Cientistas descobrem nova espécie de rã em florestas alagadas da Amazônia

Cientistas descobrem nova espécie de rã em florestas alagadas da Amazônia

Biodiversidade

Cientistas descobrem nova espécie de rã em florestas alagadas da Amazônia

Identificada no oeste do Acre, a Adenomera varcena revela uma diversidade oculta que só pôde ser comprovada por meio de análises de canto e DNA

Biodiversidade

Cientistas descobrem nova espécie de rã em florestas alagadas da Amazônia

Identificada no oeste do Acre, a Adenomera varcena revela uma diversidade oculta que só pôde ser comprovada por meio de análises de canto e DNA

Além de ampliar o conhecimento científico, a identificação de novas espécies de anfíbios neotropicais traz impacto direto em estratégias de conservação (foto: CBioClima/divulgação)

Agência FAPESP * – Cientistas do Brasil e do exterior descobriram uma nova espécie de rã nas florestas alagadas do oeste da Amazônia, nomeada Adenomera varcena. A descoberta representa um avanço importante para o conhecimento da biodiversidade amazônica e da chamada diversidade críptica – casos em que dois ou mais animais parecem idênticos a olho nu, mas na verdade são de espécies completamente diferentes. Para diferenciá-las, os pesquisadores precisaram analisar detalhes como o canto da rã e o seu DNA.

Os resultados foram publicados em maio na revista Ichthyology & Herpetology. Entre os autores do artigo estão o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Célio Haddad e o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Thiago Carvalho. Ambos integram a equipe do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP.

A descoberta ocorreu a partir de expedições realizadas na região do Alto Rio Juruá, no oeste do Acre, especialmente em fragmentos florestais associados aos rios Moa e Crôa, nas proximidades de Cruzeiro do Sul. Para confirmar que se tratava de uma nova rã, os pesquisadores cruzaram diferentes informações: análises de DNA, o som do canto, o formato do corpo (morfologia), dados sobre o ambiente onde ela vive e comparações com animais já preservados em coleções científicas.

O nome varcena faz referência justamente às florestas de várzea amazônicas, ecossistemas que alagam em determinadas épocas do ano, ambiente onde a rã foi encontrada. O artigo destaca que o uso desse tipo de hábitat representa uma descoberta a respeito do gênero Adenomera, que costuma habitar florestas de terra firme.

Fisicamente, a Adenomera varcena se diferencia das outras espécies pela falta de uma mancha escura na parte de baixo do antebraço. Além disso, seu canto de acasalamento é único: trata-se de um som curto, com ritmo bem lento e características sonoras muito específicas.

A descoberta dessa nova espécie de rã reforça o quanto a biodiversidade amazônica ainda é desconhecida, principalmente em relação a grupos de espécies morfologicamente semelhantes (diversidade críptica). O estudo também destaca que muitas linhagens de Adenomera ainda aguardam descrição formal e que novas pesquisas serão fundamentais para compreender melhor a diversificação desse grupo de anfíbios na Amazônia.

“Como ainda não conhecemos em detalhe as exigências ecológicas da espécie e a sua história natural [período e modo reprodutivo], é difícil prever os impactos frente às mudanças climáticas, que podem alterar os regimes de inundação sazonal do ecossistema de florestas de várzea nessa região da Amazônia”, afirma Carvalho. “Como a espécie tem preferência por esse ecossistema específico, é possível sugerir que essas alterações na dinâmica das inundações possam influenciar, não sabemos até que ponto, o comportamento reprodutivo da espécie. Em um cenário de perda acelerada das áreas naturais, a descrição formal de uma nova espécie reforça o quanto ainda precisamos nos esforçar para avançar os estudos sobre a nossa biodiversidade. As espécies podem ser extintas localmente antes mesmo de se tornarem espécies formais, com a sua nomeação e descrição.”

Nesse sentido, o professor Haddad alerta que, embora a descoberta de novos anfíbios seja frequente, a ciência trava uma verdadeira corrida contra o tempo diante da degradação ambiental para catalogar a biota brasileira com precisão. “Atualmente, o ritmo da destruição dos ecossistemas supera a capacidade de resposta dos estudos taxonômicos. Consequentemente, espécies ainda não descritas ficam de fora das listas de fauna ameaçada, permanecendo juridicamente e ambientalmente vulneráveis. Assim, o ato de descrever novas espécies atua como uma ferramenta que auxilia na proteção. Além disso, aprofundar o conhecimento sobre a real biodiversidade expande nossa compreensão sobre a evolução dos organismos, consolidando um pilar essencial tanto para a ciência pura quanto para as estratégias de conservação”, diz.

Além de ampliar o conhecimento científico sobre anfíbios neotropicais, a identificação de novas espécies possui impacto direto em estratégias de conservação. Sem o reconhecimento taxonômico correto, espécies raras ou restritas a determinados ambientes podem permanecer invisíveis para políticas ambientais e avaliações de risco de extinção.

A pesquisa envolveu colaboração entre instituições brasileiras e internacionais, reunindo cientistas ligados à UFMG, Unesp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Universidade do Equador (PUCE-Quito).

O artigo A new species of terrestrial foam-nesting frog (Adenomera, Leptodactylidae) from the várzea forests of western Amazonia pode ser acessado em: https://doi.org/10.1643/h2025033.

* Com informações do CBioClima.

 



Fonte ==> Folha SP

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