Criatura que lembra ornitorrinco viveu entre dinossauros – 19/10/2026 – Ciência

Criatura que lembra ornitorrinco viveu entre dinossauros - 19/10/2026 - Ciência

Há cerca de 165 milhões de anos, um pequeno animal peludo que nadava como ornitorrincos, caçava como lontras e tinha uma cauda semelhante à de castores vivia nos lagos e rios do território que hoje corresponde à China. Essa criatura é o exemplo mais antigo conhecido de um estilo de vida semiaquático na história evolutiva dos mamíferos.

Pesquisadores descreveram a espécie, em um artigo publicado no último dia 7 na revista Nature, com base em um fóssil descoberto na região da Mongólia Interior. O Megacauda sungei —o nome científico significa cauda grande— viveu na era dos dinossauros.

O espécime tinha cerca de 50 centímetros de comprimento e pesava entre 1 e 2 quilos. Embora fosse minúsculo em comparação com a maioria dos dinossauros, ele atingia o dobro do tamanho do segundo maior integrante da linhagem dos mamíferos no Jurássico —naquela época, a maioria era composta de criaturas diminutas, do tamanho de musaranhos— e apresentava algumas características anatômicas cruciais compartilhadas com os mamíferos modernos.

O fóssil, muito bem preservado, conserva impressões da pele e dos pelos e revela um contorno corporal nítido. Ele mostra que o Megacauda sungei possuía a mesma estrutura musculoesquelética da garganta que permite aos mamíferos modernos, incluindo os seres humanos, engolir o alimento mastigado em pequenas porções, em vez de grandes bocados, e que dá aos filhotes a capacidade de mamar o leite materno.

“Os mamíferos modernos são únicos entre os vertebrados vivos no que diz respeito à alimentação. A maioria deles consegue usar os dentes para triturar o alimento ingerido em pedaços minúsculos e, em seguida, engolir a comida mastigada, misturada à saliva, em um pequeno bolo de cada vez. Esse bolo alimentar é empurrado para o esôfago por um tubo muscular na passagem da garganta, conhecido como faringe”, explicou o paleontólogo Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago (Estados Unidos), autor da pesquisa.

“Essa forma de deglutição típica dos mamíferos difere da dos outros vertebrados, a maioria dos quais simplesmente engole grandes pedaços de alimento ou a presa inteira”, continuou o pesquisador. “Crocodilos engolem aves grandes. Pítons afastam as mandíbulas para engolir um mamífero de tamanho considerável. Até mesmo uma cobra fina consegue engolir facilmente um roedor inteiro. Esses animais têm dentes, mas, como seus dentes e mandíbulas não conseguem mastigar, precisam se virar engolindo grandes pedaços.”

O Megacauda sungei, assim como os mamíferos modernos, tinha a delicada estrutura óssea localizada sob o crânio e os ossos hioides articulados da garganta, que atuariam em conjunto com os músculos da garganta e da língua. Também como os mamíferos modernos, a espécie conseguia respirar e se alimentar ao mesmo tempo.

Os primeiros mamíferos primitivos, ou basais, surgiram há cerca de 225 milhões de anos, durante o Período Triássico, anterior ao Jurássico. Os mamíferos permaneceram em posição subordinada até que o impacto de um asteroide, há 66 milhões de anos, derrubou os dinossauros, mas conseguiram ocupar uma variedade de nichos ecológicos.

DIVERSIDADE ECOLÓGICA

O Megacauda sungei fazia parte de um grupo de mamíferos chamado docodontes, que surgiu há cerca de 200 milhões de anos e prosperou por aproximadamente 90 milhões de anos, mas não deixou descendentes vivos.

Diversos docodontes escavavam tocas, viviam no solo ou nas árvores, ou, como ilustra o caso do Megacauda sungei, tornaram-se semiaquáticos.

“O Megacauda sungei amplia o crescente conjunto de evidências de que os mamíferos podiam apresentar diversidade ecológica, mesmo em um ecossistema dominado pelos dinossauros”, disse Luo.

Seu fóssil foi desenterrado em uma rocha formada por sedimentos lacustres.

“Ele nadava usando as patas dianteiras e traseiras para remar e fazendo movimentos ondulatórios com a cauda”, afirmou o paleontólogo Thomas Martin, da Universidade de Bonn (Alemanha), coautor do estudo. “Provavelmente cavava tocas nas margens de rios ou nas orlas de lagos.”

O animal tinha proporções corporais semelhantes às de um ornitorrinco, especialmente no tronco e nas patas traseiras, embora não tivesse o famoso focinho em forma de bico de pato. Sua cauda larga era achatada, como a de um castor ou de um ornitorrinco, e coberta por pequenas escamas, como a de um castor.

Outro docodonte semiaquático do período Jurássico, de menor porte, chamado Castorocauda e também originário da China, viveu um pouco depois do Megacauda sungei.

Os dentes e as mandíbulas do Megacauda sungei eram apropriados para uma dieta carnívora, assim como os dos atuais mamíferos predadores semiaquáticos, como lontras e visons. Seus caninos especializados tinham três raízes, algo incomum nos mamíferos atuais, e seus dentes posteriores permitiam que cortasse e mastigasse a carne de maneira diferente da dos mamíferos carnívoros modernos. As cúspides de seus dentes eram curvadas para trás, o que ajudava a capturar presas escorregadias, como peixes.

Fragmentos de ossos foram encontrados no estômago de Megacauda sungei, indicando que o animal se alimentava de pequenos vertebrados. Muitos fósseis de salamandras foram encontrados nas mesmas rochas.

Segundo Luo, o Megacauda sungei precisava ficar atento aos terópodes, os dinossauros carnívoros, e talvez tivesse hábitos noturnos ou fosse ativo ao amanhecer e ao entardecer.

“A ameaça de predação contra ele provavelmente vinha dos dinossauros terópodes emplumados”, afirmou Luo.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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