Com a derrota (por enquanto) do movimento político mais tapado e lunático da história brasileira, a gente pode voltar a falar do mundo real? (Sim, eu sei que a derrota é muito relativa, considerando a horda de lacradores com a qual eles vão abarrotar o Congresso a partir do ano que vem, mas vamos nos permitir respirar um pouco.)
“Mundo real? Você quer dizer metas de inflação, taxa de juros do BC, ajuste fiscal, né?” Não, mas obrigado por participar do programa. Uma das poucas coisas que se salvam na obra do pop star Yuval Noah Harari é mostrar que, na longa lista de ficções coletivas da humanidade, também podemos colocar o dinheiro e a economia moderna. Sim, todo mundo precisa pagar as contas, inclusive o governo Lula, mas nada disso vai continuar parando de pé sem o verdadeiro mundo real a que me refiro: ar respirável, água limpa, terra fértil, comida e saúde para todos.
O que quero dizer, e o que já deveria estar óbvio para qualquer pessoa com meio cérebro e um quarto de coração, é que o desafio mais prioritário, que deveria ser obsessão de qualquer legislador ou gestor público (em vez de ficar inventando travestis imaginárias invasoras de banheiros), é o das múltiplas crises ambientais que já nos assolam e hão de fungar ainda mais no nosso cangote nas próximas décadas.
Uma das grandes ironias deste ciclo eleitoral brasileiro, aliás, veio na semana anterior ao segundo turno. Foi quando saiu na revista científica Nature, uma das mais prestigiosas do mundo, uma pesquisa sobre o que está acontecendo com a amazônia. Uma pesquisa coordenada adivinhem por quem? Por uma candidata a deputada federal que acabou sendo derrotada no primeiro turno.
No trabalho, Luciana Gatti e seus colegas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostraram que, nas últimas décadas, por causa dos suspeitos de sempre –desmatamento e queimadas–, a floresta amazônica está deixando de ser um ralo dos gases que aquecem o planeta (ou seja, parou de retirá-los da atmosfera e mitigar o problema) e está virando uma fonte deles.
Secas intensas pioram a situação, mas o grosso da culpa recai sobre a ação humana –que tem piorado as próprias secas, é claro. Imagine que bom seria ter gente como Gatti no Congresso, no lugar de certos pirralhos que o eleitorado paulista e mineiro preferiu.
Estamos diante da proverbial tempestade perfeita, em outras palavras. O feito representado pela maior redução da história no desmate amazônico, bem como avanços nesse sentido no cerrado, merece ser celebrado e ampliado. Mas a situação das queimadas e, principalmente, a falta de uma visão estratégica clara para um desmame do Brasil diante do uso das fontes fósseis de energia mostram que não temos motivos para deitar em berço esplêndido.
Como mostra o estudo publicado por Gatti e companhia e tantos outros ao longo dos anos, gente capacitada para diagnosticar e enfrentar o problema não nos falta –gente, vale reforçar, forjada nas instituições públicas de ensino e pesquisa deste país.
A criatividade e o conhecimento deles também são perfeitamente capazes de achar soluções para os desafios da saúde pública, sepultando de vez, por exemplo, o atraso vacinal em que nos encontrávamos no começo da década. O lado perdedor pode espernear o quanto quiser: o fato é que não havia ninguém entre eles que fosse capaz de ouvir o que a ciência tem a dizer.
Fonte ==> Folha SP – TEC