José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Já estão no ar os sites com informações detalhadas sobre as duas Escolas Interdisciplinares FAPESP 2026, uma dedicada a Ciências Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina e a outra voltada para Humanidades, Ciências Sociais e Artes.
Os dois eventos, de cinco dias, estão programados para ocorrer simultaneamente entre 9 e 13 de novembro no Hotel Dona Carolina, em Itatiba (SP), e deverão reunir entre 50 e 70 participantes em cada modalidade.
Podem candidatar-se à participação bolsistas de pós-doutorado financiados por agências de fomento de todo o país. Também são elegíveis pesquisadores apoiados pela FAPESP nas modalidades Jovem Pesquisador 1, Jovem Pesquisador 2, Primeiros Projetos e Projeto Geração, que já tenham realizado pós-doutorado e estejam com bolsa vigente em 2026.
As Escolas Interdisciplinares FAPESP são realizadas anualmente, em língua inglesa, desde 2022. A edição 2026 pretende reforçar um dos principais objetivos que orientam o evento desde a sua criação: aproximar pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento. Por isso, as escolas deste ano foram planejadas de forma a ampliar ainda mais a interação entre seus participantes.
“Durante cinco dias, os participantes poderão acompanhar conferências de pesquisadores convidados do Brasil e do exterior, apresentar seus próprios trabalhos em exposições orais curtas e pôsteres, participar de debates e conversas informais e discutir projetos que possam resultar em futuras colaborações. Um dos objetivos explícitos da iniciativa é favorecer o estabelecimento de vínculos profissionais duradouros”, diz Oswaldo Baffa Filho, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) e coordenador-geral das Escolas Interdisciplinares FAPESP.
Ele ressalta que, embora cada escola tenha programação própria, haverá atividades conjuntas e a organização pretende aumentar os momentos de contato entre os dois grupos. Para isso, três conferências sobre temas de grande interesse serão oferecidas simultaneamente para os integrantes das duas escolas.
Uma será a de Carlos Augusto Monteiro, professor emérito da USP, sobre o impacto dos alimentos ultraprocessados na pandemia de obesidade e outras doenças crônicas relacionadas à alimentação.
Outra será a conferência conjunta de André Carvalho, diretor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, e Esther Império Hamburger, professora de História e Teoria do Cinema e da Televisão na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, sobre a utilização, cada vez maior, da inteligência artificial no mundo contemporâneo.
A terceira, finalmente, será a conferência do professor Sujit Sivasundarum, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, sobre a história do oceano Índico como palco de uma extraordinária diversidade de intercâmbios humanos, migrações e padrões culturais.
“Além das três conferências, os integrantes das duas escolas participarão de uma visita conjunta ao acelerador de partículas Sirius, localizado no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron [LNLS], em Campinas. E a sessão de pôsteres, por exemplo, deverá misturar trabalhos das duas modalidades. Queremos estimular a integração dos participantes também nas refeições e em outros momentos de convivência. Para isso, a imersão, durante cinco dias, em um hotel-fazenda oferece possibilidades excepcionais”, ressalta Baffa.
A maior aproximação entre as duas escolas responde, de certa forma, a uma demanda que já havia surgido entre os próprios participantes. Ao falar sobre sua participação na edição de 2025 da Escola de Ciências Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina, o arquiteto e paisagista Lucas Nakamura Cerejo, então pesquisador de pós-doutorado, destacou justamente, como ponto positivo, a possibilidade de conviver com colegas de formações muito diferentes: “A gente esteve em um ambiente muito integrado, no qual pude compartilhar experiências com estudantes de engenharia química, matemática, biologia, medicina e veterinária. Reunir pesquisadores de diferentes disciplinas e diferentes regiões do país produziu uma grande riqueza de assuntos, de possibilidades de pesquisa, de áreas de colaboração”, disse.
A própria trajetória de Cerejo ilustra o tipo de cruzamento disciplinar que a escola procura estimular. Formado em arquitetura, ele passou a pesquisar bioenergia. Já no segundo dia do encontro de 2025, juntamente com outros participantes, começou a construir uma rede de contatos e a discutir possíveis parcerias. Apontou, no entanto, algo que ainda lhe fazia falta: maior contato com os integrantes da Escola de Humanidades. “Seria muito bom haver um momento para maior aproximação com eles no futuro”, pontuou. É justamente essa conexão que a organização pretende intensificar em 2026.
Uma experiência semelhante foi relatada por Lara Sartorio Gonçalves, também participante da Escola de Humanidades, Ciências Sociais e Artes em 2025. Pesquisadora de pós-doutorado vinculada ao Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), na Baixada Santista, ela desenvolvia, na ocasião, uma investigação sobre mudanças climáticas no arquipélago do Marajó, no Pará. “Minha pesquisa é conduzida em Jubim, uma vila de pescadores. Trabalho com etnografia e antropologia visual, usando a fotografia não apenas como ferramenta metodológica, mas também como objeto de análise e como forma de troca com a comunidade. Isso exige respeito às temporalidades e aos saberes locais e a construção de vínculos éticos”, informou. E acrescentou que, justamente por trabalhar dessa maneira, atravessando diferentes campos, a Escola Interdisciplinar FAPESP ampliava seus horizontes, inclusive para pensar novas parcerias e possibilidades de intercâmbio.
Outro componente da proposta é aproximar pesquisadores em início de carreira de cientistas com trajetórias profissionais consolidadas. “As conferências, por isso, não se destinam apenas à apresentação de resultados científicos. Há também uma dimensão de mentoria: os convidados são estimulados a falar sobre seus percursos profissionais, inclusive sobre dificuldades encontradas ao longo do caminho”, ressalta Baffa.
