Financial Times
Se há algo em abundância hoje em dia, são bilionários nos dizendo que a era da abundância está próxima. Suponho que eles seriam os primeiros a saber. Elon Musk se reproduz como um hamster-dourado. E você viu o tamanho da cerca-viva em torno da casa de Jeff Bezos em Los Angeles?
Como sempre ocorre com os otimistas da tecnologia, a promessa é trabalhar menos. Desta vez, graças à IA (inteligência artificial). Quatro dias por semana (segundo Jensen Huang, CEO da Nvidia). Três dias e meio (segundo Jamie Dimon, presidente do JPMorgan). Nesse ritmo, depois do Natal nenhum de nós precisará voltar ao trabalho.
Bill Gates fica com dois dias. Por outro lado, ele costumava trabalhar 80 horas por semana e se gabava de nunca ter tirado férias nos primeiros anos da Microsoft. Na minha opinião, isso tudo é bobagem. A semana de segunda a sexta veio para ficar. Eu também não apostaria contra o sábado e o domingo.
Ilustração com as palavras “IA” e “inteligência artificial”, um teclado e uma mão robótica
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Dado Ruvic – 19.out.2026/Reuters
Por quê? Porque as pessoas vão querer trabalhar. Em seu livro de 1983, More Work for Mother, Ruth Schwartz Cowan descreveu o paradoxo de as mulheres continuarem fazendo a mesma quantidade de tarefas domésticas no século posterior a 1870, apesar de todos os novos eletrodomésticos. Segundo ela, as obrigações simplesmente se ampliaram.
Mais tarde, seus números foram questionados por acadêmicos. O tempo dedicado aos afazeres domésticos de fato diminuiu. Mas, fundamentalmente, esfregar menos não significou pôr os pés para cima. Em vez disso, as mulheres buscaram emprego.
Não há dúvida de que o aumento da produtividade reduziu as horas de labuta —que, por trabalhador, caíram aproximadamente pela metade nos países ricos desde o fim do século 19. Mas isso não significa —como sugere Bezos— que a IA nos levará de volta às famílias sustentadas por uma única pessoa.
As novas tecnologias liberam tempo. Mas logo queremos gastá-lo em algo a que damos mais valor. Em geral, uma vida melhor.
O que me entusiasma como investidor é o que isso representa para quem gasta dinheiro hoje. Tudo começou com a troca de uma caverna por uma cabana. Agora, nos países ricos, estamos nos aproximando do topo da hierarquia de necessidades de Abraham Maslow. Na Grã-Bretanha, por exemplo, a parcela dos gastos destinada a alimentos e roupas caiu pela metade desde a primeira pesquisa sobre despesas das famílias, em 1957.
É verdade que as últimas décadas produziram coisas úteis. Os carros são confiáveis. O e-mail e os serviços bancários pelo celular poupam tempo. Mas isso não é nada em comparação com os produtos e serviços que ainda estão por vir. As empresas de amanhã se concentrarão naquilo que nos proporciona mais alegria.
Para Maslow, eram coisas como amor e pertencimento, autoestima, reconhecimento, status e crescimento pessoal. A Pesquisa Mundial Gallup, que entrevistou quase 61.000 pessoas em 123 países entre 2005 e 2010, confirmou que os sentimentos positivos estavam mais associados ao convívio social e à sensação de ser respeitado.
Os psicólogos evolucionistas também entraram no debate. Douglas Kenrick acredita que a conquista e a manutenção de parceiros, além da criação dos filhos, estão no topo da nossa hierarquia de necessidades. Até John Maynard Keynes, em seu ensaio de 1930, “Possibilidades econômicas para nossos netos”, previu que, uma vez resolvido o “problema econômico”, o desafio da humanidade seria descobrir como viver “de maneira sábia, agradável e boa”.
Prevejo que todos esses fatores serão os principais motores da demanda dos consumidores nos países ricos —e, portanto, do crescimento e dos preços das ações— nas próximas décadas. Parece improvável? A indústria do bem-estar, que inclui de tudo, da nutrição aos spas, já havia atingido o valor de US$ 7 trilhões em 2024, o dobro de 2013. É maior do que a economia verde, a tecnologia da informação, o turismo e o esporte.
Enquanto isso, uma pesquisa da McKinsey estima que 85% dos consumidores consideram a saúde e o bem-estar uma prioridade. Dormir melhor está no topo da lista de todos. E, remetendo a Kenrick, citado acima, mais de um quarto dos casais que se casaram no ano passado se conheceu pela internet.
Pessoalmente, eu compraria qualquer coisa que garantisse que eu pararia de procrastinar, me comunicaria melhor com minha mulher, faria meus filhos pequenos comerem verduras e impediria meus filhos adolescentes de gritarem uns com os outros.
É isso que tira meu sono. E daí se a IA consegue organizar minha caixa de entrada ou reservar uma viagem? Posso ser mais lento, mas, no passado, fazia essas coisas perfeitamente bem. E, francamente, não me importo se deixar passar alguns e-mails da escola ou voos promocionais para Málaga.
Eu preferiria fazer mais exercícios, talvez entrando na plataforma de esportes sociais Strava. O número de clubes que aderiram a ela quase quadruplicou no ano passado. Fazer alguns amigos novos também seria bom. Empresas que poderiam me ajudar a conhecê-los, como os aplicativos sociais Timeleft ou Meet5, estão em plena expansão.
Metade das dez maiores empresas do S&P 500 não existia quando comecei a investir. Quanto poderia valer uma nova empresa capaz de transformar cada um de nós na pessoa que queremos ser? A IA pareceria pequena em comparação.
Sim, isso parece papo esotérico da Nova Era. Mas eu também achava que as academias seriam apenas uma moda passageira.
Fonte ==> Folha SP – TEC