Elton Alisson, da Serra do Aracá (AM) | Agência FAPESP – Sentada diretamente sobre o chão de uma das poucas áreas de floresta no topo de um platô da Serra do Aracá (AM), a entomologista Gabriela Procópio Camacho maneja um canivete para abrir pequenas frestas em um tronco de árvore caído. No interior da madeira em decomposição, uma colônia de cupins agita-se sob a luz que transpassa a copa das árvores.
Concentrada, a pesquisadora posiciona a ponta de uma mangueira de borracha – semelhante às tiras elásticas usadas em estilingues – em um dos buracos que conseguiu abrir no toco de madeira. Ao sugar pela outra ponta do tubo, os insetos são aspirados pela tripa de borracha e ficam retidos em uma pequena antecâmara plástica, vedada com uma fina rede interna para evitar que Camacho os engula – embora esse tipo de acidente ocorra com relativa frequência. Ela busca obstinadamente as rainhas da colônia de cupins, cujos abdomens agigantados revelam seu papel reprodutivo na colônia.
Os cupins não são o foco de pesquisa da cientista, que é especialista em outro tipo de inseto social: as formigas. Ainda assim, ela não hesita em passar horas agachada na terra, sujeitando-se às mordidas das próprias formigas e às picadas das impertinentes moscas-mutucas – onipresentes na Serra do Aracá –, para capturar todo tipo de inseto que encontra pela frente.
“Essa é uma oportunidade única de coletar. Por isso, quero poder amostrar a maior parte dos insetos que eu conseguir para aproveitar ao máximo a viagem”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP, enquanto colocava os espécimes de cupim que coletou em frascos de vidro com álcool. O material, mesmo que não seja analisado por ela, será destinado ao acervo biológico do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), do qual é pesquisadora, para que outros especialistas possam estudá-lo.
Gabriela Procópio Camacho, cientista do Museu de Zoologia da USP (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)
Essa abnegação e obsessão desmedida em colaborar e não desperdiçar o tempo são a tônica da expedição à Serra do Aracá. Considerada o maior esforço de prospecção de biodiversidade já realizado no topo dessas montanhas isoladas do extremo norte do Amazonas, a jornada científica é encarada pelos 16 cientistas participantes como uma oportunidade única de coletar o maior número possível de espécimes de fauna e flora, além de amostras de água, solo e sangue de espécies de animais que, muito provavelmente, só existem aqui. O objetivo é conhecer melhor a biodiversidade desses ecossistemas de altitude, que tipicamente abrigam um conjunto de espécies completamente diferente daquelas que habitam as partes mais baixas da planície amazônica.
A expedição é financiada pela FAPESP e realizada com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança.
A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, incluindo a USP, os institutos Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Federal do Amazonas (Ifam), as universidades Federal de São Carlos (UFSCar), de Toulouse (na França) e Autônoma de Madri (na Espanha), além do Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos) e do Museu de História Natural de Oslo (Noruega) – todos com formação no Brasil e larga experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas em répteis e anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.

Trabalho prévio
A pressa e a ansiedade dos pesquisadores em iniciar as coletas já eram perceptíveis no embarque da equipe em São Paulo, com destino a Manaus e, depois, a Barcelos, às margens do rio Negro, onde está localizada a base operacional do Exército Brasileiro que dá apoio à expedição.
“Quanto mais rápido chegarmos, melhor. Tempo é dinheiro e não podemos desperdiçar uma oportunidade valiosa de coletar a maior quantidade possível de espécies”, disse Luis Fábio Silveira, ornitólogo e diretor do MZ-USP, na ocasião do embarque, em São Paulo.
O campo-base da expedição fica a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui, como são chamadas as montanhas de topo plano que dominam a paisagem dessa região norte da Amazônia, 220 quilômetros ao norte de Barcelos.
Para esse grupo de cientistas, entretanto, a prospecção em campo não começou quando os pés deles tocaram o platô de arenito, no dia 24 de agosto, mas sim muito antes da decolagem do helicóptero do Exército que os trouxe ao Aracá. No caso das botânicas Vania Nobuko Yoshikawa, pesquisadora do Inpa, e Jenifer de Carvalho Lopes, pesquisadora do Jardim Botânico do Missouri, o planejamento prévio e minucioso começou muito antes da decolagem.
“Nosso trabalho de campo começa no laboratório. Antes de vir para cá, lemos vários artigos e consultamos listas de espécies para saber o que podíamos encontrar. Não chegamos aqui totalmente às cegas”, conta Yoshikawa.
O planejamento incluiu o estudo de listas históricas de espécies da floresta amazônica, publicadas por botânicos brasileiros e estrangeiros, além do mapeamento de dados em repositórios digitais como o speciesLink – uma rede digital brasileira criada em 2002, que integra e compartilha dados científicos sobre a biodiversidade de plantas, animais, fungos e microrganismos.
O trabalho de coleta das botânicas é realizado durante o dia. Às 6 horas, tomam café com o restante do grupo e, por volta das 7h, saem para incursões nas matas ao redor do acampamento. Ao contrário dos pesquisadores da zoologia, cujas buscas por animais dependem da colocação de armadilhas em pontos específicos da paisagem que eles revisitam diariamente, elas têm no platô da Serra do Aracá um amplo campo para exploração, orientada pela análise visual dos diferentes padrões e fisionomias de vegetação.
Nesse contexto de varredura ativa pelo platô, Lopes destaca que a tomada de decisão em campo é estritamente ditada pelo estado das plantas. “Para nossas coletas de material, precisamos que os espécimes estejam com flor ou com fruto, porque precisamos dessas estruturas reprodutivas para poder identificá-los no nível de gênero e de espécie”, explica a pesquisadora.

