Anthropic ganha tração antes de corrida por IPO com OpenAI – 16/06/2026 – Economia

Área principal da Bolsa de Valores de Nova York com operadores em pé e caminhando entre estações de negociação circulares. Múltiplas telas digitais exibem informações financeiras e o texto

O anúncio recente de que tanto a OpenAI quanto a Anthropic preparam a primeira oferta pública de ações traz a corrida da inteligência artificial a uma nova fase.

Em vez de uma disputa por quem tem o melhor modelo de IA, a briga agora também é para mostrar aos investidores quem é capaz de sustentar um negócio lucrativo. E, na hora de fazer essa conta, segundo especialistas do mercado, um elemento entre tantos deve ganhar relevância: o resultado com clientes corporativos, critério que coloca na arena dois modelos de negócios distintos.

De um lado, a OpenAI, quase um sinônimo de IA perante o público e líder entre as pessoas comuns, com quase 1 bilhão de usuários ativos (dos quais, contudo, só 5% pagam para utilizar o chatbot). Já a Anthropic focou estratégia em conquistar primeiro desenvolvedores de software e clientes corporativos —um plano que, em meio à corrida para o primeiro IPO, parece fazer a companhia ganhar tração.

Segundo Paulo Carvão, ex-executivo da IBM e pesquisador na Universidade Harvard, tal cenário faz os investidores serem confrontados com uma questão crucial na economia da IA: a sustentabilidade dos negócios vai vir da escala de consumo ou da receita empresarial?

“Os mercados públicos [de capital] têm menos tolerância a empresas que não sejam lucrativas. Entra esse debate do modelo de negócios. E a OpenAI tem um caminho grande até a lucratividade, enquanto a Anthropic está começando a esboçar essa possibilidade, ainda que de forma transitória”, diz ele.

Segundo dados da plataforma de pagamentos Ramp, que monitora gastos com cartão de crédito, em abril o número de empresas americanas que usam os serviços de IA da Anthropic (34%) superou pela primeira vez as que usam os da OpenAI (32%).

A OpenAI, comandada por Sam Altman questiona os dados, dizendo que a plataforma não capta contratos multimilionários. Já a Ramp argumenta que, na base, consegue monitorar 1% do PIB americano —e que os números são consistentes com as informações de receita que as duas empresas divulgam.

De fato. A empresa de Altman anunciou ter atingido uma receita anualizada de cerca de US$ 20 bilhões em 2025, ante US$ 6 bilhões no ano anterior. Já a da Anthropic disparou de cerca de US$ 10 bilhões no fim do ano passado para US$ 47 bilhões em maio deste ano, ultrapassando a rival.

Mas esses dados são alvo de disputa e já geraram atritos entre as empresas, e a companhia comandada por Sam Altman tem dito que a rival infla os números de receita. A Anthropic, é claro, rebate, dizendo que usa práticas de contabilidade estabelecidas no mercado.

Mesmo enquanto se debate os critérios contábeis das duas, é certo que tanto a dona do Claude quanto a do ChatGPT têm uma previsão de perdas. Ao mesmo tempo em que teve aquela receita de US$ 20 bilhões, a OpenAI tem compromissos com investimentos de US$ 600 bilhões em infraestrutura computacional. Já a Anthropic avisou a investidores que, no segundo trimestre deste ano, deve registrar lucro operacional pela primeira vez em sua história.

A notícia foi vista como um ótimo sinal e colocaria a dona do Claude à frente na corrida. Mas a própria empresa reconhece, nos bastidores, que vai ser difícil manter essa lucratividade ao longo do ano, dado o volume de gastos que precisa fazer com chips, datacenters e treinamento de modelos.

De todo modo, Anthropic espera se tornar uma empresa lucrativa até o fim desta década; e a previsão da OpenAI é por volta de 2030. É claro, todos os números divulgados pelas duas companhias serão finalmente submetidos a escrutínio público na abertura de capital —e o mercado vai poder avaliar melhor o que há de sólido nas promessas.

Ainda assim, o diferencial para a Anthropic ganhar tração às vésperas dos dois IPOs são justamente as vendas para as empresas e desenvolvedores, que respondem por 85% da receita da companhia. Segundo o pesquisador Paulo Carvão, clientes empresariais geram de três a cinco vezes mais receita por token —unidade básica de processamento na IA— do que os consumidores comuns.

“O padrão de uso desses clientes é mais previsível e seus contratos tendem a ser mais duradouros”, diz ele, destacando que oito das dez maiores companhias da lista da Fortune usam o Claude. “Essa é a base de um negócio lucrativo.”

Mas a OpenAI reage e tenta mostrar que é possível converter sucesso com usuários comuns em vendas corporativas. No ano passado, as vendas do tipo eram 30% de sua receita, hoje são 40% —e a previsão é que cheguem a 50% até o fim deste ano. A aposta é usar sua enorme base de usuários como arma.

Além disso, a Anthropic tem a desvantagem de enfrentar um risco político maior, porque tem vivido às rusgas com o governo Donald Trump. No último capítulo da novela, semana passada, a empresa foi obrigada a retirar do ar seus modelos Fable 5 e Mythos 5, após uma ordem da Casa Branca que proibiu o uso por estrangeiros, sob a alegação de que havia riscos à segurança nacional. A empresa contesta a decisão.

A corrida das duas rivais, diante dessa diferença de estratégia e apresentação dos números, é para ver quem vai fazer primeiro o IPO. Até aqui, o boom da IA foi financiado pelo mercado privado de capitais. Com a passagem ao mercado público, diz Paulo Carvão, pela primeira vez os investidores poderão ter acesso a números transparentes e julgar se receitas, custos e perspectiva de crescimento são suficientes para julgar as avaliações dessas companhias até aqui —que se aproximam da casa do trilhão de dólares.

De todo modo, quem sair na frente tem a chance de estabelecer uma narrativa e influenciar sob quais métricas o mercado de IA passará a ser avaliado —deixando uma régua para o julgamento do rival que vier depois.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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