Epidemia de autismo em 2026? Por que aumentam os diagnósticos? | Psiquiatra BH – Dr Márcio Candiani – TDAH e Autismo

Dr. Márcio Candiani

Crescimento dos casos reflete avanços nos critérios diagnósticos, maior conscientização e identificação de perfis antes negligenciados, explica o psiquiatra Dr. Márcio Candiani

O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) aumentou significativamente nas últimas décadas, levantando uma dúvida cada vez mais frequente entre pais, educadores e pacientes: afinal, o autismo se tornou uma epidemia?

Segundo o psiquiatra Dr. Márcio Candiani, especialista em TDAH e Transtorno do Espectro Autista, embora os dados mostrem um crescimento expressivo na prevalência dos diagnósticos, isso não significa que exista uma epidemia no sentido clássico da palavra.

“A maior parte desse aumento está relacionada ao aprimoramento dos critérios diagnósticos, à maior conscientização da população e ao reconhecimento de pessoas que antes passavam a vida inteira sem receber um diagnóstico correto”, explica.

O crescimento dos diagnósticos é real

Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontam que aproximadamente uma em cada 36 crianças recebeu diagnóstico de TEA. Há poucas décadas, a estimativa era de cerca de um caso para cada 150 crianças.

Embora os números sejam expressivos, especialistas ressaltam que eles refletem principalmente uma evolução na capacidade de identificar o transtorno, e não necessariamente um aumento biológico da condição.

O Transtorno do Espectro Autista sempre esteve presente na população, mas muitos casos permaneciam sem diagnóstico devido ao desconhecimento sobre suas diferentes manifestações.

O que explica o aumento dos diagnósticos?

Entre os principais fatores apontados pela comunidade científica estão a ampliação dos critérios diagnósticos, maior acesso à informação e o reconhecimento de perfis historicamente subdiagnosticados.

Dr. Márcio Candiani

Ampliação dos critérios do DSM-5

Uma das mudanças mais importantes ocorreu em 2013, com a publicação do DSM-5, manual da Associação Americana de Psiquiatria.

A atualização reuniu diagnósticos anteriormente separados, como síndrome de Asperger, transtorno autista clássico e transtornos globais do desenvolvimento, sob uma única classificação: Transtorno do Espectro Autista.

Na prática, pessoas que antes não preenchiam critérios suficientes passaram a ser corretamente identificadas como pertencentes ao espectro.

Mais informação e conscientização

Campanhas educativas, redes sociais e maior acesso ao conhecimento também contribuíram para que pais, professores e profissionais de saúde reconhecessem sinais precoces do TEA.

Ferramentas de triagem utilizadas em escolas e consultórios permitem identificar crianças que anteriormente só seriam avaliadas muitos anos depois.

Especialistas destacam que o diagnóstico precoce amplia significativamente as possibilidades de intervenção e desenvolvimento.

Meninas e adultos passaram a receber mais diagnósticos

Outro fator importante é a identificação de grupos que historicamente eram pouco diagnosticados.

Durante muitos anos, a maior parte das pesquisas sobre autismo foi realizada com meninos, fazendo com que os critérios clínicos refletissem predominantemente características masculinas.

Hoje, sabe-se que muitas meninas desenvolvem estratégias de camuflagem social, conhecidas como masking, que dificultam a identificação do transtorno durante a infância.

O mesmo ocorre com adultos que passaram décadas convivendo com dificuldades sociais, sensoriais ou de comunicação sem compreender sua origem.

Muitos receberam anteriormente diagnósticos de ansiedade, depressão ou outros transtornos que não explicavam completamente suas características.

Genética continua sendo o principal fator

As pesquisas mais recentes mostram que o TEA possui forte componente genético.

Em vez de existir um único “gene do autismo”, estudos apontam centenas de variantes genéticas que podem contribuir para o desenvolvimento da condição.

Além da predisposição genética, fatores como idade parental avançada, prematuridade extrema e algumas exposições durante a gestação continuam sendo investigados pela ciência como possíveis fatores de risco.

Entretanto, especialistas reforçam que o autismo possui origem multifatorial e não pode ser atribuído a uma única causa.

Vacinas não causam autismo

Uma das maiores fake news envolvendo o TEA surgiu em 1998, quando um estudo publicado na revista científica The Lancet sugeriu uma associação entre vacinas e autismo.

Posteriormente, foi comprovado que os dados haviam sido fraudados. O artigo foi oficialmente retirado pela revista, e seu autor perdeu o registro profissional por má conduta científica.

Desde então, dezenas de estudos envolvendo milhões de crianças em diferentes países demonstraram que não existe qualquer relação entre vacinação e autismo.

Organização Mundial da Saúde (OMS), CDC e demais autoridades sanitárias internacionais são unânimes ao afirmar que as vacinas são seguras e fundamentais para a proteção da população.

Diagnóstico precoce faz diferença

Especialistas destacam que identificar o TEA nos primeiros anos de vida pode modificar significativamente o desenvolvimento da criança.

A maior plasticidade cerebral observada na infância favorece os resultados de intervenções como terapia ocupacional, fonoaudiologia, acompanhamento psicológico e programas comportamentais individualizados.

Quanto mais cedo ocorre a identificação, maiores tendem a ser os ganhos em comunicação, autonomia, aprendizagem e qualidade de vida.

O diagnóstico exige avaliação especializada

Apesar da popularização de testes disponíveis na internet, especialistas alertam que nenhum questionário online é capaz de confirmar ou excluir um diagnóstico de autismo.

A avaliação clínica envolve entrevista detalhada, histórico do desenvolvimento, observação comportamental e aplicação de instrumentos científicos reconhecidos internacionalmente.

Entre os protocolos considerados referência estão o ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule – Segunda Edição) e o ADI-R (Autism Diagnostic Interview – Revised), utilizados para complementar a avaliação clínica em diferentes faixas etárias.

Como diferenciar o TEA de outros transtornos?

O diagnóstico diferencial pode ser complexo porque o TEA compartilha características com outras condições, como TDAH, TOC, transtornos de aprendizagem e transtorno da comunicação social.

Em muitos casos, duas condições podem coexistir, exigindo uma análise clínica cuidadosa para definir o tratamento mais adequado.

Por isso, especialistas recomendam que qualquer suspeita seja investigada por profissionais capacitados, evitando diagnósticos precipitados ou tratamentos inadequados.

Quando procurar ajuda?

Pais devem observar sinais como dificuldade persistente de contato visual, ausência de resposta ao próprio nome, atraso no desenvolvimento da linguagem, comportamentos repetitivos e forte resistência a mudanças de rotina.

Em adolescentes e adultos, dificuldades recorrentes nas relações sociais, hipersensibilidade sensorial, interesses muito específicos e sensação constante de não se encaixar socialmente também podem justificar uma avaliação especializada.

Segundo o Dr. Márcio Candiani, o mais importante é compreender que o diagnóstico não representa um rótulo, mas uma ferramenta que permite direcionar intervenções, promover inclusão e melhorar a qualidade de vida do paciente e de sua família.

O especialista realiza consultas particulares presenciais em Belo Horizonte e também atende pacientes de todo o Brasil por meio da telemedicina.

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