Casas de festas de IA expõem conflitos e denúncias graves – 23/09/2026 – IA

Entrada de residência com portão de ferro preto aberto, ladeado por muros baixos cinza com luminárias acesas. Caminho de concreto leva a escadaria cercada por arbustos, palmeiras e árvores verdes em ambiente arborizado.


Hillsborough (Califórnia)

| The New York Times
A mansão de oito quartos em estilo mediterrâneo, vizinha a um campo de golfe na rica cidade de Hillsborough, no Vale do Silício, já passou por muita coisa nos últimos anos.

Em uma das festas realizadas no local, um carro voou pelo ar. Em outro evento, chamado “Meia-Noite em Paris”, convidados chegaram em carruagens puxadas por cavalos a uma réplica da Torre Eiffel. Sergey Brin, cofundador do Google, já fez palestras na casa. Claire Boucher, cantora e compositora conhecida como Grimes e ex-companheira de Elon Musk, também se apresentou no local.



Entrada da AGI House, em Hillsborough, na Califórnia, onde jovens moram, programam e fazem networking


Minh Connors/New York Times

A mansão é uma das mais conhecidas —e controversas— entre as chamadas casas coletivas de tecnologia, que se multiplicaram no Vale do Silício e em San Francisco durante o boom da inteligência artificial.

Ficaram para trás as casas alugadas no estilo de repúblicas estudantis, popularizadas por Mark Zuckerberg nos primeiros anos do Facebook, onde engenheiros desleixados programavam durante o dia e se amontoavam em quartos compartilhados à noite.

Hoje, essas chamadas hacker houses são movidas por missões como o avanço da humanidade e se tornaram pontos importantes de conexão para a indústria de IA. Seus moradores costumam ser fundadores de startups ou engenheiros que trabalham na OpenAI ou na Anthropic. O aluguel de um quarto pode chegar a US$ 10 mil (R$ 51 mil) por mês.

Mas o que acontece nesses locais às vezes vai muito além da socialização e do networking. Algumas casas se tornaram palco de casos de assédio sexual e acusações de estupro, além de conflitos entre moradores, segundo registros policiais até então não divulgados, obtidos pelo The New York Times, documentos judiciais e relatos de mais de 20 pessoas do setor de IA.

Festas com drogas psicodélicas e compartilhamento de parceiros sexuais são comuns, segundo essas pessoas. Uma das casas promovia eventos luxuosos para a comunidade de IA com tanta frequência que seu proprietário alegou mais de US$ 200 mil (R$ 1,02 milhão) em danos.

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Na mansão de Hillsborough conhecida como Casa AGI —nome derivado de “inteligência artificial geral”, tecnologia capaz de igualar as capacidades da mente humana—, a polícia local registrou 37 ocorrências desde 2022. Pelo menos 17 estavam relacionadas a reclamações sobre grandes festas e eventos, segundo os registros.

As demais incluíram um episódio em dezembro, quando uma mulher chamou a polícia e disse que um morador da AGI House a pressionou a fazer sexo com ele. Ela pulou uma cerca para escapar. No ano passado, a polícia também foi chamada pelo menos quatro vezes para realizar verificações de bem-estar, geralmente feitas quando alguém enfrenta problemas de saúde mental ou é considerado um risco para si mesmo ou para outras pessoas.

Muitas casas coletivas —o Times identificou pelo menos dez, além de várias outras que funcionam discretamente— são administradas por executivos de tecnologia que veem uma oportunidade de lucrar ao criar espaços de convivência. Em algumas casas, há listas de espera com mais de 40 pessoas para cada quarto.

Alguns dos maiores nomes do setor estão envolvidos. Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, é consultor da Residency, que pretende ser uma rede global de hacker houses para “construtores ambiciosos” viverem e trabalharem.

“Acreditamos no potencial dos jovens para construir um futuro mais abundante, inovador e pacífico”, afirma o site da organização.

Sofie Bukovska, 26, que trabalha na empresa de produção cinematográfica com IA Trippy Pictures, mudou-se para a AGI House no ano passado por alguns meses e disse ter percebido rapidamente o quanto a experiência poderia ajudar sua carreira. Ela conheceu executivos e personalidades da área de IA, incluindo Grimes, que provavelmente não teria conhecido de outra forma, afirmou.

A atmosfera “era algo muito diferente da vida normal”, disse Bukovska.

