Por Bayard Do Coutto Boiteux
A Argélia entrou em minha vida pelas portas dolorosas do exílio e acabou ocupando um dos espaços mais luminosos de minha memória. Foi ali, entre as ruas de Argel, os contrastes de uma cultura fascinante e a generosidade de um povo que acolheu minha família, que descobri uma nova maneira de compreender a liberdade, a solidariedade e o próprio sentido de pertencer ao mundo. O que começou como consequência de uma injustiça política transformou-se em uma extraordinária história de afeto, aprendizado e gratidão. A Argélia não representa apenas um capítulo de minha juventude. É parte de minha formação humana, intelectual e afetiva, uma presença que o tempo não conseguiu apagar e uma saudade que atravessa oceanos sem jamais perder sua intensidade.
Meus pais, perseguidos políticos, encontraram na Argélia uma terra de acolhimento durante o exílio. Em uma época marcada pela intolerância, pela repressão e pelo silêncio imposto a tantas famílias, aquele país africano, que havia conquistado sua independência depois de uma longa e sofrida luta, abriu suas portas para brasileiros que defendiam a liberdade. Jamais esquecerei esse gesto. A hospitalidade argelina não foi apenas uma demonstração de generosidade. Representou uma lição de humanidade que me acompanha até hoje. Quando uma nação acolhe aqueles que perderam o direito de viver livremente em sua própria terra, demonstra que a solidariedade não conhece fronteiras.
Morávamos em Ben Aknoun, nos arredores de Argel, e ali comecei a descobrir um universo que ampliaria definitivamente minha maneira de compreender o mundo. A cidade tinha uma personalidade fascinante, feita de contrastes, histórias, idiomas, aromas e paisagens. Guardo a Casbah, com suas vielas que pareciam esconder séculos de resistência e de encontros culturais; a rua Didouche Mourad, sempre movimentada; El Biar, com sua atmosfera particular; e a Grande Poste, imponente e inesquecível. Lembro das caminhadas pelas ruas da capital e daquela sensação extraordinária de estar vivendo em um lugar onde a África, o Mediterrâneo, o mundo árabe e a cultura francesa se encontravam permanentemente.
Argel também foi responsável por despertar em mim uma paixão pelo cinema que jamais desapareceu. Guardo com especial carinho a Cinémathèque d’Alger, um verdadeiro templo da sétima arte, onde descobri que o cinema podia ultrapassar o entretenimento e se transformar em reflexão, questionamento e poesia. Foi ali que aprendi a admirar as obras de Ingmar Bergman, Pier Paolo Pasolini e Jean-Luc Godard, para citar apenas alguns dos cineastas que revolucionaram minha maneira de compreender a linguagem cinematográfica. Entre tantas lembranças, uma ainda me provoca um sorriso. Meu amigo de infância Lula e eu resolvemos ir escondidos assistir ao filme Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais. Imaginávamos estar realizando uma pequena aventura clandestina, longe dos olhares familiares. Para nossa surpresa, ao chegarmos ao cinema, encontramos justamente minha mãe e dona Madalena Arraes, que também haviam escolhido aquela sessão. A coincidência desfez imediatamente nosso segredo e transformou aquela escapada em uma história que o tempo não conseguiu apagar. Recordo igualmente o cinema Algeria e tantas sessões que alimentaram minha curiosidade intelectual. Naquelas salas escuras, diante de imagens que desafiavam convenções e despertavam perguntas, descobri que a arte também era uma forma de liberdade. Talvez por isso o cinema tenha permanecido tão presente em minha vida: ele me ensinou a olhar além das aparências, a compreender os conflitos humanos e a perceber que uma boa obra não termina quando as luzes se acendem. Continua vivendo dentro de nós.

