Financial Times
Quem estiver preocupado com o imediatismo do setor de tecnologia, a arrogância de tantos tech bros e a facilidade com que a bolha da inteligência artificial pode estourar deveria fazer uma viagem para Veldhoven, município holandês sem nada de extraordinário que abriga a maior empresa da Europa.
A ASML, provavelmente a empresa mais importante, embora discreta, do ecossistema de IA, emprega quase metade da população da cidade (47.902 habitantes) e outras 25 mil pessoas, realizando o trabalho pouco glamoroso de fabricar e comercializar máquinas cada vez maiores que produzem chips de computador cada vez menores.
Empresa holandesa concentra a produção de máquinas EUV usadas para fabricar chips avançados
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Maxim Shemetov – 28.jul.26/Reuters
Quanto ao presidente-executivo da empresa, Christophe Fouquet, ele certamente não é um tech bro —expressão que representa estereotipicamente indivíduos masculinos que trabalham na indústria de tecnologia—, o físico francês, de perfil pé no chão, é tanto um contraponto aos vendedores do Vale do Silício quanto um defensor mais convincente da continuidade do avanço tecnológico.
O segredo do sucesso dessa empresa de 42 anos, diz Fouquet em uma sala de reuniões sem nada de especial na sede da ASML, tem sido o trabalho em equipe. “Se eu tivesse de resumir, diria que isso tem sido muito sobre uma cooperação extrema com o ecossistema, que envolve, primeiro, nossos clientes, mas também nossa cadeia de fornecedores”, explica. Ele apresenta a ASML como o exemplo máximo de uma empresa europeia colaborativa, em forte contraste com uma empresa americana agressiva.
A ASML, embora ainda desconhecida por muitas pessoas fora do setor de tecnologia, é um elo cada vez mais importante na fabricação global de chips. A empresa tem uma participação extraordinária no mercado de máquinas de litografia para fabricação de chips, incluindo um monopólio total sobre as EUVs (máquinas de ultravioleta extremo), essenciais para produzir chips destinados a aplicações complexas de IA.
“Acho que houve um momento de descoberta para grande parte do mundo, de como algumas empresas se tornaram críticas para o futuro de toda a economia”, diz Fouquet, referindo-se à alta de 88% nas ações da empresa no último ano e ao valor de mercado de 591 bilhões de euros (R$ 3,5 trilhões).
Ele explica como investidores entusiasmados com a visão da Nvidia para o desenvolvimento de chips de IA primeiro perceberam a importância da taiwanesa TSMC para fabricar esses chips. “E então começaram a se perguntar: ‘Aliás, como a TSMC fabrica esses chips?’. E perceberam que ela usava essa máquina de EUV [e] de repente todo mundo percebeu que havia apenas uma empresa, a ASML, fabricando essas máquinas.”
Em uma economia global competitiva, como o mundo permitiu que apenas uma empresa, em uma pequena cidade holandesa, se tornasse outro gargalo da IA, somando-se às restrições na construção de data centers e ao fornecimento de energia?
“É a complexidade”, diz Fouquet, e me lembro da física impressionante por trás da máquina de EUV de US$ 400 milhões (R$ 2,08 bilhões) que havia visto mais cedo naquele dia. Do tamanho de um ônibus de dois andares, a máquina imprime circuitos em pastilhas de silício disparando 60 mil gotas de estanho derretido por segundo contra elas, usando espelhos, lasers e luz de ondas curtas em uma espécie de nanofotocopiadora selada a vácuo.
“Nossos clientes se perguntavam… ‘Se eu só tenho um fornecedor, estou bem?’… Você sempre poderia dizer: ‘Vou conseguir um segundo’, mas a quantidade de aprendizado, inves timento e tempo necessários para criar isso é enorme.”
Por isso, confiança é essencial. “Nosso lucro vai crescer junto com os [lucros] do setor, mas não vamos abusar da situação.” Ele admite que essa “é às vezes uma discussão difícil” com os acionistas: eles podem preferir que a empresa aumente as margens de lucro e coloque mais dívida no balanço para acelerar os investimentos e elevar os retornos.
“Temos essa questão todos os dias… Mas não se trata de dinheiro, essa é a beleza disso. Se eu pudesse colocar alguns bilhões e obter outros 20% de capacidade, faria isso. Mas, por causa da cadeia de fornecedores, é muito mais complexo do que isso.”
A cadeia de fornecedores da ASML é algo à parte. Enquanto um produto industrial típico pode ter algumas dezenas de fornecedores, uma máquina de EUV da ASML tem mais de 100 mil peças fornecidas por 200 principais fornecedores e 2.000 empresas no total. Isso, diz Fouquet, pode limitar a capacidade de aumentar rapidamente a produção, mas foi fundamental para o desempenho da empresa à medida que a ciência se tornou cada vez mais complexa.
“Quanto mais complexos nossos produtos se tornaram… maior foi nossa vantagem em termos de competitividade. Conseguíamos [desenvolver] muito mais rápido que qualquer outra pessoa.”
