José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A morte da demógrafa Elza Berquó, na quinta-feira (16/07), aos 100 anos de idade, encerra uma das trajetórias extraordinárias da ciência brasileira. Pioneira em seu campo de pesquisa, ela foi a principal responsável por institucionalizar os estudos demográficos no país, formando sucessivas gerações de estudiosos e ajudando a criar instituições que transformaram a maneira de compreender a população brasileira. Ao longo de décadas, contribuiu para tornar a demografia um instrumento indispensável para a formulação de políticas públicas, sempre guiada pela convicção de que números só adquirem verdadeiro significado quando colocados a serviço da redução das desigualdades e da melhoria das condições de vida das pessoas.
Sua influência ultrapassou em muito as fronteiras da academia. Professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), fundadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), criadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro titular da Academia Brasileira de Ciências, presidente da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD) e uma das fundadoras da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), Berquó participou diretamente da construção das principais instituições responsáveis pelo desenvolvimento da demografia no Brasil.
Tal atuação coincidiu com um período de transformações decisivas na história nacional. Nas décadas em que o país experimentava rápida urbanização, profundas mudanças na estrutura familiar, queda acelerada da fecundidade, aumento da expectativa de vida e persistentes desigualdades sociais, ela ajudou a produzir o conhecimento necessário para compreender essas mudanças. Fez da demografia muito mais do que uma disciplina estatística: transformou-a em uma ciência voltada para as pessoas, para seus direitos e para os desafios concretos enfrentados pela sociedade brasileira.
Essa perspectiva permaneceu viva até os últimos anos de sua fecunda trajetória. Glaucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo-Unicamp, lembra que a característica mais marcante de Elza era provocar continuamente seus interlocutores a refletir sobre o sentido social da pesquisa científica. “Uma das coisas mais impressionantes eram as suas falas, muito fortes, contundentes e sempre cheias de questionamentos sobre o que nós deveríamos fazer com os dados que obtemos. Se temos informações qualificadas, o que podemos propor para uma sociedade melhor? Era assim que ela dizia”, conta Marcondes à Agência FAPESP.
Segundo a coordenadora, essa inquietação jamais desapareceu. “A crítica social e a preocupação com o que nós podemos oferecer para melhorar as condições de vida das populações eram uma inquietação constante. O passado era um aprendizado, mas ela dizia que não podíamos ficar presos nele; era preciso mirar o futuro.” Essa visão ajuda a compreender a singularidade de Berquó. Embora fosse uma pesquisadora rigorosa, nunca enxergou a produção científica como um fim em si mesma. Costumava insistir que, por trás de cada tabela, de cada indicador e de cada gráfico, havia vidas humanas. “Ela cobrava que produzíssemos dados pensados, não apenas os dados brutos, mas as pessoas que existem nesses dados”, recorda Marcondes. “Esse é um legado que inspira até hoje várias gerações, inclusive aqueles que, como eu, não trabalharam diretamente com ela, mas foram profundamente influenciados por suas palavras.”
Nascida em Guaxupé (MG), em 17 de outubro de 1925, Elza Salvatori Berquó iniciou sua formação em matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, prosseguiu os estudos em estatística na USP e concluiu o doutorado em bioestatística na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, em uma época em que a presença feminina na ciência ainda era relativamente rara e enfrentava sérios obstáculos. A sólida formação quantitativa, combinada com uma permanente sensibilidade para os problemas sociais, definiria toda a sua trajetória intelectual.
Bacharel em matemática pela PUC-Campinas, em 1947; em 2022, retratada para a capa do livro Com a palavra, Elza Berquó (fotos: arquivo pessoal e Chico Max)
Seu ingresso na demografia ocorreu justamente quando o Brasil começava a experimentar mudanças populacionais profundas, mas ainda dispunha de poucos pesquisadores especializados para estudá-las. Coube a ela, juntamente com um pequeno grupo de pioneiros, introduzir métodos modernos de análise demográfica, formar recursos humanos e estabelecer uma agenda científica capaz de dialogar simultaneamente com a estatística, a saúde pública, a economia, a sociologia e as políticas governamentais.
A consolidação desse campo científico confundiu-se, em grande medida, com a própria trajetória da pesquisadora. Em 1969, participou da fundação do Cebrap, instituição criada em plena ditadura militar e que se tornaria um dos mais importantes centros brasileiros de pesquisa em ciências sociais. Anos depois, em 1982, fundaria o Nepo, que se transformaria em uma das principais referências latino-americanas em pesquisa demográfica.
Mais do que criar instituições, porém, Berquó construiu comunidades científicas. Formou pesquisadores, estimulou colaborações internacionais, dialogou com os movimentos sociais e ajudou a consolidar uma cultura acadêmica baseada na excelência metodológica e no compromisso público da ciência. Como observou Marcondes, uma das marcas mais duradouras de sua atuação foi ter criado instituições capazes de sobreviver à própria fundadora. “Ela criou instituições com bases sólidas, que puderam se perpetuar.”