Bou Saada
Outra lembrança curiosa daquela época são as recepções na Embaixada da República Popular Democrática da Coreia, a Coreia do Norte, em Argel. Participávamos de encontros nos quais eram exibidos filmes sobre o país, sua sociedade e seu líder, Kim Il-sung. Eram produções que apresentavam a visão oficial do regime norte-coreano, uma realidade política e cultural muito distante daquela que conhecíamos no Brasil. Para um jovem interessado em compreender o mundo, aquelas sessões representavam uma experiência singular. Recordo a atmosfera das recepções, o ambiente diplomático e a curiosidade que despertavam em mim as imagens de uma nação tão distante e fechada ao olhar estrangeiro. A convivência com diferentes representações políticas, culturais e ideológicas contribuiu para despertar meu espírito crítico e reforçar uma convicção que me acompanha até hoje: conhecer não significa necessariamente concordar, e compreender o mundo exige disposição para observar suas diferenças sem renunciar à liberdade de pensamento.
Estudei no Lycée Descartes, uma instituição que considero fundamental para minha formação. Suas salas de aula reuniam estudantes de diferentes nacionalidades, religiões, culturas e histórias familiares. Era uma verdadeira Organização das Nações Unidas em miniatura. Ali aprendi que a diversidade não deve ser apenas tolerada, mas celebrada. As discussões intelectuais, o incentivo à leitura, as atividades culturais e as peças teatrais das quais participei, inclusive relacionadas a autores como Bertolt Brecht e Pablo Neruda, ajudaram a construir minha visão democrática da sociedade. Aprendi a questionar, a ouvir, a discordar sem odiar e a reconhecer que ninguém possui o monopólio da verdade.

Lycee descartes
Nem todas as lembranças, entretanto, são feitas de alegria. Recordo um jovem brasileiro, filho de um diplomata, que havia sido proibido de conversar conosco. É difícil imaginar o que representa, para um adolescente, descobrir que as divergências políticas dos adultos podem transformar colegas em pessoas das quais se deve manter distância. Aquela situação me marcou profundamente. Não guardo ressentimento daquele rapaz, que também estava submetido a decisões que não lhe pertenciam. Guardo, sim, a convicção de que nenhum regime político deveria permitir que o medo contaminasse as relações humanas. A liberdade começa justamente no direito de conversar, conviver e respeitar quem pensa de maneira diferente.
A Argélia também me ofereceu a oportunidade de conhecer um país de extraordinária diversidade geográfica e cultural. Guardo lembranças de Oran, de Constantine e de suas paisagens impressionantes, da Kabylie, com sua identidade cultural tão forte, e de Bou Saâda, às portas do deserto, onde descobri outra dimensão da beleza africana. Cada viagem representava uma nova descoberta. O deserto, com seu silêncio quase filosófico, ensinava que a grandiosidade não precisa de ruídos. As montanhas, os mercados, as cidades e os pequenos povoados revelavam um povo orgulhoso de suas raízes e de sua independência.
Entre tantas lembranças que permanecem vivas, guardo também Tipaza, com suas extraordinárias ruínas romanas diante do Mediterrâneo, onde a história parecia conversar silenciosamente com a paisagem. Recordo o Ramadã, seus rituais, a espiritualidade que envolvia as famílias e a atmosfera particular das noites em que a vida parecia ganhar um novo ritmo. Fascinavam-me igualmente os belíssimos casamentos argelinos, verdadeiras celebrações coletivas, repletas de música, cores, tradições e alegria. Homens e mulheres permaneciam em ambientes separados, segundo os costumes da época, enquanto as festividades se prolongavam em encontros que revelavam a força dos vínculos familiares e comunitários. Tudo era diferente da realidade brasileira que eu conhecia, e justamente nessa diversidade encontrava uma riqueza humana que me encantava. Aprendi que compreender outra cultura exige muito mais do que observá-la. É necessário respeitar seus costumes, reconhecer suas particularidades e permitir que suas diferenças ampliem nossa própria visão da existência.
