A nova infraestrutura financeira do agronegócio: por que o dinheiro do campo está virando plataforma digital

Open Finance, Embedded Finance, tokenização e pagamento instantâneo redesenham o crédito rural. Para o empresário Caio Gachet, a próxima revolução do agro vai acontecer menos na fazenda e mais na infraestrutura que conecta produtor, trading e investidor.

O agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB brasileiro, mas sua infraestrutura financeira ainda carrega a marca de um mercado fragmentado: crédito, seguro, hedge cambial, antecipação de recebíveis, pagamento e gestão de risco costumam ser contratados em instituições diferentes, com bases de dados que não conversam entre si.

Esse modelo começa a mudar. A digitalização promovida pelo Banco Central (Pix, Open Finance e, mais recentemente, a integração entre os dois) soma-se ao avanço do Embedded Finance, da tokenização de ativos e das plataformas de Banking as a Service (BaaS) para formar uma nova camada tecnológica de financiamento do campo. Não é só mudança de canal. É mudança de arquitetura.

É nesse ponto de convergência entre tecnologia financeira e agronegócio que o empresário Caio Vinícius Gachet de Almeida construiu sua atuação. Fundador da fintech V2X Pay, da software house T-Alpha e da Trading Santa Catarina, ele reúne experiência em Open Banking, blockchain, automação, pagamentos digitais, governança corporativa e operações internacionais.

O crédito rural entra na era do dado

Durante décadas, a principal vantagem competitiva de um banco foi reter informação sobre o próprio cliente. O Open Finance corrói essa vantagem: com autorização do usuário, o compartilhamento de dados financeiros entre instituições passa a permitir produtos mais adequados ao perfil de cada produtor e condições de crédito mais competitivas. O histórico financeiro deixa de estar preso a uma única instituição.

A T-Alpha, de Gachet, atua justamente nessa camada: desenvolve infraestrutura para que instituições financeiras e empresas incorporem serviços financeiros ao próprio negócio, usando API, BaaS, Open Finance e Embedded Finance como base.

Quando a trading passa a operar como fintech

Embedded Finance é o conceito que permite embutir produto bancário dentro de uma plataforma que não é banco. Na prática, uma trading pode oferecer crédito, pagamento, antecipação de recebíveis, seguro ou tesouraria sem que o produtor precise sair do ambiente onde já faz negócio, o mesmo movimento que o varejo digital fez há uma década, agora chegando ao financiamento da produção rural.

Segundo informações institucionais, a T-Alpha atua no desenvolvimento dessa infraestrutura, com soluções para pagamento, conta digital, integração bancária, FIDC, securitizadora e plataforma financeira corporativa, a camada tecnológica que conecta empresa ao sistema financeiro via API e arquitetura BaaS reduzindo tempo de implantação.

Tokenização ganha terreno

A tokenização de ativos segue em fase de amadurecimento regulatório no Brasil, mas já sai do papel: desde 2024, sob a Resolução CVM 175/2022, que permite registro em blockchain (DLT), uma fatia das emissões de CRA e CRI passou a ter registro paralelo em plataformas como Mercado Bitcoin BTC, Liqi e Abrir.io. Emissões com selo de sustentabilidade também cresceram com força no período, mais um sinal de que o mercado de capitais do agro está se sofisticando em várias frentes ao mesmo tempo.

No currículo executivo de Gachet aparecem certificações em blockchain, ativos digitais, tokenização e KYC/AML, áreas que dialogam diretamente com essa frente.

A nova logística do dinheiro

Enquanto trator autônomo e agricultura de precisão seguem ocupando manchete, outra transformação corre por baixo: a de pagamento. O Banco Central vem ampliando a integração entre Pix e Open Finance, a mais recente permite que o usuário compartilhe saldo e limite ao vincular a conta a uma carteira digital, reduzindo transação recusada por falta de saldo. Levantamento da Febraban com a Deloitte já indicava, em 2024, que 82% das transações bancárias ocorriam por canal digital, três em cada quatro pelo celular, tendência que só se acentuou desde então.

No agronegócio, essa infraestrutura reduz custo operacional, acelera liquidação financeira e amplia a rastreabilidade da operação. É nesse segmento que atua a V2X Pay, especializada em pagamento digital e serviço financeiro embarcado, em parceria com instituições autorizadas pelo Banco Central.

A integração entre mercado financeiro e commodities

A experiência de Gachet não para no financeiro. À frente da Trading Santa Catarina, ele comercializa soja e milho e estrutura crédito, seguro, hedge, logística e gestão de risco ligados à cadeia. Segundo o próprio empresário, a aproximação com o agro veio da gestão de patrimônio familiar e da estruturação de operações no mercado de grãos em Mato Grosso, unindo a bagagem em tecnologia e finanças ao ambiente rural, uma combinação que permite tratar crédito, pagamento, logística e comercialização como uma única infraestrutura e não como atividades isoladas.

O próximo ciclo

O momento ajuda a tese. Depois de atravessar um período de estresse puxado por evento climático e pela crise de crédito ligada à recuperação judicial da Agrogalaxy, o financiamento privado do agro voltou a ganhar tração em 2025: as emissões de CRA somaram R$ 46,2 bilhões, alta de 11,1% sobre 2024, e as ofertas de Fiagro cresceram 31,3%, para R$ 6,4 bilhões, segundo dados de mercado. O mercado de capitais como um todo movimentou R$ 838,8 bilhões em ofertas no ano, avanço de 6,4%,  justamente no momento em que o crédito público perde espaço e o BNDES reduz participação no financiamento agrícola.

Para Gachet, a trajetória ilustra uma tendência maior: a aproximação entre tecnologia financeira e agronegócio deixou de ser só inovação de nicho e passou a representar uma nova arquitetura para financiar, operar e expandir uma das principais cadeias econômicas do país.

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