A mansão, ligada a um fundo de capital de risco, tem o apoio de Eric Schmidt, ex-presidente-executivo do Google, e de Marc Andreessen, investidor de capital de risco, segundo o site da casa. Um representante de Andreessen disse que ele não estava envolvido.

O imóvel de 1.670 m² se tornou um centro tão importante para a indústria de IA que Yu e um ex-administrador estão envolvidos em uma disputa judicial sobre quem detém os direitos da marca AGI House. A residência se tornou um exemplo dos problemas de bastidores enfrentados por esses locais.

Pessoa com blazer xadrez e calça branca sentada em banco ao lado de piano preto vertical em sala com piso de madeira. Ao fundo, letras decorativas douradas sobre o piano e janelas estreitas verticais na parede branca.

Jeremy Nixon, ex-pesquisador do Google e fundador de casas coletivas de tecnologia na região de San Francisco (EUA)


Kelsey McCellan/New York Times

“UM EXPERIMENTO ÉPICO”

As origens da AGI House remontam a Jeremy Nixon, 33, ex-pesquisador do Google que criou outras casas coletivas de tecnologia antes do boom da IA. Uma delas, que ele cofundou por volta de 2019 em uma casa de cinco quartos em San Francisco, chamava-se Genesis.

A Genesis era “um oásis para fundadores e sonhadores”, segundo seu site, que a descrevia como “um ambiente dinâmico e inclusivo que promove o crescimento pessoal e profissional”.

A casa rapidamente se tornou um centro de eventos. Eric Zhu, 19, empreendedor de tecnologia, disse que ninguém verificava a idade dos participantes e que “era tudo muito louco”.

Yehong Zhu, 30, que não tem parentesco com Eric Zhu, registrou uma ocorrência policial acusando um ex-morador da Genesis de estupro e agressão sexual em dezembro de 2021, segundo uma cópia do documento. Ela morou em quatro casas de tecnologia e, inicialmente, via esses espaços quase como utopias onde poderia conhecer rapidamente outros empreendedores, disse. Mais tarde, porém, viu um lado mais sombrio.

O caso de Yehong Zhu continua sob investigação. O morador da Genesis que ela acusou deixou a casa e não pode ser localizado, afirmou.

“Estou longe de ser a única pessoa com quem isso aconteceu”, disse Zhu, fundadora da startup de IA Zette.

Nixon desrespeitou as condições do contrato de aluguel da casa ao permitir que uma sequência de pessoas entrasse e saísse do imóvel, segundo sua antiga proprietária, Mei Chiao. A Genesis terminou por volta de 2021, com Nixon e seus colegas de casa deixando mais de US$ 60 mil (R$ 307,8 mil) em danos, afirmou Chiao.

Em 2023, ela processou Nixon e outro administrador da Genesis no Tribunal Superior de San Francisco por mais de US$ 9.000 (R$ 46 mil) em aluguéis não pagos e recuperou cerca de US$ 5 mil (R$ 25,5 mil), segundo documentos judiciais e Chiao.

“Foi um pesadelo para mim”, disse Chiao. Nixon se recusou a comentar.

Em 2022, Nixon alugou uma mansão em Hillsborough para criar uma nova comunidade de tecnologia, a NeoGenesis, com Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI, mostram documentos judiciais. Karpathy disse, por email, que pagou “uma parte do aluguel” durante o primeiro ano da casa e participou de alguns eventos, mas não voltou ao local havia anos.

Nixon queria que a NeoGenesis fosse “uma casa comunitária e um espaço para alguns dos fundadores, pesquisadores, cientistas e tecnólogos mais excepcionais”, segundo documentos judiciais. Seria “um experimento épico”, escreveu.

Mulher de cabelos pretos com pontas loiras está em pé diante de um lago, vestindo blusa branca sem mangas e saia floral. Galhos verdes pendem acima dela, e a água do lago aparece ao fundo.

Yehong Zhu, que já morou em quatro casas coletivas de tecnologia


David Walter Banks/New York Times

Ao contrário de outras casas coletivas, onde o aluguel era baixo, os moradores da NeoGenesis pagavam até US$ 10 mil (R$ 51 mil) por mês por um quarto, segundo pessoas que viveram no local.

Depois que a OpenAI lançou o ChatGPT em 2022, Nixon disse ter tido a ideia de rebatizar a NeoGenesis como AGI House, segundo uma ação judicial movida por ele no ano passado no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia contra Yu, o atual administrador.