Foi também na Argélia que aprendi algumas palavras em árabe, suficientes para perceber como uma língua pode aproximar pessoas e abrir portas para novas amizades. O francês, que já fazia parte de minha educação, consolidou-se como uma língua afetiva, intelectual e cotidiana. Até hoje o utilizo com enorme prazer, seja na leitura, no cinema, nas conversas ou na escrita. A convivência com diferentes idiomas me ensinou que cada língua carrega uma maneira particular de sentir e interpretar a existência. Conhecer outra cultura não significa abandonar nossas origens, mas enriquecer aquilo que somos.
E como falar da Argélia sem mencionar sua gastronomia? O couscous continua sendo, até hoje, um de meus pratos preferidos. Seu aroma, seus temperos, sua apresentação e o ritual de compartilhá-lo à mesa me transportam imediatamente para aqueles anos. A memória possui caminhos misteriosos. Às vezes, basta um sabor, uma música ou uma palavra para que lugares aparentemente distantes voltem a existir diante de nossos olhos. O couscous, para mim, é muito mais do que uma especialidade culinária. É uma lembrança de convivência, de generosidade e de uma cultura que aprendi a amar.

Cinema Algeria
Na Argélia nasceram também amizades profundas, daquelas que acreditamos destinadas a acompanhar toda a vida. Compartilhávamos a juventude, as descobertas, as inquietações e, em muitos casos, as marcas silenciosas do exílio. Com o passar dos anos, entretanto, os caminhos se dispersaram, os países de residência mudaram e muitos desses laços acabaram interrompidos. Algumas amizades desapareceram de meu cotidiano, embora jamais tenham sido apagadas de minha memória. Parte desse universo afetivo pôde ser resgatada por meio do livro Memórias dos Filhos de Exilados, que tive a satisfação de coordenar com Vanuza Campos. A obra representou muito mais do que um exercício de recuperação histórica. Foi uma oportunidade de reencontrar trajetórias, reconstruir lembranças e devolver voz àqueles que, ainda crianças ou adolescentes, viveram as consequências de decisões políticas que não lhes pertenciam. Ao reunir essas memórias, compreendi novamente que o exílio não termina necessariamente quando regressamos ao país de origem. Ele continua existindo nas amizades interrompidas, nas identidades construídas entre diferentes culturas e nas saudades que aprendemos a carregar. Recuperar essas histórias foi também uma maneira de reencontrar a Argélia que permanece dentro de mim.
A experiência argelina também me ensinou a compreender melhor o continente africano, tantas vezes apresentado de maneira superficial, preconceituosa ou reduzido às suas dificuldades. Conheci uma África de intelectuais, artistas, estudantes, trabalhadores, tradições e projetos de futuro. Um continente de enorme riqueza humana, cuja história merece ser estudada com respeito. A luta do povo argelino por sua independência deixou marcas profundas e ajuda a compreender a importância que a soberania, a dignidade e a autodeterminação possuem na vida das nações. Minha passagem pelo país fortaleceu a convicção de que a democracia, os direitos humanos e a justiça social precisam ser defendidos diariamente.
Ao longo de minha vida, tive o privilégio de conhecer mais de duzentos países. Vi cidades extraordinárias, monumentos grandiosos, paisagens que pareciam saídas de sonhos e culturas que transformaram minha maneira de pensar. Entretanto, poucas experiências tiveram sobre mim a influência humana da Argélia. Talvez porque ali eu não tenha sido apenas um visitante. Fui um jovem que cresceu, estudou, fez amizades, descobriu diferenças e aprendeu a conviver com a saudade do Brasil. Fui também o filho de uma família que encontrou proteção quando a própria pátria atravessava um período de intolerância.

La grande poste
O exílio possui uma dimensão que nem sempre aparece nos livros de história. Não se resume à distância geográfica ou à perda de referências materiais. Ele invade as conversas familiares, modifica os projetos de vida e obriga crianças e adolescentes a amadurecerem diante de situações que não escolheram. Ao mesmo tempo, pode revelar a extraordinária capacidade humana de reconstruir afetos e descobrir novos pertencimentos. Na Argélia, compreendi que a identidade não é uma prisão territorial. Podemos amar profundamente o Brasil e, simultaneamente, reconhecer em outra nação uma parte essencial de nossa própria história.
