Cientistas descobrem nova toxina usada por bactérias para eliminar rivais

Cientistas descobrem nova toxina usada por bactérias para eliminar rivais

Microbiologia

Cientistas descobrem nova toxina usada por bactérias para eliminar rivais

Estudo detalha como a proteína RhsF altera o RNA de microrganismos competidores, abrindo caminho para o desenvolvimento de tratamentos antimicrobianos inovadores

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Cientistas descobrem nova toxina usada por bactérias para eliminar rivais

Estudo detalha como a proteína RhsF altera o RNA de microrganismos competidores, abrindo caminho para o desenvolvimento de tratamentos antimicrobianos inovadores

Cultura de Chromobacterium violaceum: a cor roxa se deve à produção de um pigmento característico chamado violaceína, que é usado pela bactéria para matar outros microrganismos e tem propriedades antimicrobianas e antitumorais (foto: CEPID B3/divulgação)

Agência FAPESP* – Uma proteína recém-descoberta da bactéria Chromobacterium violaceum, comum em regiões tropicais e capaz de causar infecções graves em humanos, pode ajudar a explicar como microrganismos competem entre si e inspirar novas estratégias de controle bacteriano. É o que indica estudo liderado por brasileiros e publicado este mês (26/07) no Journal of Biological Chemistry.

Para investigar o conjunto de toxinas secretadas por essa bactéria – chamadas de “proteínas efetoras” –, a equipe analisou seu sistema de secreção do tipo VI (T6SS), uma nanomáquina em forma de lança que injeta substâncias em outros microrganismos.

A investigação foi conduzida no Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

Os pesquisadores compararam duas linhagens de Chromobacterium violaceum: uma com o T6SS plenamente funcional e outra modificada para inativar esse sistema. O objetivo foi avaliar quais toxinas dependem desse sistema para serem secretadas. Além disso, procuraram proteínas que interagem com componentes-chave dessa estrutura. Os resultados levaram à identificação de vários potenciais efetores do T6SS nessa espécie – entre eles, uma proteína inédita nomeada RhsF. Essa molécula é injetada em bactérias rivais durante a competição intermicrobiana e atua inibindo o crescimento ou levando-as à morte.

Júlia Alves, que realizou o estudo durante o seu doutorado no Laboratório de Regulação da Expressão Gênica e Patogenicidade Bacteriana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), explica que, além de caracterizar a proteína, a equipe também descreveu o mecanismo que protege a própria bactéria contra esse tipo de ataque.

“Demonstramos que a RhsF é utilizada pelo sistema T6SS para competir com outras bactérias, identificamos sua proteína de imunidade correspondente e resolvemos a estrutura tridimensional do complexo formado entre as duas proteínas”, conta a pesquisadora. As conclusões mostram ainda que, sem essa toxina, a bactéria se torna menos eficiente na competição, perdendo a capacidade de eliminar concorrentes. “A interpretação mais segura é que a RhsF seja uma toxina especializada em atacar bactérias competidoras”, aponta.

De acordo com José Freire da Silva Neto, também autor do estudo e pesquisador responsável pelo mesmo laboratório da FMRP-USP, a RhsF – assim como as outras toxinas observadas no trabalho – não depende de um agente intermediário para agir, pois é injetada diretamente na célula-alvo. “Isso amplia o espectro de bactérias que podem ser atacadas e torna o sistema particularmente eficiente em ambientes onde coexistem diferentes espécies”, diz.

A diversidade de efetores, ilustrada pelos seis candidatos descobertos, também parece representar uma vantagem para a espécie. “Enquanto um único efetor pode atacar um alvo específico, um conjunto diversificado atua simultaneamente sobre diferentes componentes celulares, comprometendo múltiplos processos e tornando mais difícil que a célula-alvo desenvolva mecanismos de proteção”, acrescenta Freire.

As conclusões do estudo podem repercutir em áreas como ecologia, microbiologia e saúde. “O principal impacto a curto prazo é ampliar nosso conhecimento sobre como as bactérias competem e se organizam em comunidades microbianas, o que é importante, inclusive, em contextos de interação das bactérias que vivem no corpo humano com espécies patogênicas”, ressalta Alves.

Em longo prazo, a descoberta de novos mecanismos de toxicidade pode inspirar estratégias antimicrobianas inovadoras. “A toxina RhsF utiliza um mecanismo pouco explorado, baseado na modificação de RNA, o que pode revelar novos alvos para o controle bacteriano”, afirma. Ela alerta, no entanto, que ainda é necessário aprofundar o entendimento desses mecanismos antes de avançar para aplicações clínicas.

A equipe segue desenvolvendo novas abordagens. “Ainda existem várias perguntas em aberto”, diz Freire. “A principal é identificar exatamente quais moléculas de RNA são modificadas pela RhsF dentro das células-alvo e como essa modificação leva à inibição do crescimento ou à morte bacteriana”, acrescenta. O pesquisador também destaca a necessidade de investigar com mais detalhes o reconhecimento e o transporte da proteína pelo sistema T6SS. Segundo ele, o próprio estudo abriu novas frentes de investigação. “Os outros efetores encontrados ainda não foram caracterizados; eles representam oportunidades para a descoberta de novos mecanismos de ação de efetores até então desconhecidos”, conclui.

O artigo Global identification of Chromobacterium violaceum T6SS effectors reveals an Rhs antibacterial toxin featuring FIX and ADP-ribosyltransferase domains pode ser lido em: www.jbc.org/article/S0021-9258(26)02088-0/fulltext.

* Com informações de Bianca Bosso, do CEPID B3.

 



Fonte ==> Folha SP

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