Ecologia
Conexão entre florestas e rios fortalece microbioma de anfíbios e os protege contra fungo letal
Estudo com participação do CBioClima, um CEPID da FAPESP, conclui que conservar paisagens não significa apenas proteger fragmentos de forma isolada
Ecologia
Conexão entre florestas e rios fortalece microbioma de anfíbios e os protege contra fungo letal
Estudo com participação do CBioClima, um CEPID da FAPESP, conclui que conservar paisagens não significa apenas proteger fragmentos de forma isolada
Duas espécies migratórias, Ischnocnema henselii (na foto) e Rhinella ornata, apresentaram cargas mais altas do fungo justamente onde a desconexão entre hábitats era maior (imagem: Raquel Rocha Santos/Wikimedia Commons)
Agência FAPESP * – Estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences aponta que o que faz a pele de uma rã ser resistente a um fungo que já dizimou centenas de espécies de anfíbios no mundo todo não são apenas os genes do animal, mas a comunidade de bactérias benéficas que vivem em sua pele e a forma como a paisagem ao redor está organizada.
Os cientistas demonstraram que a desconexão entre florestas e corpos d’água prejudica a capacidade dos anfíbios de recrutar micróbios de defesa, tornando-os mais suscetíveis ao fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), um dos patógenos mais devastadores para essa classe de animais.
O fenômeno investigado chama-se habitat split, a desconexão espacial entre os ambientes terrestres e aquáticos que muitas espécies de anfíbios precisam para completar seu ciclo de vida (reprodução na água e vida adulta na floresta).
A equipe, liderada por Daniel Medina (School for Field Studies, Estados Unidos) e Renato A. Martins, com a participação de Guilherme Becker (Penn State University) e de Célio Haddad, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro e coordenador científico do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), coletou amostras da pele de 586 rãs de quatro espécies na Mata Atlântica do Estado de São Paulo. Utilizando sequenciamento genético de alta resolução, os pesquisadores identificaram quais bactérias estavam presentes e cruzaram essas informações com o banco de dados AmphiBac, que contém mais de 7.800 isolados bacterianos testados em laboratório quanto à capacidade de inibir o crescimento do Bd.
O CBioClima é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.
Em uma etapa posterior, a equipe quantificou a carga de infecção pelo fungo em cada animal, além de métricas da paisagem, como percentual de cobertura florestal, densidade de bordas nos fragmentos e, principalmente, o grau de distância entre fragmentos florestais e corpos d’água. Modelos estatísticos avançados (GLMMs e Modelos de Distribuição Conjunta de Espécies) isolaram o efeito do habitat split de outras variáveis, como data de coleta e paisagem ao redor.
Os resultados foram expressivos: em áreas com alto habitat split, a proporção de leituras genéticas correspondentes a bactérias capazes de inibir o Bd caiu de forma acentuada. Duas espécies migratórias, Ischnocnema henselii e Rhinella ornata, apresentaram cargas mais altas do fungo justamente onde a desconexão entre hábitats era maior. Já as espécies que conseguem usar bromélias-tanque (como Boana faber) foram menos afetadas. O dado indica que micro-hábitats úmidos dentro da própria floresta podem amortecer os efeitos da fragmentação.
Para os autores, o estudo fornece a primeira evidência de campo robusta do chamado “princípio do microbioma adaptativo”: a exposição repetida e de baixo nível ao patógeno – algo que ocorre naturalmente em paisagens conectadas – seleciona comunidades microbianas mais preparadas para enfrentar infecções futuras. Quando essa conectividade é rompida, os anfíbios perdem não apenas o acesso a fontes de micróbios benéficos no ambiente, mas também a oportunidade de “treinar” sua defesa microbiana.
“A relevância desse estudo reside na prova de que hábitats preservados e conectados são o berço de populações saudáveis, realidade que se dissipa sob o impacto da fragmentação causada pelo homem. Mais do que um diagnóstico, a pesquisa oferece subsídios para estratégias de reconexão florestal, com foco no combate às sequelas do desmatamento ilegal que assola o território nacional. É imperativo recordar que a sobrevivência humana é indissociável da saúde do meio ambiente. Nesse contexto, os anfíbios surgem como sentinelas da qualidade ambiental, lembrando-nos de que ecossistemas funcionais são a base da nossa própria saúde e longevidade”, diz Haddad.
O artigo Connecting habitats, boosting disease resistance: Spatial connectivity enhances amphibian microbiome defenses against fungal pathogen pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2520745123.
* Com informações do CBioClima.
Fonte ==> Folha SP