Por Dr. Marcio Luna*
O envelhecimento é um processo biológico universal, progressivo e multifatorial, caracterizado por declínio funcional gradual, acúmulo de danos moleculares e celulares, e aumento da vulnerabilidade a doenças crônicas não transmissíveis.
Com a expansão global da expectativa de vida, a biologia da longevidade tornou-se um dos campos mais dinâmicos da ciência contemporânea. Nesse contexto, a acupuntura, sistema terapêutico milenar fundamentado nos princípios da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), tem emergido como intervenção de relevância crescente, com um corpo robusto de evidências científicas que sustenta sua utilização conjunta e integrada aos tratamentos mais recentes das condições relacionadas ao envelhecimento.
Um dos mecanismos centrais do envelhecimento biológico é o chamado “inflammaging”, inflamação crônica de baixo grau, silenciosa e sistêmica, que alimenta as principais doenças da senescência: aterosclerose, diabetes tipo 2, doenças neurodegenerativas e neoplasias.
A acupuntura demonstra ação modulatória consistente sobre esse estado inflamatório crônico, reduzindo marcadores como interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e NF-κB, por meio da ativação do nervo vago e de mecanismos colinérgicos anti-inflamatórios.1
No plano molecular, estudos em modelos experimentais evidenciam que a estimulação de pontos de Acupuntura como o Zusanli, ativa vias antioxidantes mediadas pela enzima superóxido dismutase (SOD), reduzindo o estresse oxidativo, um dos principais motores do envelhecimento celular.2
No campo das doenças neurodegenerativas, que figuram entre as condições mais impactantes do envelhecimento, os resultados da acupuntura têm sido especialmente expressivos. Uma Revisão publicada no International Review of Neurobiology documenta os mecanismos pelos quais a acupuntura atua sobre a doença de Alzheimer, incluindo redução de placas beta-amiloides, modulação de neurotransmissores colinérgicos e proteção neuronal mediada por BDNF.3
Estudos de neuroimagem funcional (fMRI) confirmam que a acupuntura modula redes de conectividade cerebral em pacientes com comprometimento cognitivo leve (CCL), com impacto mensurável sobre memória e funções executivas.4
O sistema cardiovascular é outro alvo terapêutico, da acupuntura, bem documentado. Um ensaio clínico randomizado publicado na revista Circulation demonstrou que a acupuntura produziu redução significativa da pressão arterial em pacientes com hipertensão não controlada, em comparação com grupo controle sham.5
Esses efeitos associam-se à regulação autonômica com a melhora do sistema nervoso vago-simpático, fator de risco independente para eventos cardiovasculares maiores, em populações idosas, e à modulação da atividade do sistema renina-angiotensina.6
A degeneração articular, em especial a osteoartrite (artrose) de joelho, a doença articular mais prevalente em idosos, é uma das indicações com maior nível de evidência para a acupuntura.
Uma Metanálise de dados individuais envolvendo mais de 18.000 pacientes, demonstrou eficácia superior ao grupo-controle e clinicamente relevante no tratamento da dor crônica musculoesquelética.7
Ensaio clínico randomizado publicado no JAMA confirmou benefício específico em osteoartrite de joelho, com melhora funcional sustentada ao longo de 12 semanas (Hinman RS et al., JAMA, 2014, PMID: 25268438). Esses achados têm implicação direta na manutenção da mobilidade, autonomia e prevenção de quedas em idosos, desfechos centrais para a longevidade funcional.
No climatério, fase crítica do envelhecimento hormonal feminino, a acupuntura demonstrou redução significativa da frequência e intensidade de fogachos, bem como melhora de humor, qualidade do sono e vitalidade, em ensaio clínico pragmático e randomizado com 209 mulheres.8
Mecanisticamente, a ação da acupuntura sobre o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas e sobre receptores de estrogênio no sistema nervoso central explica parte desses efeitos, com vantagem relevante sobre terapias hormonais em mulheres com contraindicações formais.9
Os distúrbios do sono, altamente prevalentes em idosos e diretamente associados ao declínio cognitivo, imunossupressão e envelhecimento acelerado, também respondem favoravelmente à acupuntura.