Ao longo da carreira, Berquó ampliou continuamente o escopo da demografia brasileira. Seus primeiros trabalhos concentraram-se na fecundidade e nas transformações do comportamento reprodutivo da população. Posteriormente, sua agenda de pesquisa incorporou temas que, à época, ainda eram pouco explorados pela academia brasileira, como saúde reprodutiva, sexualidade, juventude, envelhecimento, relações de gênero e desigualdades raciais. “Ela foi uma pioneira em trazer as discussões sobre a população feminina negra, sobre a saúde da mulher negra, incentivando estudos com recorte racial. Foi realmente uma desbravadora”, sublinha Marcondes. E lembra que Berquó não se limitou a estudar essas desigualdades, mas procurou também criar condições para que elas fossem investigadas por pesquisadoras diretamente comprometidas com essa realidade. “Ela foi uma das pessoas que criaram programas de apoio para jovens pesquisadoras negras. Foi visionária. Vinte ou trinta anos antes da implantação das políticas de cotas, já entendia que, se quiséssemos compreender a especificidade da saúde da mulher negra, precisávamos ter pesquisadoras negras produzindo esse conhecimento”, observa.
Ao mesmo tempo em que expandia as fronteiras da pesquisa demográfica, Berquó dedicava muita energia à construção institucional. Além do Cebrap e do Nepo, esteve entre os fundadores da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento e participou de comissões consultivas dos censos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mesmo quando já não frequentava diariamente o Nepo, fazia questão de manter contato com os jovens pesquisadores. Marcondes lembra que, nos últimos anos, quando o debilitamento da saúde reduziu suas aparições públicas, Berquó continuava enviando vídeos e mensagens aos seminários promovidos pelo núcleo que fundara. Outro traço que impressionava era sua extraordinária curiosidade intelectual. Mesmo centenária, permanecia sintonizada com a vida política, os avanços científicos e as mudanças da sociedade brasileira. “Era uma pessoa extremamente lúcida. Acompanhava as discussões políticas, queria saber dos estudos, pedia para ler os trabalhos. Até os últimos anos continuava interessada pela vida, acompanhava os telejornais e adorava assistir a minisséries”, conta.
Essa permanente abertura ao novo talvez explique por que sua influência continuou crescendo muito depois de sua aposentadoria formal. Embora já não coordenasse projetos diretamente, seguia sendo uma interlocutora respeitada, uma conselheira atenta e uma presença inspiradora para pesquisadores de diferentes gerações. Mas talvez a verdadeira medida da grandeza de Berquó não esteja apenas em suas realizações acadêmicas ou institucionais, e sim na memória afetiva que deixou entre aqueles que conviveram com ela. Os depoimentos de colegas, alunos e colaboradores convergem para uma imagem rara: a de uma pesquisadora cuja autoridade jamais dispensou a delicadeza, e cuja firmeza intelectual coexistia com uma atenção permanente às pessoas.
“Outra marca era a elegância”, diz Marcondes. “Era uma mulher vaidosa, que sempre fazia questão de estar impecável. Demonstrava firmeza no andar, firmeza no falar. Sua presença impunha respeito. Quando a doutora Elza chegava, todo mundo corria. A chegada dela era um acontecimento.” Esse respeito, porém, nunca se confundiu com distanciamento. “Mesmo diante de toda a autoridade que tinha, fazia questão de falar com todos os funcionários. No fim do ano, trazia pequenas lembranças para cada um e escrevia um poema dedicado aos pesquisadores, aos bolsistas, aos funcionários. Era uma pessoa agregadora.”
Marcondes pertence à geração que conheceu uma Elza já distante da administração cotidiana do Nepo. Ainda assim, guarda a lembrança de uma mulher que, com o passar dos anos, pareceu substituir a energia combativa das décadas pioneiras por uma serenidade cada vez mais acolhedora. “Eu vi uma Elza mais terna, mais serena, sempre aconselhando. As primeiras gerações talvez tenham conhecido uma Elza mais dura, porque ela precisava abrir caminhos. A nossa geração encontrou uma mulher muito mais suave.” Essa transformação não significou abandono das causas que marcaram toda a sua existência. Até os últimos meses de vida, continuou acompanhando atentamente os rumos da pesquisa, da política e da sociedade brasileira, convencida de que o conhecimento científico só encontra sua plena razão de ser quando contribui para ampliar direitos, reduzir desigualdades e melhorar concretamente a vida das pessoas.
Em 2021, Berquó se tornou a primeira mulher da Unicamp a receber o título de Doutora Honoris Causa. Na cerimônia, discursou: “Meu tempo é curto, mas ele foi longo o suficiente para ver vocês com todo esse carinho. Jovens, continuem a estudar! Continuem a luta pela democracia!” (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/elza-berquo-marcas-do-pioneirismo-na-demografia/ e agencia.fapesp.br/56126).
Fonte ==> Folha SP