Ciência cidadã ajuda a explicar como evoluiu o raro comportamento de machos que protegem os ovos em grupo de aracnídeos

Ciência cidadã ajuda a explicar como evoluiu o raro comportamento de machos que protegem os ovos em grupo de aracnídeos

Thabata Oliveira | Agência FAPESP * – O cuidado materno e o paterno seguiram trajetórias evolutivas diferentes nos opiliões, um grupo de aracnídeos inofensivos frequentemente confundido com aranhas. Enquanto a proteção dos ovos pelas fêmeas surgiu apenas em espécies cujos ancestrais não cuidavam da prole, o cuidado paterno evoluiu tanto em linhagens cujos ovos eram deixados à própria sorte quanto naquelas que já contavam com o olhar atento de mãe.

As conclusões foram possíveis graças ao maior levantamento já realizado sobre o tema, que mais do que dobrou o número de espécies com registros de cuidado parental. O estudo, publicado na revista Zoological Journal of the Linnean Society, reuniu quase um século de observações científicas e centenas de fotografias feitas por usuários da plataforma de ciência cidadã iNaturalist.

“A ideia surgiu quando vi um trabalho usando ciência cidadã para estudar papagaios. Pensei: toda hora encontro fotos de opiliões cuidando dos ovos no iNaturalist. Por que não juntar esse material com os registros que eu vinha acumulando havia décadas?”, conta Glauco Machado, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), que liderou o estudo, desenvolvido em colaboração com outros 19 pesquisadores de diversos países.

Assim como as aranhas, os opiliões possuem oito pernas, mas diferem bastante desses parentes: não têm veneno, não produzem seda e apresentam o corpo fundido em um único bloco. São encontrados principalmente em ambientes florestais úmidos, e a Mata Atlântica é um dos principais centros mundiais de diversidade do grupo.

“Se você faz uma trilha à noite em uma floresta, existe uma chance gigantesca de ver opiliões para todos os lados. Eles são incrivelmente comuns, apesar de as pessoas não os conhecerem muito bem”, afirma Machado.

Em muitas espécies, machos ou fêmeas permanecem durante semanas protegendo os ovos contra predadores até a eclosão. Embora o cuidado materno seja o mais frequente, os opiliões da superfamília Gonyleptoidea se destacam pela grande quantidade de espécies em que os machos assumem essa tarefa.

A ausência de cuidado também ocorre. Nesses casos, em vez de permanecer ao lado da postura (a deposição dos ovos), as fêmeas depositam um único ovo por vez em diferentes locais, muitas vezes escondendo-o sob terra, detritos ou em cavidades naturais.



Fêmea de Amazochroma carvalhoi protegendo seus ovos sob um tronco caído, no Brasil (imagem: John A. Uribe Rosas)

Ciência cidadã acelera descobertas

Para reconstruir a evolução desse comportamento, os pesquisadores reuniram todos os registros publicados sobre cuidado parental em opiliões da superfamília Gonyleptoidea, além de observações de campo e de laboratório realizadas entre 1996 e 2024 por pesquisadores de cinco países da América Latina (Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica e Equador). Também realizaram uma busca sistemática em mais de 24 mil registros fotográficos disponíveis no iNaturalist, da qual resultaram 185 fotografias úteis, representando 93 espécies. Em 53 delas, o comportamento nunca havia sido descrito pela ciência.

“Entre 1936, quando foi publicado o primeiro registro de cuidado parental em opiliões, e 2025, a literatura tinha acumulado dados para apenas 80 espécies. Neste trabalho acrescentamos informações para mais 85 espécies. Foi um avanço gigantesco”, diz Machado.

Entre os achados mais curiosos está a descrição de um novo tipo de ninho: uma estrutura globular de barro suspensa na vegetação, construída por machos do gênero Quindina antes mesmo da chegada das fêmeas para a postura. A família Nomoclastidae foi a única, entre as estudadas, em que os machos constroem ativamente ninhos, que podem assumir diferentes formatos, como tapete, arena, disco suspenso e globo.

Segundo Machado, qualquer pessoa pode contribuir para pesquisas desse tipo. “O principal é produzir fotografias de boa qualidade, de preferência em vários ângulos. A pessoa não precisa saber se aquilo é raro ou importante para a ciência. Tenho certeza de que quem fotografou esses opiliões não fazia ideia de que estava ajudando a dobrar o conhecimento sobre esse comportamento”, afirma.

Quem cuida?

Reunir informações sobre centenas de espécies foi apenas o primeiro passo. O objetivo seguinte era reconstruir a história evolutiva do cuidado parental: descobrir se os ancestrais dessas espécies cuidavam ou não dos ovos e, quando cuidavam, se a responsabilidade era do macho ou da fêmea.

Com as informações coletadas em mãos, os pesquisadores mapearam os diferentes tipos de cuidado parental em uma árvore evolutiva composta por 165 espécies, reconstruindo como esse comportamento surgiu e se transformou ao longo de milhões de anos.

“O que mais chama atenção é que o cuidado paterno evoluiu muitas vezes de forma independente. Fora peixes e anfíbios, esse é um comportamento raro entre os animais. Nos opiliões ele aparece repetidamente”, afirma Machado.

A análise mostrou que o cuidado materno surge exclusivamente a partir de ancestrais sem cuidado parental. Já o cuidado paterno pode evoluir por dois caminhos: diretamente de espécies sem cuidado ou a partir de espécies que já apresentavam cuidado materno.

Uma possível explicação, segundo os pesquisadores, é o comportamento territorial de muitas espécies. “Em algumas delas, quando a fêmea desaparece, o macho territorial assume temporariamente a proteção dos ovos. Acreditamos que esse tenha sido um passo intermediário para a evolução do cuidado paterno”, explica Machado.

Experimentos anteriores também mostram que machos que já estão cuidando de ovos costumam ser mais atraentes para as fêmeas. “Ser pai é extremamente sexy para as fêmeas de opiliões”, brinca o pesquisador.



Opilião macho do gênero Quindina cuidando de ovos depositados em um ninho em forma de disco, na Colômbia. O ninho é formado principalmente por material vegetal morto, e os ovos ficam parcialmente inseridos em sua superfície. À direita, é possível observar um pequeno orifício deixado pela eclosão de um dos ovos (imagem: John A. Uribe Rosas)

Os resultados também indicam que o cuidado parental foi perdido diversas vezes ao longo da evolução, provavelmente porque algumas espécies passaram a proteger os ovos de outras formas, escondendo-os em frestas ou cobrindo-os com detritos.

Segundo os autores, os resultados mostram que plataformas de ciência cidadã, como o iNaturalist, podem acelerar significativamente pesquisas sobre evolução do comportamento, complementando décadas de trabalho de campo tradicional.

A pesquisa contou com apoio da FAPESP por meio de um projeto Jovem Pesquisador e de um Auxílio Regular, ambos concedidos a Machado, além de um projeto do Programa BIOTA e de bolsas concedidas aos integrantes da equipe (projetos 17/05283-1, 21/03200-7, 22/07338-6, 24/02905-5 e 24/18754-6).



Fêmea de Goniosoma roridum cuidando de seus ovos em um barranco à beira de uma estrada, no Brasil (imagem: Glauco Machado)

O artigo One small step for citizens, one giant leap for science: iNaturalist records boost our understanding of the evolution of parental care in a clade of arachnids pode ser lido em: academic.oup.com/zoolinnean/article-abstract/207/2/zlag061/8707815.

* Thabata Oliveira é bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculada ao IQ-USP.

 



Fonte ==> Folha SP

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