Vania Nobuko Yoshikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e Jenifer de Carvalho Lopes, do Jardim Botânico do Missouri (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)
De volta ao acampamento na hora do almoço, elas passam a tarde prensando as plantas em folhas de jornal e organizando duplicatas de ramos (de três a cinco por indivíduo). As amostras são guardadas em sacos plásticos com álcool para evitar fungos. Porém, como esse processo dificulta a extração de DNA celular, elas realizam uma delicada tarefa paralela: extraem pedaços de folhas saudáveis e os colocam em pequenos saquinhos de chá com sílica gel para desidratação rápida e preservação do material genético até o laboratório, quando retornarem.
Com a vegetação bastante florida, as botânicas coletaram, durante os cinco primeiros dias da expedição, mais de 100 espécimes e identificaram populações expressivas de canela-de-ema – nome popular dado às plantas do gênero Vellozia – e orquídeas terrestres do gênero Catasetum.
“Essas plantas vão ser tombadas no Inpa e depois serão disseminadas para outros herbários no Brasil e em outros países com os quais mantemos colaboração científica, como os do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Instituto de Biociências [IB] da USP e do Jardim Botânico do Missouri”, explica Yoshikawa.
No ritmo dos bichos
As coletas no platô expõem um contraste profundo na rotina de trabalho dos diferentes grupos de especialistas que integram a expedição. Enquanto as plantas aguardam estáticas a busca visual das botânicas, que trabalham em “horário comercial” – do início da manhã ao fim da tarde –, a zoologia segue os complexos ciclos biológicos e turnos de atividade dos animais, que se “escondem” pelo campo.
Os ornitólogos (especialistas em pássaros), por exemplo, despertam na escuridão total, por volta das 4h da manhã. O objetivo é capturar aves que estão ativas no final da noite e nas primeiras horas do dia – como corujas, bacuraus e guácharos – e registrar o chamado “coro da aurora”. “É o momento em que a passarinhada está acordando com fome e, por isso, está mais ativa e é mais fácil avistá-los”, explica Silveira, acompanhado de Igor Alvarenga, pesquisador associado do MZ-USP.
Carregando binóculos, gravadores de som e espingardas, eles abrem, ao amanhecer, dezenas de redes de malha extremamente fina (chamadas “redes de neblina”). As redes funcionam como armadilhas passivas até o fim da manhã, quando são retiradas as aves que ficaram presas, para evitar que se machuquem. Os ornitólogos recolhem todos os espécimes capturados e os levam para o acampamento, onde realizam a pesagem, a medição, a retirada de tecidos e a preparação taxonômica – um processo altamente metódico e rigoroso de processamento, posicionamento e conservação física das espécies biológicas coletadas em campo.
“Essa preparação taxonômica exige atenção absoluta e não tem margem para falhas. Não há espaço para erros ou brincadeiras, porque uma amostra de tecido com o número trocado significa que ela foi perdida”, contou Silveira.
A primeira semana de expedição lhes rendeu gratas surpresas, como a presença expressiva de beija-flores, devido à abundância de flores no platô nessa época do ano. O maior destaque foi o beija-flor Colibri delphinae, do qual Silveira e Alvarenga já coletaram três indivíduos – uma ave que não havia sido registrada nas expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Em contrapartida, as matas de encosta no topo da montanha frustraram as expectativas dos pesquisadores pela surpreendente escassez de aves.
“Estávamos esperando encontrar uma floresta bem mais povoada de passarinhos e, na verdade, ela é bem vazia”, relatou Alvarenga. Embora o avistamento de um casal de araras-vermelhas na primeira incursão dos pesquisadores tenha gerado entusiasmo inicial, os dias seguintes confirmaram uma densidade de aves inesperadamente baixa, restando a dúvida se esse silêncio foi consequência de dias ruins de coleta ou se é um padrão.

