sucesso de uma intervenção. Preenchendo essa lacuna, o estudo analisou de forma abrangente 15 remanescentes naturais preservados de campos úmidos no Sudeste do Brasil e, com base nas observações, elaborou indicadores simples e precisos.
Valores de referência
A pesquisa verificou que as áreas de referência – ecologicamente saudáveis – apresentam uma cobertura vegetal que atinge a média de 87%, com esmagadora dominância de gramíneas e a manutenção de cerca de 5% de solo exposto, condição essencial para viabilizar a germinação e o rebrote de espécies nativas. Além disso, a contagem de plantas em pequenas parcelas registrou em média nove espécies por m2e 53 a cada 30 m2.
A adoção desses indicadores rápidos e visuais tem um impacto direto na tomada de decisão na linha de frente. “Nem sempre é possível fazer levantamentos florísticos completos ou esperar muitos anos para saber se a restauração está funcionando. Por isso, métricas como porcentagem de cobertura da vegetação, riqueza em parcelas pequenas e presença de formas de crescimento típicas ajudam a produzir uma leitura mais imediata do estado da área”, diz Dalbeto.
Segundo a pesquisadora, os indicadores não substituem avaliações detalhadas, mas funcionam como “dublês” de descritores mais complexos e trabalhosos, permitindo identificar rapidamente, por exemplo, se há solo exposto excessivo, o que significa risco de erosão. Para os órgãos ambientais, isso facilita o monitoramento, a comparação entre áreas e a definição de quando uma intervenção precisa ser reajustada.
“Esses indicadores não requerem equipamentos caros e difíceis de manusear, pois a estimativa de cobertura é visual. E não precisam da identificação exata das plantas, bastando diferenciar as exóticas”, explica.
Hidrologia como peça-chave
O trabalho também evidenciou que a hidrologia é o principal filtro ambiental do sistema, com a profundidade da água variando, no final da estação chuvosa, de 8 centímetros (cm) acima da superfície até mais de 100 cm de profundidade nos ecossistemas saudáveis avaliados. Fica claro, portanto, que a restauração da flora precisa caminhar em paralelo com a restauração hídrica.
Se uma área perde sua dinâmica hídrica natural, seja por drenagem, assoreamento, barramentos ou mudanças no uso da terra, reintroduzir as espécies nativas pode não ser suficiente. “Sem as condições de umidade adequadas, muitas espécies típicas de campo úmido não conseguem se estabelecer, enquanto invasoras podem ser favorecidas. A restauração deve considerar que a condição original da água do solo precisa ser restabelecida”, ressalta Dalbeto.
Guia prático de restauração
Ao fornecer uma faixa de valores de referência baseada em dados consistentes, o estudo entrega aos tomadores de decisão um instrumento direto para orientar o manejo adaptativo e fiscalizar áreas degradadas. A nova métrica facilita o diagnóstico precoce de degradação, evidenciando, por exemplo, que a presença de árvores exóticas invasoras, como as do gênero Pinus, atua como um alerta crítico, uma vez que sombreiam a camada herbácea nativa e reduzem severamente os níveis do lençol freático.
“Os campos úmidos precisam ser reconhecidos e avaliados como ecossistemas abertos naturais, e não como florestas degradadas, áreas vazias ou passivos ambientais esperando o plantio de árvores”, reitera Dalbeto. “Muitas vezes, por não terem árvores, esses ecossistemas são subestimados ou até interpretados como áreas sem vegetação nativa. Isso é um erro de diagnóstico: campos úmidos têm estrutura, biodiversidade e funcionamento próprios, são extremamente frágeis e sua restauração precisa respeitar essa identidade.”
“Acima de tudo, o estudo mostra como deve ser a vegetação de um campo úmido. Não só como um ecossistema resultante de intervenções de restauração, mas os mesmos indicadores servem também para avaliar uma área remanescente pelo seu valor para conservação. Não é raro que tais áreas campestres, mesmo ecologicamente íntegras, sejam tratadas como áreas degradadas que precisam ser reflorestadas”, ressalta Durigan, do IPA.
O artigo Reference wet grasslands to support conservation and restoration assessments in the Brazilian Savanna pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/rec.70454.
* Karla Morato foi bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao Projeto BIOTA Campos.
Fonte ==> Folha SP