Nixon disse que planejava tornar a AGI House ainda maior. Seu conceito envolvia “20 hackers de IA, vivendo na mesma casa épica por três meses, 20 hackathons —maratona de desenvolvimento de programadores— de fim de semana, jantares diários com a realeza da IA, lançando código repetidamente”, segundo anotações de Nixon divulgadas no processo.

Yu, 43, investidor de capital de risco, afirmou em seu próprio processo no ano passado que havia criado o conceito da AGI House. Segundo ele, Nixon não conseguia manter os pagamentos da casa NeoGenesis nem lidar com as reclamações da cidade, e Yu assumiu o imóvel.

SEREIAS NA PISCINA

A NeoGenesis foi rebatizada como AGI House em 2023, com Yu como administrador, segundo documentos judiciais.

Nixon voltou para San Francisco e abriu outra casa coletiva em 2024, chamada AGI House SF, segundo os documentos. O imóvel de sete quartos chama seus moradores de “Máfia do PayPal da IA”, em referência ao grupo de fundadores influentes, incluindo Peter Thiel e Musk, que ajudaram a fundar a empresa de pagamentos. Os moradores da AGI House SF fundaram 13 empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões), segundo o site da casa.

À medida que a visibilidade da casa aumentou, a polícia registrou pelo menos oito ocorrências no local em 2023 e 2024 relacionadas a barulho e congestionamento das ruas residenciais.

A menos de três quilômetros dali, autoridades de Hillsborough lidavam com outra casa de festas ligada à indústria de IA: um imóvel de 557 metros quadrados, administrado por Jimmy Chen, conhecido nas redes sociais pelo nome “Spice King of Zanzibar” (“O Rei das Especiarias de Zanzibar” em tradução livre).

Chen promovia eventos elaborados, incluindo uma festa em que mulheres entraram na piscina vestidas de sereias.

Mais de 20 reclamações sobre a casa foram registradas pela polícia entre o fim de 2021 e 2024, principalmente relacionadas a barulho e estacionamento. Um dos registros também mencionava um “possível sequestro”; outro dizia que Chen havia sido agredido em um evento.

No ano passado, Chen havia deixado o imóvel, que foi destruído, segundo afirmou a proprietária, Lena Chedid, em um registro policial.

“Uma empresa especializada precisou dedetizar toda a casa, pois ela foi encontrada infestada de roedores”, escreveu Chedid no registro. Ela se recusou a comentar.



Casa de 557 m² em Hillsborough, na Califórnia, que se tornou palco de festas da indústria de inteligência artificial


Minh Cornors/New York Times

Chen afirmou que sua proprietária sabia que a casa era usada para eventos e que ele havia pago um depósito de garantia. Disse também que havia contratado seguranças e feito uma triagem dos participantes das festas.

Segundo ele, eventuais problemas eram resultado do desgaste normal do imóvel, acrescentando que os ratos já estavam lá quando se mudou.

PULANDO A CERCA

Em dezembro, uma ligação chegou à delegacia de Hillsborough às 2h22. Uma mulher, que estava em um carro da Lyft naquele momento, estava na linha. Ela disse que havia ficado presa na AGI House depois que um morador tentou pressioná-la a fazer sexo com ele.

O homem disse a ela que era velha e que “ficaria sozinha para sempre”, segundo um registro policial. Ele era “persistente ao tentar convencê-la” a fazer sexo com ele, e ela “recusou repetidamente”, segundo o documento, que teve os dois nomes ocultados.

A mulher pulou uma cerca e conseguiu escapar sem ferimentos, segundo o registro.

O episódio se somou a uma série de outras ocorrências. Em junho de 2025, a polícia foi chamada à AGI House depois que alguém telefonou preocupado com um morador, mostram os registros. Cerca de três semanas depois, os policiais foram chamados novamente para outra verificação de bem-estar. Em novembro, a polícia também enviou uma ambulância à casa.

Em seu processo contra Nixon, Yu disse ter “feito grandes esforços” para afastar a si próprio e a AGI House da “imagem de casa de festas”. Em um e-mail posterior, afirmou que a AGI House não era uma hacker house, pois não oferecia um programa oficial de “residência”.

Neste ano, a polícia de Hillsborough disse ter registrado três ocorrências na casa.





Fonte ==> Folha SP – TEC

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