Entrega do IgNobel ‘se refugia’ na Suíça por medo dos EUA – 14/03/2026 – Reinaldo José Lopes

A imagem mostra uma grande audiência em um evento, com várias pessoas sentadas em cadeiras. No primeiro plano, um homem com um paletó colorido com corações e uma gravata laranja está lançando um avião de papel. Ao lado dele, uma mulher com um chapéu rosa e uma blusa azul observa. Ao fundo, outras pessoas também estão lançando aviões de papel, criando um ambiente festivo e animado.

O slogan do IgNobel, o Prêmio Nobel da pesquisa improvável (ou bizarra, para os preconceituosos), é destacar estudos que “primeiro fazem rir e depois fazem pensar”. Ambos os verbos não estão entre os favoritos do governo Trump, o que está levando a cerimônia de premiação a abandonar o solo dos EUA depois de 35 anos de gargalhadas supostamente inofensivas –ou talvez não tão inofensivas assim.

Não, não é piada. O anúncio, que pingou na minha caixa de entrada nesta semana, veio do próprio fundador e mestre de cerimônias do IgNobel, o matemático americano Marc Abrahams. O problema, explica ele, passou a ser a recepção incerta dada a possíveis ganhadores estrangeiros do prêmio.

“Ao longo do último ano, visitar o país deixou de ser seguro para nossos convidados. Não podemos, em sã consciência, pedir que os novos ganhadores, ou os jornalistas internacionais que cobrem o evento, viajem para os EUA em 2026.” No comunicado oficial, Abrahams lembra ainda que, entre 1991 e 2025, as cerimônias aconteceram sempre no estado americano de Massachusetts –na Universidade Harvard, no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e na Universidade de Boston.

O novo lar semipermanente do IgNobel será a Suíça, lar de uma vibrante comunidade de pesquisa. “A cidade de Zurique e suas instituições rapidamente moveram montanhas –só metaforicamente; na Suíça é ilegal mover montanhas fisicamente– para tornar isso possível”, diz Abrahams, incapaz de evitar a piadinha besta.

Ele aproveitou ainda para dar o que só consigo interpretar como uma sutil alfinetada em seu país de nascença: “A Suíça é um país que investe pesado na educação, na pesquisa e na inovação, e, portanto, também em divulgar o conhecimento para a população como um todo. Não tem nenhum recurso [natural], exceto talvez o chocolate”. (Vamos abstrair o fato de que o chocolate suíço só existe por causa do cacau vindo da parte tropical do mundo.)

O matemático ainda tentou aliviar um pouco o golpe anunciando que uma celebração paralela –mas sem espaço para visitantes estrangeiros ou entrega de prêmios– acontecerá em Boston algumas semanas depois da festa oficial em Zurique, prevista para 3 de setembro. O plano é que, daqui por diante, o IgNobel seja entregue sempre numa cidade europeia e, no ano seguinte, em Zurique, alternando.

Quem lê esta coluna pode ficar à vontade para achar que estou fazendo tempestade em copo d’água (ou que o exagerado é Abrahams), mas a situação do “Nobel do B” é exatamente o que a gente espera que aconteça com a ciência quando governos autoritários ultrapassam todos os limites.

Esse tipo de governo costuma odiar duas coisas essenciais para o empreendimento científico moderno: livre circulação de pessoas e ideias e internacionalismo humanista. Não é por acaso que Hitler acabou proibindo que cidadãos da Alemanha aceitassem o Nobel e resolveu inventar um prêmio “de alemães para alemães”. E, como esta coluna já tinha antecipado, a ascensão do maior doidão já produzido pela família Kennedy ao posto de czar da saúde dos EUA está enterrando a pesquisa biomédica americana.

E ainda teve cientista brasileiro batendo palma pro Quarto Reich do Laranjão e pro sonho bolsonarista de transformar este chão numa Vichy equatorial. Devem estar doidos pra repetir a dose em 2026.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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