Projeto reúne 35 grupos de pesquisa para investigar a biodiversidade oceânica, buscar compostos de interesse para a saúde humana e promover geração de renda em comunidades costeiras
Agência FAPESP * – Presentes em diferentes ecossistemas marinhos, as macroalgas contribuem para a produção de oxigênio, servem de abrigo e alimento para diversas espécies e participam do ciclo de carbono. Elas também podem ajudar a identificar alterações ambientais, como a presença de poluentes e os efeitos da mudança climática. Além de sua importância ecológica, esses organismos têm potencial para aplicações na saúde e na biotecnologia.
Investigar os reais impactos do clima sobre esse conjunto heterogêneo de organismos e os ecossistemas marinhos em que vivem é o objetivo do projeto Algas & Clima – Dinâmicas da biodiversidade das algas sob os efeitos das mudanças climáticas, coordenado pelo professor Pio Colepicolo, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), e financiado pela FAPESP. No projeto, os pesquisadores vão analisar a biodiversidade, a distribuição e o potencial biotecnológico das macroalgas em regiões que vão do litoral brasileiro à Antártica, buscando descobrir como esses organismos respondem às transformações ambientais.
A iniciativa reúne 35 grupos de pesquisa do Brasil e do exterior para estudar a diversidade e a distribuição das algas, incluindo a identificação de novas espécies. As equipes também vão avaliar o potencial desses organismos para a geração de créditos de carbono e o monitoramento de poluentes. Outra frente vai desenvolver uma plataforma capaz de analisar um grande número de amostras em busca de substâncias de interesse para a saúde humana. Essa diversidade de abordagens é fundamental, porque compreender um oceano em transformação exige olhar para o problema sob diferentes perspectivas: no campo, nas expedições, no laboratório e na análise de dados.
Segundo Colepicolo, o projeto pode durar até sete anos, com coletas de algas no litoral brasileiro, nos canais do sul do Chile e na Antártica. A equipe revisitará locais estudados anteriormente e ampliará o monitoramento de ambientes sobre os quais ainda há lacunas de conhecimento. “A comparação dos levantamentos prévios permitirá comprovar se o aquecimento, a acidificação da água e a ação humana realmente reduziram o número de espécies ou alteraram a abundância das algas”, explica.
Do veleiro ao laboratório
A primeira expedição partiu de Florianópolis no dia 26 de outubro, a bordo do veleiro ECO, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para estudar a biodiversidade de algas em trechos do litoral catarinense. Outras duas viagens estão previstas ainda neste ano: uma ao canal de Beagle, no sul do Chile, e outra à Antártica. “Há 14 anos fazemos expedições para a Antártica, com pelo menos três viagens por ano. Na próxima missão, planejamos ir além das áreas que já conhecemos, ultrapassando o Círculo Polar Antártico para avaliar variações de biodiversidade em latitudes e temperaturas ainda mais extremas”, relata Colepicolo.
De acordo com a pesquisadora Mutue Toyota Fujii, do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo, o continente gelado é uma das áreas mais afetadas pelas mudanças climáticas. “O derretimento das geleiras lança grandes volumes de água doce no oceano, o que pode alterar drasticamente a salinidade, a temperatura e o pH da água. Mapear as algas permite registrar como essas alterações físico-químicas estão afetando sua sobrevivência e se há o deslocamento de espécies”, explica.
A equipe também pretende sequenciar o genoma de Phaeurus antarcticus, macroalga antártica que será estudada para compreender seus mecanismos de adaptação e avaliar seu potencial como indicador ambiental.
A pesquisa examinará ainda microrganismos associados às algas e organismos que se fixam em superfícies submersas. No canal de Beagle, está prevista a instalação de placas de aço na água para acompanhar a formação de biofilmes e a fixação de organismos, processo conhecido como bioincrustação. O experimento poderá ampliar o conhecimento sobre o acúmulo de organismos no casco de navios, problema que aumenta a resistência ao deslocamento e exige limpeza periódica.
Outra frente estudará a biomassa das algas e sua relação com a absorção de carbono. O objetivo é avaliar possibilidades e limites de aproveitamento desse serviço ambiental, produzindo informações que possam contribuir para estratégias de conservação e uso sustentável dos recursos marinhos.
Busca por novos tratamentos
As condições extremas enfrentadas pelas algas antárticas também despertam interesse por sua composição química. Substâncias produzidas por esses organismos podem apresentar atividades biológicas de interesse para a saúde.
De acordo com a professora Márcia Graminha, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (FCFAr-Unesp), em Araraquara, estudos iniciais com Phaeurus antarcticus apresentaram resultados promissores contra patógenos. Sua participação no projeto Algas & Clima estará voltada à avaliação de substâncias com atividade contra a Leishmania, parasita causador da leishmaniose. “Nós estudamos o parasita que causa a doença e buscamos entender como ele responde a substâncias que possam afetar sua sobrevivência. É uma pesquisa que também procura abrir caminhos para o desenvolvimento de novos tratamentos”, explica.
Esse trabalho se somará ao das equipes que estudam as macroalgas e identificam seus componentes químicos. “Vamos avaliar essa atividade em laboratório e investigar os resultados que se mostrarem mais promissores. É assim que uma pesquisa sobre a biodiversidade marinha também pode contribuir para uma questão de saúde pública”, afirma.
A colaboração entre especialidades será essencial para percorrer essas etapas. Enquanto alguns grupos coletam, identificam e estudam as algas, outros isolam e caracterizam suas substâncias. As equipes responsáveis pelos ensaios biológicos avaliam os efeitos desses componentes em diferentes modelos, conforme sua área de atuação. “Nenhuma área, sozinha, consegue responder a todas as perguntas do projeto”, ressalta Graminha. “Quando encontramos um resultado interessante, podemos voltar aos colegas para entender melhor de onde vem aquela substância e como aprofundar o estudo. É dessa troca que a pesquisa avança.”
Diálogo com comunidades
No Rio Grande do Norte, o projeto prevê trabalhar com associações de maricultoras (mulheres que trabalham no cultivo de organismos marinhos) de Rio do Fogo e Pitangui. A proposta é cultivar algas que apresentem componentes de interesse, aproximando os estudos em laboratório da produção em mar aberto e de possibilidades de geração de renda para as envolvidas. As atividades de extensão também incluem palestras, oficinas e materiais educativos para escolas e comunidades.
O projeto Algas & Clima foi aprovado no primeiro ciclo da chamada de propostas de 2025 do Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica (PROASA) e reúne equipes da USP, da Unesp, das universidades federais de Santa Catarina (UFSC), do Rio Grande do Norte (UFRN), do Rio de Janeiro (UFRJ), de Alagoas (UFAL) e de Pelotas (UFPel), além do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira. Também participam parceiros no Chile, nos Estados Unidos, na França e no Canadá.
O público poderá acompanhar o desenvolvimento do projeto por meio de reportagens, vídeos e conteúdos nas redes sociais, como o Instagram. As publicações abordarão as expedições, a rotina dos laboratórios e os resultados obtidos, explicando o percurso das amostras coletadas, as perguntas que orientam os experimentos e as etapas necessárias para investigar possíveis aplicações.
* Com informações da Assessoria de Comunicação do PROASA.
Fonte ==> Folha SP