Costumo comparar a corrida entre Estados Unidos e China nesse retorno à Lua como a célebre história da lebre e da tartaruga. Nessa disputa, a lebre, conhecendo sua celeridade, preferiu procrastinar, enquanto a tartaruga, lenta, mas determinada, caminhava a passos firmes rumo à linha de chegada.
Em 2004, após o acidente com o Columbia, o presidente americano George W. Bush decidiu que os EUA deveriam retornar à Lua em 2018. Um ano antes, os chineses haviam enviado seu primeiro taikonauta à órbita e tinham delineado um plano para colocar sua estação espacial para funcionar em 2020 e deixar as primeiras pegadas chinesas na Lua em 2030.
Desde então, americanos trocaram de prioridade diversas vezes, cancelando e modificando sua programação, até se consolidar com a meta de realmente voltar à Lua, de início pensada para 2024. Depois passou a 2025, então 2026 e agora é 2028.
Os chineses colocaram no espaço sua estação espacial Tiangong em 2021 e caminham firmemente para ter botas no solo lunar até 2030. Enquanto um país experimentou várias idas e vindas, com enormes desperdícios orçamentários, o outro gastou menos, mas de forma mais organizada e focada. Os dois parecem se aproximar juntos da linha de chegada.
A lebre ainda está um pouco à frente: com a Artemis 2, no mês passado, levou a primeira tripulação a dar uma volta ao redor da Lua neste século, algo que não acontecia desde 1972. Mas a tartaruga segue realizando feitos impressionantes, como o primeiro pouso robótico no hemisfério afastado da Lua e várias missões não tripuladas bem-sucedidas, incluindo retorno de amostras, enquanto testa os sistemas para o cobiçado voo lunar com astronautas.
O desespero bateu na lebre, e agora dá a sensação de que ela decidiu que, para vencer, ela terá de montar em um caracol e chicoteá-lo para ele correr e ultrapassar a tartaruga.
Eis que os americanos decidiram que voar é preciso, e instituíram uma missão intermediária entre a Artemis 2 e o primeiro pouso tripulado. A Artemis 3, que não deve acontecer antes do fim do ano que vem, começa a ter seus detalhes formulados agora, meio de improviso, que mostram todas as limitações do caracol.
A missão se derá em órbita terrestre baixa. E o foguete SLS a ser usado será uma versão depauperada, sem um segundo estágio. Isso porque o programa só tem mais um desses a postos e deseja guardar para a decisiva Artemis 4. No lugar dele, vai um “spacer”, um dublê de segundo estágio, só para preservar as características estruturais e de massa do veículo e viabilizar o voo da cápsula Orion à órbita baixa.
O que os astronautas a bordo da Orion farão lá em cima? Em tese, um teste conjunto com os módulos lunares Starship e/ou Blue Moon Mk. 2, ambos ainda em desenvolvimento preliminar. Não sabemos se ambos ou um deles vai voar, e o que sabemos é que será necessário acoplar a Orion a eles. Mas nem sequer foi definido se os astronautas entrarão nesses módulos, que dirá manobrá-los em testes. É possível que não haja sequer um sistema de suporte de vida preliminar a bordo deles para viabilizar isso —e estamos falando do fim de 2027.
Não importa quanto se tente surrar o pobre caracol, ele provavelmente é incapaz de ir tão depressa quanto a lebre desejaria. O que significa que, a despeito dos avanços recentes, a tartaruga é a cada dia mais favorita a vencer essa corrida, premiando a paciência e a firmeza de propósito.
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Fonte ==> Folha SP – TEC