‘Ele combinava uma postura séria e centrada com um senso de humor muito presente’

‘Ele combinava uma postura séria e centrada com um senso de humor muito presente’

Entrevista com Nina Santos

‘Ele combinava uma postura séria e centrada com um senso de humor muito presente’

Filha do primogênito de Milton Santos e pesquisadora na área de comunicação, ela descreve sua experiência pessoal com o avô. E mostra como a obra miltoniana ajuda a entender o novo mundo digitalizado

Entrevista com Nina Santos

‘Ele combinava uma postura séria e centrada com um senso de humor muito presente’

Filha do primogênito de Milton Santos e pesquisadora na área de comunicação, ela descreve sua experiência pessoal com o avô. E mostra como a obra miltoniana ajuda a entender o novo mundo digitalizado

Nina Fernandes dos Santos é secretária adjunta de comunicação da Presidência da República (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Filha de Milton Almeida dos Santos Filho (Miltinho) e neta de Milton Santos, Nina Fernandes dos Santos é secretária adjunta de comunicação da Presidência da República. Doutora em Ciência da Informação e Comunicação pela Université Paris II (Panthéon-Assas), é também pesquisadora na mesma instituição e no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD). Nesta entrevista, ela fala de sua experiência pessoal com o avô e de Milton Santos na intimidade do lar.

Agência FAPESP – Poderia contar um pouco de sua experiência pessoal com Milton Santos e de como ele era na intimidade?

Nina Santos – Eu convivi com meu avô até os 13 anos de idade, quando ele faleceu, em 2001. Nesse período, nossa convivência se dava principalmente durante as férias. Desde que eu nasci, ele já morava em São Paulo, enquanto eu vivia em Salvador. Eu passava todas as férias em São Paulo, e ele também ia com frequência a Salvador para ministrar aulas e palestras. Uma lembrança muito marcante é que boa parte das minhas férias era estruturada em torno da Universidade de São Paulo. Os passeios incluíam levá-lo até a universidade, visitar o Instituto Butantan, caminhar pelo bosque da USP, lanchar nas lanchonetes do campus. Era o ambiente em que circulávamos e nos divertíamos, ainda que eu e meu irmão fôssemos muito pequenos. No ambiente doméstico, há duas coisas muito fortes. A primeira é o escritório dele, que era um espaço quase sagrado. Quando ele estava lá dentro, a porta ficava fechada, e não podíamos fazer barulho. Era um lugar protegido, onde sabíamos que algo muito importante acontecia, embora não soubéssemos exatamente o quê. Às vezes ele nos levava lá dentro e mostrava o que havia: basicamente papel, caneta e livros. A segunda dimensão era a convivência nas refeições. Ele tinha o hábito de misturar banana com comida salgada: arroz, feijão, carne, farinha e banana. Era um costume baiano. Mas eu, embora baiana, não tinha esse hábito, e o achava curioso. Porém, principalmente à noite, o jantar era seguido de longas conversas na sala, com ele, Marie-Hélène, meus pais, meu tio, eu e meu irmão. Eram discussões intensas sobre política, sociedade e o mundo contemporâneo, muitas vezes em francês. Como Marie-Hélène era de cultura francesa, acho que eles faziam isso em consideração a ela. Eu percebia que era algo muito interessante, mas não entendia nada – o que me motivou, ainda criança, a querer aprender francês. Em termos de personalidade, ele combinava uma postura muito séria e centrada – simbolizada pelo escritório – com um senso de humor muito presente. Ele era risonho e brincalhão. Às vezes me perguntava, quando eu tinha seis ou sete anos, se eu estava lendo algum livro dele na escola. Na época, eu não entendia a graça da pergunta. Eu não tinha noção de que ele tinha escrito livros e de que alguém deveria ler os livros que ele tinha escrito. Hoje vejo que era uma forma bem-humorada de brincar comigo.

Agência FAPESP – Ele era sempre muito formal na maneira de se vestir nas aparições públicas. Em casa, essa formalidade se mantinha?

Santos – Do que me lembro, ele era mais relaxado em casa, mas havia, sim, uma certa formalidade, que vinha também da cultura francesa, presente no ambiente familiar. Existe na cultura francesa uma dimensão cerimonial muito forte nas interações cotidianas. Eu brinco que, na França, quando entra em uma cafeteria, a pessoa deve dizer: ‘Bom dia, por favor, por obséquio, se não for atrapalhar, será que o senhor ou a senhora poderia, quando for possível, me servir um café?’. Um pouco dessa formalidade estava presente em casa. Ao mesmo tempo, acho que havia nisso um elemento importante de autoproteção, especialmente ligado à questão racial. Uma forma de se proteger de discriminações é adotar uma postura extremamente formal e cuidadosa, que afirme a posição e a dignidade. Isso é muito forte para as mulheres e também para as pessoas negras, que, em geral, são sempre as mais arrumadas e as mais formais nesses recintos onde nossa presença é menos frequente do que a de outras pessoas. Então havia um pouco das duas coisas: um ambiente mais relaxado por ser familiar, mas também uma formalidade incorporada, tanto culturalmente quanto como estratégia de afirmação.



Milton, seu filho Rafael e os netos Alei e Nina (foto: acervo da família)

Agência FAPESP – Em relação a isso, ele disse, em uma entrevista ao portal Geledés, que o pai o educou para assumir uma posição de liderança. Por exemplo, ensinando, desde muito cedo, que ele devia olhar as pessoas nos olhos e nunca olhar para baixo, e valorizando as boas maneiras. Parece que foi um traço importante na educação dele. Você percebeu isso também no convívio familiar?