Em vez de tentar fabricar tudo internamente, a ASML terceiriza cada componente para o melhor fabricante — Zeiss para a óptica, Trumpf para os lasers, VDL para a mecatrônica. Isso ajudou a empresa a solucionar problemas que suas concorrentes, principalmente os grupos japoneses Nikon e Canon, não conseguiram resolver, deixando-as concentradas apenas na DUV (tecnologia de ultravioleta profundo) de geração anterior.
“Realmente precisávamos das melhores marcas do mundo para fazer isso. Posso dizer que, se tivéssemos decidido… fazer tudo em EUV, não haveria como ter conseguido.”
Em algumas ocasiões, quando fornecedores pareceram vulneráveis, a ASML os comprou para proteger a produção. A fabricante de lasers Cymer, adquirida em 2013, foi um exemplo. Mais recentemente, a ASML adquiriu uma participação de 11% na francesa Mistral, desafiante no setor de IA. Mas, normalmente, a colaboração prevalece sobre as aquisições.
Há um grande problema: o governo dos EUA. A proibição americana de exportar tecnologia EUV para a China impede a ASML de vender seus produtos mais avançados e lucrativos para um mercado de IA que só fica atrás do americano.
Embora o presidente Donald Trump não tenha jurisdição direta sobre a ASML (e seja muito menos rigoroso com a Nvidia, que pode vender à China seus próprios chips produzidos com EUV), os EUA pressionaram a União Europeia e o governo holandês a impor um embargo à ASML —uma fonte clara de frustração para a empresa.
“Entendemos que algumas tecnologias podem ser restringidas por preocupações óbvias e legítimas, mas, se formos longe demais, vamos produzir o resultado oposto ao que estamos tentando alcançar”, diz Fouquet.
Ou seja, segundo ele, a China será estimulada a desenvolver sua própria tecnologia —a Huawei surgiu recentemente como uma força importante no desenvolvimento chinês de máquinas DUV.
“Se você restringe demais, provoca desespero”, prossegue, deixando de lado o tom moderado e demonstrando irritação. “E o desespero cria um enorme apetite para que as pessoas acelerem sua própria tecnologia e, potencialmente, em algum momento, se tornem fortes concorrentes.”
Então essa é sua mensagem para Trump?
“Não é uma mensagem para Trump. É uma mensagem para todas as pessoas que tomam essas decisões”, diz, de forma direta. “Acho que o governo holandês decide por si próprio o que quer exportar, ou não, para a China. Portanto, essa é, primeiro, uma mensagem ao governo holandês [e] uma mensagem à UE.”
Ainda faltava abordar a pergunta mais clichê de todas: se a IA —e, portanto, a demanda pelas máquinas EUV e pelas outras tecnologias que a sustentam— é uma bolha prestes a estourar.
Fouquet admite que os mercados estão inquietos. Mas insiste que isso não é uma alta passageira de curto prazo: a “revolução” da IA vai durar.
“Acho que o efeito da IA sobre a sociedade e a indústria vai levar de dez a 15 anos. Estamos vendo apenas a ponta do iceberg.”
A ASML está confiante de que sua tecnologia EUV também evoluirá durante um período semelhante. Os circuitos dos transistores serão empilhados uns sobre os outros. As aberturas dos espelhos serão ampliadas para concentrar a luz com maior precisão.
Fouquet se apresenta como um CEO acidental, um engenheiro de semicondutores de carreira que simplesmente cresceu junto com o setor. Depois de estudar em Grenoble e Londres, trabalhou em Israel e nos EUA antes de chegar à ASML, há 18 anos, e se tornar presidente-executivo dois anos atrás. (Ter novamente um físico no comando, depois de um gestor financeiro, foi um alívio, confidencia um colega.)
De qual tecnologia ele está mais entusiasmado agora?
“Os humanoides estarão entre nós… daqui a alguns anos”, diz. “Estamos apenas no início desse ciclo. [Eles] farão algumas das tarefas que todos nós odiamos fazer —cuidar do jardim ou esvaziar a máquina de lavar louça.” (Ele passa rapidamente pela minha objeção de que muitas pessoas adoram cuidar do jardim.)
Mas e as invenções realmente transformadoras? Ele se entusiasma com o potencial da “tecnologia espacial” para revolucionar as telecomunicações e a produção de energia.
Mas ele acredita, por exemplo, que a fusão nuclear finalmente está ao alcance comercial? Há lições a aprender com o sucesso da ASML no desenvolvimento de uma tecnologia pioneira como a EUV depois de 20 anos de tentativas?
“Para a EUV”, explica Fouquet, “a ASML acreditava que a necessidade estaria absolutamente presente; portanto, colocamos toda a nossa energia nisso, em determinado momento quase colocando a empresa em risco para conseguir. Não acho que você tenha isso em algumas dessas tecnologias [como a fusão]. Em algum momento, é preciso que as pessoas acreditem que isso é absolutamente crítico para fazer acontecer.”
E, em vez de “200 pessoas ou 200 empresas” perseguindo a ideia de forma fragmentada e ineficiente, é preciso uma obsessão: “[É preciso] concentração quando se trata de tecnologia.”
Depois de toda essa conversa sofisticada, fico curioso…
Fonte ==> Folha SP – TEC