A Revisão sistemática Cochrane identificou melhora subjetiva e objetiva da qualidade do sono com acupuntura em adultos com insônia, com perfil de segurança superior ao dos hipnóticos convencionais.10
Esse dado é especialmente relevante no contexto geriátrico, em que a polifarmácia e a hipersensibilidade a psicofármacos limitam as opções terapêuticas tradicionais.
Em conjunto, o corpo de evidências disponível posiciona a acupuntura não apenas como terapia mas como
uma intervenção biológica de ação sistêmica, capaz de atuar em múltiplos alvos moleculares e fisiológicos do envelhecimento, da modulação neuroinflamatória ao equilíbrio neuroendócrino, do controle da dor à neuroproteção. Integrada a protocolos terapêuticos contemporâneos de longevidade, que incluem nutrição funcional, exercícios terapêuticos, fisioterapia, suplementação nutracêutica, fitoterapia e farmacologia inteligente preventiva, a acupuntura representa um recurso diferenciado, ao mesmo tempo preventivo e terapêutico, que é cientificamente sustentado para a promoção da longevidade e do envelhecimento saudável e da qualidade de vida nas fases avançadas da existência humana.
*Sobre Dr. Marcio Luna
Acupunturista há 42 anos, foi aluno do Prof. Dr. Friedrich J. Spaeth, introdutor da Acupuntura no Brasil, consolidando uma trajetória pioneira na área.
Fisioterapeuta graduado em 1985 (FRASCE-RJ), com mais de quatro décadas de experiência clínica, integrando práticas convencionais e terapias complementares.
Possui pós-graduação em Acupuntura com formação internacional na China (2003 e 2013) e especialização em Neurociências Aplicadas à Longevidade pela UFRJ (2011). É mestre em Ciência da Motricidade Humana pela UCB-RJ (2004).
Ao longo de sua carreira, destacou-se por iniciativas inovadoras e impacto social relevante, como a criação, em 1993, de um serviço gratuito de Acupuntura na comunidade da Rocinha (RJ). Em 1995, organizou e presidiu o 1º Congresso Internacional de Acupuntura, realizado no Hotel Glória (RJ), reunindo 14 palestrantes estrangeiros, todos autores de referência na área.
Foi responsável por trazer ao Brasil, de forma pioneira, o renomado professor Giovanni Maciocia, um dos mais influentes autores ocidentais em Medicina Tradicional Chinesa, com sete obras publicadas.
É reconhecido como um dos pioneiros na utilização do Canabidiol (CBD) aplicado à Fisioterapia e à Acupuntura no Brasil; Atualmente atua como Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Acupuntura e Shiatsu do IBMTC – Instituto Brasileiro de Medicina Tradicional Chinesa e Atende em seus consultórios no Rio e em Recife.
Áreas de atuação e expertise:
- Melhora da performance física, cognitiva e atlética, com foco também na longevidade
- Práticas Integrativas e Complementares em Saúde
- Estratégias de anti-envelhecimento
- Doenças relacionadas ao envelhecimento
- Oncologia Integrativa
- Doenças neurodegenerativas, complexas e raras
- Tratamento da dor crônica
- Terapia canabinoide
CREFITO-2: 6464-F
R.Q.E.: 10.10000416
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Referências:
1 Kavoussi B & Ross BE, Integr Cancer Ther, 2007, PMID: 17761638; McDonald JL et al., Evid Based Complement Alternat Med, 2015, PMID: 25878950.
2 Kim SK & Bae H, Pharmacol Ther, 2010, PMID: 20560026; CNKI: 张颖等,《中国针灸》,2018, CN11-2124/R.
3Brain-derived neurotrophic factor – Zeng BY et al., Int Rev Neurobiol, 2013, PMID: 24215921.
4 Zheng W et al., PLoS One, 2018, PMID: 29768447; CNKI: 符文彬等,《中国中医药》,2016, CN44-1371/R.
5Flachskampf FA et al., Circulation, 2007, PMID: 17548732
6CNKI: 吴巧凤等,《针刺研究》,2019, CN11-2274/R.
7Vickers AJ et al., J Pain, 2018, PMID: 29198932.
8 Avis NE et al., Menopause, 2016, PMID: 26925993.
9 CNKI: 吴焕淦等,《针刺研究》,2015, CN11-2274/R.
10 Cheuk DK et al., Cochrane Database Syst Rev, 2012, PMID: 22972087.