Hoje, quando penso em Argel, não vejo apenas ruas, edifícios e paisagens. Vejo rostos, escuto vozes, recordo amizades e reencontro simbolicamente uma parte de minha juventude. A Casbah continua viva em minha imaginação. A Grande Poste permanece majestosa em minhas lembranças. Didouche Mourad, Ben Aknoun, El Biar, Tipaza, Oran, Constantine, a Kabylie e Bou Saâda formam uma geografia sentimental que nenhuma passagem do tempo poderá destruir. São lugares que deixaram de pertencer exclusivamente aos mapas para ocupar definitivamente o território de minha memória.
Gostaria que as novas gerações compreendessem a importância de cultivar a gratidão histórica. Em um mundo onde tantos discursos estimulam o fechamento de fronteiras, a xenofobia e a indiferença diante do sofrimento alheio, precisamos recordar os países que souberam oferecer abrigo. A Argélia acolheu minha família em um momento difícil. Esse gesto não pode ser esquecido. Minha gratidão não depende de governos, circunstâncias diplomáticas ou mudanças políticas. É dirigida, sobretudo, ao povo argelino, cuja hospitalidade representou para nós uma verdadeira demonstração de fraternidade.
Não desejo transformar minhas lembranças em uma idealização ingênua do passado. Nenhum país está livre de contradições, problemas ou desafios. Amar uma terra significa também reconhecer sua complexidade, respeitar sua história e desejar que seu povo encontre caminhos de prosperidade, liberdade e paz. Minha Argélia não é uma imagem congelada na juventude. É uma nação viva, que continua escrevendo sua própria história e que merece ser conhecida para além dos estereótipos.
Se a vida me ensinou alguma coisa, foi que as experiências mais valiosas não são necessariamente aquelas que acumulamos, mas as que nos transformam. A Argélia me transformou. Fez de mim um cidadão mais aberto ao diálogo, mais sensível às injustiças, mais interessado nas culturas do mundo e mais consciente da importância da liberdade. Influenciou minha trajetória como professor, pesquisador, escritor e viajante. Está presente em minha maneira de ensinar, de escrever, de observar o mundo e de defender o respeito às diferenças.

Há saudades que machucam e outras que iluminam. A saudade que sinto da Argélia pertence às duas categorias. Machuca porque o tempo não devolve integralmente os encontros, os rostos e a juventude. Ilumina porque me permite reconhecer a felicidade de ter vivido uma experiência tão rica e profundamente humana. Não tenho como agradecer individualmente a todos aqueles que cruzaram nosso caminho, mas posso oferecer aquilo que sempre considerei uma das formas mais sinceras de reconhecimento: a palavra escrita.
Argélia, para sempre em meu coração. Não apenas porque acolheste meus pais quando o exílio lhes roubou a tranquilidade, nem somente porque ofereceste a um jovem brasileiro a oportunidade de descobrir um mundo extraordinário. Permanecerás em mim porque me ensinaste que a solidariedade é uma das expressões mais nobres da civilização, que a liberdade não pode ser negociada e que o amor por um país também nasce da gratidão.
E quando minha memória percorre novamente as ruas de Argel, sinto que uma parte daquele jovem continua caminhando por elas, observando o Mediterrâneo, ouvindo diferentes idiomas e acreditando que a humanidade pode ser maior do que suas divisões. O tempo passou, os caminhos se multiplicaram e a vida me levou aos mais diversos lugares do planeta. Entretanto, existe uma verdade que permanece intacta: saí da Argélia, mas a Argélia jamais saiu de mim. Bayard Do Coutto Boiteux é professor universitário ,pesquisador ,escritor e apaixonado por experiências internacionais.