Crescimento desordenado das cidades paulistas impacta o ambiente e a produtividade econômica

Crescimento desordenado das cidades paulistas impacta o ambiente e a produtividade econômica

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – As cidades paulistas estão se espalhando muito rápido, e num ritmo ainda maior do que o do crescimento da população. Esse fenômeno, conhecido como “espraiamento urbano”, tem gerado grandes problemas para o meio ambiente, a infraestrutura, o trânsito e até para a economia dos municípios. Esse foi o principal alerta feito por participantes de um workshop realizado na terça-feira (16/06), no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

O evento apresentou os resultados parciais das pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Acomodação Sustentável do Crescimento Urbano das Cidades Paulistas, sediado na Escola Politécnica (Poli-USP). O projeto reúne equipes de outras duas instituições da USP – a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) – e conta com a parceria da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Habitação. O objetivo do grupo é compreender como as cidades do Estado vêm acomodando o crescimento populacional e econômico e desenvolver ferramentas capazes de orientar políticas públicas voltadas à urbanização sustentável até 2040.

Ao mostrar os dados levantados nos dois primeiros anos do projeto, o coordenador do CCD, Miguel Luiz Bucalem, professor da Poli-USP, comentou que, entre 1985 e 2024, o Brasil ganhou mais 2,75 milhões de hectares de áreas urbanizadas, sendo cerca de 470 mil hectares apenas no Estado de São Paulo, que se consolidou como o principal vetor da expansão urbana brasileira nas últimas quatro décadas.

“Enquanto a população paulista aumentou mais de 40% entre 1991 e 2022, a expansão da área urbanizada ultrapassou 81%, indicando um padrão de urbanização marcado pelo aumento do consumo de solo urbano”, apontou.

Como exemplos, foram citadas as cidades de Jundiaí e Ribeirão Preto. Entre 1991 e 2022, Jundiaí apresentou crescimento populacional de 53,8%, acompanhado por uma expansão da área urbanizada de 95,1%. A expansão territorial avançou em ritmo superior ao crescimento demográfico, especialmente entre 1991 e 2010. Quanto a Ribeirão Preto, a cidade registrou um dos processos mais intensos de expansão entre os casos analisados, com forte consumo de solo urbano. Diante de um aumento populacional de 60%, o crescimento da área urbanizada foi superior a 123% entre 1991 e 2022.

Bucalem enfatizou que o espraiamento urbano está associado ao aumento das distâncias casa-trabalho, ao crescimento do tempo gasto em deslocamentos, à maior dependência do automóvel, à menor viabilidade econômica do transporte coletivo e à redução da acessibilidade aos empregos.

Outro tópico relevante refere-se ao desempenho econômico dos municípios. Segundo Bucalem, um estudo realizado pela equipe econômica do projeto, coordenada por Carlos Roberto Azzoni e Eduardo Haddad, ambos professores da FEA-USP, mostrou que, entre 2010 e 2022, cerca de 21% das cidades brasileiras se espraiaram apesar de terem perdido população. Nesse grupo de municípios, a produtividade do trabalho caiu cerca de 10%, enquanto outro grupo de cidades registrou aumento médio de 9%, o que sugere que a combinação entre espraiamento urbano e declínio populacional está associada a perdas importantes de produtividade.

Ao mesmo tempo que impacta negativamente o desempenho econômico, o espraiamento onera o município com maiores demandas de redes de água, esgoto e drenagem, iluminação e equipamentos públicos.



Workshop foi realizado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Impactos ambientais e qualidade de vida

Os estudos também apontam consequências ambientais bastante negativas, com conversão de áreas naturais em áreas urbanizadas, supressão da vegetação, fragmentação de hábitats, perda de biodiversidade, ocupação de áreas ambientalmente frágeis e pressão sobre os mananciais.

Levantamentos em Ribeirão Preto, conduzidos pela equipe coordenada por Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Poli-USP, mostram que o avanço da urbanização comprometeu funções ecossistêmicas relacionadas à qualidade do ar, à prevenção da erosão e à manutenção da fertilidade do solo.

Outra análise identificou também uma forte correlação entre o espraiamento urbano e a elevação da temperatura máxima dos municípios paulistas com mais de 100 mil habitantes. Segundo Bucalem, os resultados mostram que, em média, cidades com maior expansão dispersa tendem a apresentar aquecimento mais intenso.