Santos – Certamente. Na casa dele, eu aprendi a colocar a mesa, a posição dos talheres. Era o único lugar onde eu permanecia à mesa até a última pessoa terminar de comer. Havia uma forte presença de ritos e cerimônias. E acho especialmente interessante que isso tenha vindo dos pais dele – um homem e uma mulher negros no interior da Bahia, no início do século 20. Minha bisavó era professora, meu bisavô também atuava na área educacional. É uma trajetória familiar muito singular.

Agência FAPESP – Sobre a ancestralidade, há relatos de que o pai de seu bisavô teria sido escravizado durante um tempo da vida, até a Abolição. Você tem informações a respeito?

Santos – Não tenho informação precisa. Já ouvi essa história, mas não posso confirmar. É dessas coisas que se perdem, infelizmente, pela falta de documentação.

Agência FAPESP – Em um documentário do Silvio Tendler, seu avô disse que a condição do intelectual negro no Brasil comportava um duplo desafio: ser intelectual e ser negro.

Santos – A maneira como ele se colocava nessa questão me parece muito interessante. Nunca conversei com ele sobre isso, não era algo que estava nos nossos diálogos. Mas, pelo que apreendo hoje, a posteriori, ele sustentava que ser uma pessoa negra não o limitava a determinados temas. Ele não construiu sua trajetória intelectual exclusivamente a partir da questão racial, embora essa dimensão atravesse sua obra. A posição dele era: eu sou uma pessoa negra e sou um intelectual, e isso me permite falar sobre qualquer tema. Hoje temos muitas discussões que acabam por restringir a participação de grupos a determinados assuntos: mulheres falando de misoginia, negros falando de racismo, homossexuais falando de homofobia, judeus falando de antissemitismo e assim por diante. A posição dele era bem diferente: a experiência de ser uma pessoa negra não o limitava a um único campo de reflexão. Isso me lembra uma reflexão do Lázaro Ramos no livro Na minha pele, quando ele fala justamente sobre a diferença entre o ator negro passar a ser incluído nas novelas, nas peças de teatro etc., fazendo o papel de personagens negros, e do ator, sendo negro, poder representar qualquer papel, sem se prender a estereótipos.

Agência FAPESP – Pensando a partir da sua área, a comunicação, como você vê a atualidade da obra dele?

Santos – A obra dele é extremamente atual, especialmente para pensar a comunicação digital. O mundo mudou muito desde 2000, quando foi publicado o último livro dele. Houve uma digitalização intensa e, hoje, vivemos em um mundo profundamente digital, mesmo quando não estamos na internet. A reflexão dele sobre a técnica é central: não a técnica em si, mas como a técnica transforma a vida cotidiana, as relações, a sociabilidade. Muitas análises atuais são tecnodeterministas, e isso contraria a abordagem dele. A técnica não é algo intrinsecamente bom ou ruim: é algo a ser apropriado e transformado. Até 2013, havia uma visão extremamente positiva do mundo digital, como se as mídias sociais fossem permitir que os oprimidos derrubassem todas as ditaduras e construíssem um planeta mais democrático. Quando chegamos na década de 2020, caímos no extremo oposto, de que todas as democracias vão acabar porque as pessoas agora são condicionadas por fake news propagadas pelo WhatsApp. São dez anos separando uma visão da outra. Mas, do meu ponto de vista, ambas são extremamente tecnodeterministas. Não é porque existe Twitter que as revoluções vão derrubar todos os governos autoritários e nem é porque existe o WhatsApp que as democracias acabaram e ninguém mais sabe o que é verdade e o que é mentira. Acho que a obra de meu avô oferece elementos para pensar esses processos de uma maneira muito mais complexa. E acho que isso dialoga também com a própria noção de território que ele apresenta. Há estudos que tentam relacionar o digital com territórios físicos, mas me parece ainda mais interessante pensar o digital como um território em si – um espaço que pode ser apropriado e transformado. Hoje, vivemos em um espaço digital plataformizado, apropriado de maneira extremamente concentrada, monopolista, pouco transparente, na qual o interesse público não está no horizonte. Mas isso pode ser transformado. E a obra dele fornece ferramentas conceituais para pensar essa possibilidade.

Agência FAPESP – Há algo que você gostaria de acrescentar?

Santos – Sim. Acho importante destacar como os lugares por onde ele passou influenciaram sua visão de mundo. Ele nasceu no interior da Bahia, viveu em Salvador, Ilhéus, passou pela França, África, América do Norte, Japão, e depois voltou ao Brasil. Essa trajetória fez com que ele pensasse o mundo a partir de múltiplos lugares. Há uma ideia dele de que gosto muito: ninguém olha o mundo a partir do mundo, mas a partir do lugar onde está. Isso tem implicações profundas: permite pensar a complexidade do mundo a partir de diferentes pontos de vista. Isso dialoga com a necessidade de descentralizar o pensamento e de construir outros ‘globais’. Por exemplo: por que o que acontece em Nova York é global, o que acontece em São Paulo é nacional e o que acontece em Salvador é local? O que acontece em Salvador também pode ser global. Precisamos repensar essas hierarquias. Essa reflexão aparece na minha própria trajetória. Enfocando temas digitais a partir de Salvador, frequentemente me perguntavam se eu trabalhava com ‘questões locais’. Mas eu tratava de temas globais: plataformas, regulação, desigualdade informacional. Existe uma tendência de classificar tudo o que está fora dos grandes centros como ‘local’. E o pensamento dele ajuda a questionar isso.

 



Fonte ==> Folha SP

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