Prêmio para a mastozoologia: captura de um pequeno mamífero foi celebrada de forma descontraída como o marco de que a expedição oficialmente havia “saído do zero” nessa área (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Mais sorte tiveram os mastozoólogos Alexandre Percequillo, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), e Ana Paula Carmignotto, professora da UFSCar, especialistas em pequenos mamíferos. Ao iniciar a metódica revisão matinal das armadilhas que deixaram em campo na noite anterior, os pesquisadores constataram, no segundo dia de expedição, a captura de um roedor. Ao examinar o bicho ainda na gaiola, eles perceberam que podia se tratar de um resultado extremamente promissor: um exemplar que parece pertencer ao gênero Zygodontomys, um roedor típico de áreas abertas e de campinarana (tipo de vegetação nativa da região amazônica que cresce sobre solos arenosos e pobres em nutrientes), mas que também ocorre na altitude da Serra do Aracá. “Não tínhamos pegado esse animal nem nas expedições ao Pico da Neblina nem na Serra do Imeri”, contou Percequillo.
Ao levar o animal para o laboratório de campo, a surpresa do líder da expedição foi imediata. “Eu nunca tinha pegado esse bicho”, celebrou o biólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB-USP. Ele ficou impressionado com a aparência física do roedor e com o fato de ele já ter sido classificado como um Akodontini (uma tribo de pequenos roedores) e hoje pertencer à tribo Oryzomyini. A captura foi celebrada de forma descontraída como o marco em que a expedição oficialmente “saiu do zero” no grupo dos pequenos mamíferos.
Animais crepusculares
Já os anfíbios, que não toleram altas temperaturas, utilizam a umidade e as temperaturas amenas da noite para cantar e disputar território nos riachos. Por isso, logo após o jantar, por volta das 18h, as equipes da herpetologia (especialistas em répteis e anfíbios) entram na mata escura munidas de lanternas, sem hora para voltar.
Embora a maioria dos anuros (sapos, rãs e pererecas) seja noturna, há algumas espécies que têm o pico de atividade bem nessa fase de transição entre o dia e a noite, chamada de lusco-fusco. Esse comportamento crepuscular funciona como um ajuste ecológico direto. “É um nicho que eles ocupam, simplesmente”, explicou o herpetólogo Taran Grant, professor do IB-USP e especialista em anuros.
Quando a escuridão começa a cair sobre o platô, os cientistas já ficam a postos para acompanhar de perto a transição entre as espécies diurnas e as noturnas. É nesse momento que a floresta testemunha uma verdadeira “troca de turno” acústica. Como muitos sapos cantam escondidos no solo ou no alto das árvores, descobrir o que está produzindo cada som é um verdadeiro desafio, dificultado pelo fato de os animais serem extremamente sensíveis e silenciarem ao menor sinal de aproximação.
“Vocês perceberam que, quando a gente chegou perto, ele percebeu a luz e parou de cantar?”, perguntou Taran para mim e o cinegrafista da Agência FAPESP, Phelipe Janning, durante uma incursão noturna. “A gente tem de apagar as luzes, esperar para ele ficar mais tranquilo e começar a cantar de novo”, aconselhou.

O herpetólogo Taran Grant (IB-USP), especialista em anuros: em busca do registro preciso de “cantos” e de quem exatamente está “cantando” (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Para o cientista, o desafio não é apenas capturar o áudio, mas flagrar o “cantor” em ação para garantir a confiabilidade da pesquisa. “É importante registrar exatamente qual é o indivíduo que está cantando, por vários motivos. Primeiro, porque temos de nos certificar de que um determinado canto é realmente dessa espécie. Por isso, eu gravo o áudio e observo o indivíduo cantando, com o saco vocal inflado”, explicou o pesquisador. Esse exemplar físico capturado e associado diretamente à gravação em áudio é denominado “voucher”.
Esse rigor metodológico é vital, porque o canto varia individualmente de acordo com a temperatura ambiente e o tamanho do corpo – com indivíduos menores emitindo frequências mais agudas do que os maiores da mesma espécie.
Ao término dessa primeira fase de exploração exaustiva, o balanço de coletas do grupo de herpetologia consolidou resultados altamente expressivos. Foram registradas de oito a nove espécies de anfíbios e de quatro a cinco espécies de lagartos. O grande destaque do período foi a captura de um pequeno lagarto adaptado ao arenito das áreas abertas do platô, apontado pelos pesquisadores como uma provável espécie nova para a ciência. Diante do isolamento milenar da região, a expectativa de descrever novas formas de vida permanece alta.

Vista aérea da região onde está ocorrendo a expedição (foto: André Dib/Agência FAPESP)
Leia as reportagens anteriores sobre a expedição à Serra do Aracá:
Fonte ==> Folha SP