Com alta demanda por terapias contínuas para TEA e TDAH, setor de saúde vê crescer oportunidades de negócios; especialista em gestão à frente do método Minha Clínica Milionária aponta como aliar excelência terapêutica a margens de lucro de até 35%.
O avanço na identificação precoce de condições neuroatípicas, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), vem provocando uma transformação significativa no setor de saúde brasileiro. O que antes se concentrava em atendimentos isolados passou a exigir acompanhamento contínuo e integrado, reunindo profissionais de diferentes especialidades, como fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e medicina.
O crescimento dessa demanda estimulou a abertura de clínicas especializadas em diferentes regiões do país. A expansão, entretanto, também evidenciou um dos principais desafios desse mercado: a falta de profissionalização da gestão. Embora muitas unidades sejam criadas por profissionais altamente qualificados e comprometidos com o acolhimento dos pacientes, parte delas enfrenta dificuldades operacionais, financeiras e administrativas capazes de comprometer a continuidade dos serviços.
Na avaliação da gestora e mentora Rebeca Noag, uma agenda cheia não significa, necessariamente, que a clínica seja lucrativa.

Rebeca Noag
“Existe um abismo entre ter a agenda lotada e ter dinheiro no bolso. A maioria dos profissionais de saúde é treinada para cuidar de pessoas, mas não para gerir empresas. No segmento de neuroatípicos, a demanda é gigantesca, mas, sem processos claros de precificação e controle de custos, a clínica apenas movimenta um grande volume de atendimentos sem gerar riqueza para o proprietário”, explica.
A análise é sustentada por sua própria experiência no setor. Em processo de expansão para a terceira unidade, Rebeca comanda uma operação responsável por mais de 18 mil atendimentos mensais, com faturamento anual superior a R$ 9 milhões e margens líquidas que podem chegar a 35%.
Segundo a especialista, um dos erros mais recorrentes entre os gestores de clínicas é concentrar a atenção exclusivamente no faturamento bruto, sem acompanhar indicadores como custos por especialidade, ocupação das salas, inadimplência, glosas, produtividade das equipes e margem líquida.
No modelo multidisciplinar, a continuidade dos tratamentos proporciona maior previsibilidade de receita e amplia o tempo de permanência do paciente, indicador conhecido no ambiente empresarial como LTV. Essa característica, porém, não garante rentabilidade quando a operação não possui processos estruturados.
Entre os principais problemas identificados por Rebeca está a chamada “precificação cega”, situação na qual a clínica estabelece os valores dos atendimentos sem conhecer com precisão o custo da hora clínica, a carga tributária, as comissões, os repasses aos profissionais e as demais despesas envolvidas na prestação do serviço.
Outro desafio está relacionado às agendas e ao elevado número de ausências. Sem políticas claras para faltas e cancelamentos, consultórios e salas permanecem ociosos, enquanto custos como aluguel, equipe administrativa, energia, sistemas e estrutura continuam sendo pagos normalmente.
As clínicas também enfrentam dificuldades provocadas pela dependência excessiva de contratos, atrasos nos repasses e glosas aplicadas por operadoras de saúde. Quando não existe uma estratégia complementar para atrair pacientes particulares e diversificar as fontes de receita, essas retenções podem comprometer seriamente o fluxo de caixa.
A retenção dos profissionais é mais um ponto sensível. Em um mercado marcado pela alta demanda por terapeutas qualificados, clínicas sem planos de carreira, liderança estruturada e modelos adequados de remuneração convivem com elevada rotatividade. Além de aumentar os custos de contratação e treinamento, a troca frequente de especialistas pode prejudicar o vínculo terapêutico e a continuidade do acompanhamento.
A partir da experiência acumulada na administração e expansão de suas unidades, Rebeca desenvolveu a mentoria MCM – Minha Clínica Milionária, voltada à profissionalização de gestores de clínicas e negócios de saúde. O método já reúne participantes nas cinco regiões do Brasil e busca mostrar como a qualidade técnica pode ser acompanhada por eficiência operacional e sustentabilidade financeira.
A metodologia está organizada em quatro pilares. O primeiro é a engenharia financeira, baseada no mapeamento detalhado dos custos por hora, sala e especialidade, além da análise de tributos e despesas operacionais. O objetivo é permitir que o gestor conheça a margem real de cada serviço e tome decisões com base em dados.
O segundo pilar envolve operação e retenção. A proposta é estabelecer protocolos de liderança, padronizar processos e desenvolver programas de incentivo capazes de reduzir a rotatividade dos terapeutas e proporcionar maior estabilidade às equipes.
A estruturação comercial aparece como o terceiro eixo. Nesse campo, o trabalho envolve estratégias para captação de pacientes particulares, negociação de contratos e diversificação das receitas, reduzindo a dependência de uma única fonte pagadora.
O quarto pilar concentra-se na experiência e na continuidade do paciente. O acompanhamento sistemático da evolução clínica e da adesão ao tratamento contribui para a permanência das famílias, para a construção de vínculos duradouros e para a qualidade do atendimento prestado.
“Lucro não é sorte, é processo. Uma clínica só consegue investir em inovação, manter os melhores profissionais e oferecer o melhor tratamento possível para uma criança neurodivergente quando é um negócio financeiramente saudável e lucrativo”, afirma Rebeca.
A proposta defendida pela gestora rompe com a ideia de que resultados financeiros e cuidado humanizado ocupam lados opostos. Em sua avaliação, uma operação sustentável oferece melhores condições para investir em infraestrutura, tecnologia, capacitação e retenção de profissionais, fatores que interferem diretamente na qualidade da assistência.
Em um mercado que continua em expansão, clínicas especializadas no atendimento a pessoas neuroatípicas enfrentam o desafio de conciliar propósito, excelência técnica e visão empresarial. Nesse contexto, a trajetória de Rebeca Noag evidencia que profissionalizar a gestão não significa transformar o cuidado em uma atividade puramente comercial, mas criar as condições necessárias para que o atendimento de qualidade possa crescer, permanecer acessível e produzir resultados consistentes para pacientes, equipes e organizações.