Foram contabilizados ainda os impactos sobre a qualidade do ar. Nos 40 municípios paulistas com intenso espraiamento urbano – correspondentes a 6% do total de municípios do Estado – observou-se, entre 2000 e 2022, um aumento médio de 12 quilômetros quadrados na área urbanizada, acompanhado de um incremento médio de 2 microgramas por metro cúbico (µg/m³) na concentração de material particulado fino (PM2,5), poluente associado ao aumento do risco de doenças respiratórias e cardiovasculares.

Pesquisadores da FAU-USP, coordenados por Roberta Consentino Kronka Mülfarth, investigaram ainda os efeitos do espraiamento sobre a caminhabilidade e a qualidade de vida urbana. Segundo os resultados preliminares, cidades mais dispersas tendem a apresentar menor interação social, menor prática de atividades físicas, maior dependência do automóvel para atividades cotidianas e maiores dificuldades para deslocamentos a pé, fatores que contribuem para o isolamento social, com impactos negativos sobre a saúde.

Modelagem de uso do solo e transportes

Uma das metas centrais do projeto é construir cenários capazes de estimar como as cidades paulistas evoluirão até 2040. Os modelos integrados de uso do solo e transporte – conhecidos internacionalmente pela sigla LUTI (Land Use Transport Interaction) – permitem antever, em um cenário futuro, a localização das famílias por faixa de renda e dos empregos por tipo de atividade. Com isso, possibilitam estimar os efeitos de diferentes políticas públicas, como incentivos à ocupação de vazios urbanos, restrições à expansão da mancha urbana, investimentos em transporte coletivo ou subsídios para habitação de interesse social em áreas já dotadas de infraestrutura.

O grupo encarregado de modelagem do uso do solo e transportes, coordenado por Diego Bogado Tomasiello, da Poli-USP, está trabalhando com essas simulações para estimar como as cidades paulistas poderão crescer até 2040 caso sejam mantidas as tendências atuais de expansão urbana. Esse cenário tendencial servirá de base de comparação para cenários induzidos por políticas públicas voltadas à formação de cidades mais compactas e adensadas.

Segundo Tomasiello, o desafio é combinar projeções de crescimento populacional e econômico, intervenções no sistema de transportes e regras de uso do solo para avaliar de que modo diferentes políticas podem induzir padrões distintos de crescimento urbano.

Ciência para orientar políticas públicas

Na abertura do workshop, o presidente da FAPESP, Marco Antonio Zago, destacou o papel dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento como instrumentos de aproximação entre a produção científica e os desafios concretos da administração pública. Como informou na ocasião, existem atualmente 83 CCDs em funcionamento no Estado de São Paulo, com investimento direto da Fundação da ordem de R$ 570 milhões. Consideradas as contrapartidas das instituições parceiras, o volume total de recursos mobilizados aproxima-se de R$ 1 bilhão.

Os centros reúnem pesquisadores, órgãos governamentais, empresas e organizações da sociedade civil em torno de problemas específicos de interesse público, com metas definidas e horizonte de execução de até cinco anos. Segundo Zago, o projeto apresentado no workshop exemplifica a proposta dos CCDs, ao reunir pesquisadores e gestores públicos na produção de conhecimento capaz de subsidiar políticas públicas baseadas em evidências. “Eu sabia que, se colocássemos esses atores juntos, eles achariam caminhos fantásticos”, afirmou.

O presidente da FAPESP também defendeu uma maior integração entre os diferentes CCDs dedicados ao tema das cidades resilientes, fortalecendo a articulação entre áreas como habitação, infraestrutura sustentável, planejamento urbano e adaptação climática. De acordo com ele, o Estado já conta com cerca de 12 CCDs atuando em temas relacionados à resiliência urbana, o que justifica um esforço de coordenação e planejamento conjunto.

O CCD “Acomodação Sustentável do Crescimento Urbano das Cidades Paulistas” deverá prosseguir por mais três anos. Ao final do projeto, os pesquisadores pretendem disponibilizar metodologias, bases de dados e ferramentas de simulação capazes de apoiar o planejamento territorial e a formulação de políticas públicas para cidades mais compactas, eficientes e sustentáveis. Além disso, deverão ser oferecidas metodologias para avaliação de políticas públicas de contenção do espraiamento e um conjunto de análises voltadas ao planejamento estratégico de cidades sustentáveis.

O workshop “Acomodação Sustentável do Crescimento Urbano das Cidades Paulistas” pode ser assistido na íntegra em: youtu.be/OCTafWK3BH4.

 



Fonte ==> Folha SP

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