Da física aos psicodélicos
A Escola de Ciências Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina é coordenada por Emmanuel Burdmann, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP. “Revendo o programa, percebo que ele possui uma forte pegada na interface das Ciências Exatas com as Ciências da Vida. Todas as conferências têm alguma relação com saúde e qualidade de vida, porque esta é uma grande preocupação das pessoas hoje em dia. Mas procuramos tratar desses temas com consistência, sem banalizações”, afirma Burdmann.
Um exemplo dessa confluência é a conferência de Dráulio Barros de Araújo, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutor em física pela USP, ele atua agora na área de neurociências, com ênfase na utilização das imagens funcionais por ressonância magnética e eletroencefalograma na avaliação das bases neurais dos estados alterados de consciência induzidos por substâncias psicodélicas, bem como na exploração do seu potencial antidepressivo. Sua conferência, “From Physics to Psychedelics: Brain, Culture, and Mental Health” (Da física aos psicodélicos: cérebro, cultura e saúde mental), percorrerá esse itinerário, da física aplicada à medicina e à neurociência, passando pela neuroimagem funcional, até chegar às pesquisas clínicas sobre saúde mental e aos estudos com substâncias psicodélicas, especialmente ayahuasca e DMT (N,N-dimetiltriptamina). A proposta é mostrar como questões complexas, como a consciência e a depressão, suscitam abordagens que podem ultrapassar fronteiras disciplinares rígidas.
Outro destaque será Nguyen TK Thanh Mae, professora da University College London (UCL), no Reino Unido. Em sua conferência, “Nanomaterials for the Future” (Nanomateriais para o futuro), ela discutirá como a engenharia de materiais em escala nanométrica pode contribuir para novas tecnologias na área da saúde. Sua pesquisa explora especialmente nanomateriais magnéticos e plasmônicos, cujas propriedades ópticas, eletrônicas e magnéticas podem ser combinadas na construção de sistemas multifuncionais. Uma das possibilidades é integrar diagnóstico e terapia em uma mesma plataforma – abordagem conhecida como teranóstica –, buscando métodos mais precisos e menos invasivos para a detecção precoce de doenças e o tratamento direcionado de tumores.
Colonialismo e saúde indígena
Na Escola de Humanidades, Ciências Sociais e Artes, coordenada por Gabriela Pellegrino Soares, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a diversidade temática da programação é atravessada, segundo ela, por uma preocupação comum de natureza epistemológica. “Por ser uma escola interdisciplinar, são muitas as entradas possíveis. Desta vez, o que há de comum é uma preocupação com uma certa discussão epistemológica: como nós conhecemos o mundo, como conhecemos nossos objetos de pesquisa. É uma perspectiva que procura colocar em discussão as próprias concepções de conhecimento”, resume Pellegrino.
Essa perspectiva aparece também na transversalidade entre culturas, contextos e formas distintas de produção do conhecimento. “A ideia é pensar realmente nessa cooperação entre a ciência acadêmica e os saberes locais. Alguns pesquisadores indígenas trazem mais marcadamente suas próprias cosmologias, suas próprias concepções e conhecimentos; outros estão mais imersos em uma formação científica tradicional. Mas, de toda maneira, o que queremos colocar em discussão é justamente essa relação entre diferentes formas de produzir conhecimento”, diz.
Um dos conferencistas de destaque na Escola de Humanidades, Ciências Sociais e Artes será Joseph Massad, professor de Política Árabe Moderna e História Intelectual da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Discípulo intelectual do pesquisador palestino-americano Edward Said (1935-2003), um nome referencial nos estudos pós-coloniais, Massad é autor de livros sobre nacionalismo, colonialismo, a questão palestina e as relações entre o mundo árabe e o pensamento liberal ocidental. Ele apresentará a conferência “Settler-Colonialism and the Age of Independence” (Colonialismo de povoamento e a era da independência). E discutirá a genealogia de noções como independência, autodeterminação e libertação nacional. Sua abordagem propõe examinar criticamente a ideia de que esses conceitos tenham sido, desde sua origem, exclusivamente anticoloniais, investigando o papel desempenhado pelo colonialismo de povoamento em sua formulação e a maneira como posteriormente foram apropriados pelas próprias lutas indígenas e anticoloniais.
Outro destaque será Eliene Rodrigues Putira Sacuena, indígena do povo Baré, com doutorado em bioantropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e secretária-adjunta da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde. Em sua conferência, ela reunirá campos normalmente tratados de forma separada – determinantes sociais da saúde, epidemiologia, genética e ancestralidade – para discutir a saúde dos povos indígenas e sua experiência durante a pandemia de COVID-19. Entre os temas apresentados estarão resultados de pesquisas genéticas realizadas com 263 indígenas de diferentes povos da Amazônia brasileira.
Informações sobre os demais palestrantes e a programação completa podem ser acessadas nos dois sites das Escolas Interdisciplinares FAPESP 2026: Ciências Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina e Humanidades, Ciências Sociais e Artes.
“Mais do que colocar lado a lado pesquisas pertencentes a campos distintos, a proposta das Escolas Interdisciplinares FAPESP é criar condições para que seus autores se encontrem – nas conferências e sessões de pôsteres, mas também à mesa, nos corredores e durante as atividades conjuntas – e sejam levados a formular perguntas que talvez não surgissem dentro dos limites de suas próprias especialidades”, enfatiza Baffa.
Fonte ==> Folha SP