Autor de oito livros, professor e doutorando em Neurociências, Heldene Leicam transforma experiências pessoais e conhecimento científico em obras que unem literatura, educação e inclusão.
Ainda criança, quando vivia em um pequeno povoado no sertão do Rio Grande do Norte, Heldene Leicam encontrou nos livros um caminho para conhecer mundos que iam muito além da realidade que o cercava. Entre a seca, as limitações do interior e uma rotina simples, foi a leitura que despertou sonhos que pareciam improváveis para quem o via crescer naquela comunidade.
Hoje, o menino que percorria quilômetros de bicicleta para estudar, lia escondido debaixo da cama e sonhava em se tornar escritor construiu uma trajetória que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Professor, pesquisador, doutorando em Neurociências e autor de oito livros, Heldene vem conquistando espaço na literatura contemporânea ao combinar ficção, educação e representatividade em suas obras.
A leitura transformou um menino do sertão em escritor
Nascido no Rio de Janeiro, em 1979, filho de um sergipano e de uma mulher indígena do Rio Grande do Norte, Heldene mudou-se ainda muito pequeno para um povoado no sertão potiguar após a separação dos pais.
Foi ali que desenvolveu uma relação intensa com os livros.
Aos sete anos ingressou na escola e rapidamente descobriu o prazer pela leitura. Quando passou a estudar em uma cidade vizinha, distante cerca de oito quilômetros, fazia o percurso inicialmente em uma bicicleta emprestada e, depois, em um caminhão pau de arara. O esforço diário era recompensado pelas visitas à biblioteca da escola.
“Os livros passaram a ser o meu mundo. Era através deles que eu conhecia outras culturas, outras formas de pensar e imaginava futuros diferentes para mim.”
A paixão pela literatura foi tão intensa que, aos 11 anos, decidiu fazer um curso de Língua Portuguesa por correspondência porque acreditava que dominar o idioma seria essencial para realizar um sonho: escrever seus próprios livros.
Nem mesmo quando sua mãe proibiu as leituras, preocupada com a quantidade de tempo dedicada aos livros, ele abandonou o hábito.
“Eu lia escondido debaixo da cama.”
O sonho de escrever se transformou em uma carreira literária
Embora escrevesse desde muito jovem, Heldene iniciou oficialmente sua carreira editorial em 2022.
Em apenas alguns anos, publicou oito livros, transitando por diferentes gêneros literários e consolidando uma produção marcada pela diversidade temática.
Sua obra reúne livros voltados à educação, literatura infantojuvenil, romances, ficção científica e thriller policial.
Um dos diferenciais de sua escrita é a presença de protagonistas autistas, característica que amplia a representatividade na literatura brasileira e dialoga diretamente com sua própria trajetória.
Segundo o autor, construir personagens neurodivergentes significa contribuir para uma literatura mais inclusiva e próxima da realidade de milhares de leitores.

Literatura e ciência caminham lado a lado
Além da produção literária, Heldene mantém uma sólida carreira acadêmica.
Professor e pesquisador, atualmente desenvolve doutorado em Neurociências, área que, segundo ele, também influencia diretamente seu processo criativo.
O aprofundamento científico sobre funcionamento cerebral, comportamento humano e neurodesenvolvimento tem ampliado a construção psicológica dos personagens e enriquecido as narrativas que produz.
Para o escritor, ciência e literatura não ocupam espaços distintos, mas se complementam.
Essa aproximação entre pesquisa acadêmica e ficção tem permitido desenvolver histórias que unem emoção, conhecimento e reflexão sobre temas contemporâneos, especialmente aqueles relacionados à inclusão, diversidade e desenvolvimento humano.
Reconhecimento dentro e fora do Brasil
Mesmo tendo iniciado sua carreira editorial recentemente, Heldene Leicam já acumula participações em alguns dos principais eventos literários do país.
O escritor lançou obras nas Bienais Internacionais do Livro do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Pernambuco, ampliando sua presença no cenário editorial brasileiro.
Sua produção também alcançou projeção internacional.
Em 2025, apresentou um livro bilíngue durante a Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, na Itália, considerada uma das maiores vitrines mundiais da literatura infantil.
No ano anterior, recebeu em Lisboa o Prêmio Personalidade do Ano 2024, reconhecimento concedido à sua contribuição para a literatura e para a educação.

A fotografia diante da Torre Eiffel
Entre os momentos mais simbólicos de sua trajetória está uma promessa feita ainda na adolescência.
Na época, Heldene dizia que um dia tiraria uma fotografia com um livro de sua autoria diante da Torre Eiffel, em Paris.
A ideia parecia distante e chegou a ser motivo de descrença entre pessoas próximas.
Em 8 de junho de 2025, o sonho tornou-se realidade.

A fotografia segurando um de seus livros em frente ao monumento francês passou a representar muito mais do que uma conquista pessoal: tornou-se um símbolo da força dos sonhos alimentados pela educação e pela leitura.
Neurodiversidade também faz parte da própria história
Heldene fala abertamente sobre ser uma pessoa autista e com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Para ele, compreender sua própria neurodivergência fortaleceu tanto sua atuação como educador quanto sua identidade como escritor.
Essa vivência também explica a escolha de construir protagonistas autistas em parte de suas obras, ampliando a presença da neurodiversidade na literatura brasileira de ficção.
Segundo o autor, representar diferentes formas de perceber o mundo também é uma maneira de promover inclusão por meio da arte.
Uma carreira em expansão
Casado e pai de dois filhos, Heldene Leicam afirma que continua perseguindo o mesmo objetivo que nasceu ainda na infância: consolidar seu nome entre os escritores brasileiros.
Com oito livros publicados, uma produção que transita entre literatura, educação e ficção, participação em eventos internacionais e uma trajetória acadêmica voltada às Neurociências, o autor vem construindo uma carreira marcada pela combinação entre conhecimento, imaginação e compromisso com a representatividade.
Mais do que contar histórias, Heldene Leicam busca mostrar que a literatura pode ampliar horizontes, despertar reflexões e oferecer novos espaços de identificação para leitores de diferentes idades.