Saúde Pública
Despolitização enfraquece ativismo contra a Aids no Brasil
Após décadas de protagonismo em políticas de saúde, movimento social enfrenta fragmentação e mudança de prioridades, aponta estudo da FGV
Saúde Pública
Despolitização enfraquece ativismo contra a Aids no Brasil
Após décadas de protagonismo em políticas de saúde, movimento social enfrenta fragmentação e mudança de prioridades, aponta estudo da FGV
Segundo Helena Achcar (Cepesp-FGV), nos anos 1980 lideranças como Betinho moldaram um ativismo radical, intelectualizado e profundamente político, que pautava a Aids como uma questão de democracia e justiça social (imagem: Abong/arquivo)
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – O programa brasileiro de resposta a Aids/HIV é considerado um caso de sucesso. O Brasil foi o primeiro país em desenvolvimento a garantir tratamento gratuito, ainda em 1987, e se destacou por um ativismo social combativo, que ajudou na construção do Sistema Único de Saúde (SUS) e na formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas e direitos humanos.
Foi da aliança entre sociedade civil, sanitaristas e Estado que surgiram marcos importantes na luta contra a Aids, como o acesso universal e gratuito aos antirretrovirais, a produção nacional de testes diagnósticos e decisões ousadas, como a quebra da patente do medicamento antirretroviral efavirenz, em 2007, por exemplo.
Mas, após décadas de sucesso, esse protagonismo vem perdendo força. O campo do ativismo, antes guiado por um certo consenso político, se fragmentou. Isso se deu em razão do novo perfil das pessoas que vivem com HIV (de mais baixa renda) e do redirecionamento das políticas de saúde, o que levou também a uma alteração nas prioridades da sociedade civil. Como resultado, houve uma despolitização do ativismo anti-Aids no Brasil. Esta é a conclusão de Helena Achcar, pesquisadora do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (Cepesp-FGV), em artigo publicado na revista Sociology of Health & Illness.
“O declínio do movimento não pode ser explicado apenas por falta de financiamento, mas, sobretudo, por causa da mudança no perfil dos ativistas e das prioridades impostas pela pauperização da epidemia. Entram nessa conta também o avanço tecnológico e a crescente medicalização da resposta ao HIV, que favoreceram soluções rápidas e biomédicas em detrimento da saúde coletiva e do enfrentamento das desigualdades”, afirma Achcar à Agência FAPESP.
“É preciso destacar que a ideia de que a Aids está resolvida é enganosa e, portanto, o ativismo segue sendo um dos pilares da resposta brasileira”, completa a pesquisadora.
O trabalho, apoiado pela FAPESP, fundamenta sua análise na sociologia do pensador francês Pierre Bourdieu (1930-2002).
Achcar examinou a desmobilização do movimento de Aids no Brasil por meio de quatro conceitos principais que estão inter-relacionados: o espaço social de luta e competição entre diferentes agentes (que Bourdieu chama de campo); as ações internalizadas pelos membros do movimento (habitus), os recursos econômicos, sociais, culturais e simbólicos que estão em disputa (capital); e o discurso dominante e naturalizado que rege o que é considerado legítimo dentro do campo (doxa).
“Ao analisar o movimento como um campo social, no qual ONGs, redes e o Estado disputam poder e legitimidade para definir o que conta como ativismo legítimo, busquei capturar a dinâmica simbólica e interna do campo e sua interação com as mudanças nos ambientes externos”, diz.
Um pouco de história
Como relembra Achcar, nos anos 1980, lideranças como Betinho e Herbert Daniel (e não só eles) moldaram um ativismo radical, intelectualizado e profundamente político, que pautava a Aids como uma questão de democracia e justiça social. O movimento estava ancorado na classe média e em alianças estratégicas com o movimento sanitarista.
A partir dos anos 1990, no entanto, o HIV avançou sobre populações mais vulneráveis, com menor escolaridade e renda. Novos agentes entraram no movimento com demandas urgentes, como alimentação, moradia e acesso a serviços básicos. Isso alterou prioridades e fragmentou a cultura política construída nas décadas anteriores.
“A tese que defendo, inspirada em Bourdieu, é que todos nós desenvolvemos uma espécie de estrutura mental ao longo da vida [o que ele chama de habitus]. Esse habitus molda nossas ações e a forma como enxergamos o mundo, e não é algo individual, mas compartilhado por grupos sociais. Quando a epidemia da Aids passa a atingir pessoas com habitus de classes mais desfavorecidas, o debate político dentro do movimento também muda e questões básicas, como acesso a alimento, moradia e renda, tornam-se centrais”, explica Achcar.
A partir da década de 2010, a medicalização das políticas de Aids ganhou força. “O discurso de ‘fim da Aids’ reduziu a doença a uma questão biomédica e mascarou desigualdades estruturais que muitas políticas e o movimento buscavam enfrentar”, afirma a pesquisadora.
O estudo aponta que a resposta ao HIV foi progressivamente absorvida por uma lógica neoliberal que privilegia soluções biomédicas rápidas, gestão técnica e resultados mensuráveis. “ONGs historicamente politizadas foram pressionadas a se profissionalizar para captar recursos, tornando-se prestadoras de serviços e perdendo parte de seu capital militante”, conta.
Outra mudança importante no cenário externo veio no final dos anos 2000, quando o Brasil deixou de ser prioridade para doadores internacionais e cortes internos reduziram o espaço de participação social. “A promessa de um fim da Aids a partir de uma suposta fórmula mágica reforçou a ideia de que a epidemia seria resolvida apenas com medicamentos, minimizando debates sobre desigualdades estruturais”, prossegue a pesquisadora.
Ativistas ouvidos por Achcar descrevem o movimento atual como fraco e incapaz de lutar como antes. “Tensões entre ONGs históricas e novas redes identitárias aprofundaram a fragmentação. A antiga identidade universalista que mobilizava o ativismo como um todo deu lugar a disputas por legitimidade e por recursos escassos”, conta.
“Esse trabalho mostra que o futuro da resposta brasileira ao HIV depende da capacidade de reconstruir alianças, recuperar o caráter político do movimento e enfrentar desigualdades que continuam alimentando a epidemia”, finaliza.
O artigo A Bourdieusian approach to the demobilisation of Brazil’s AIDS movement pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1467-9566.70187.
Fonte ==> Folha SP