A autoridade de quem nunca esteve no campo de batalha

No empreendedorismo, falar sobre o sucesso é fácil. Difícil é demonstrar que se compreendem os riscos, as decisões e as consequências que o tornam possível.

Existe uma característica humana que merece atenção: a facilidade com que algumas pessoas formulam julgamentos sobre realidades que nunca experimentaram. Falam com segurança sobre negócios que nunca administraram, patrimônio que nunca construíram, riscos que nunca assumiram e decisões cujas consequências jamais precisaram suportar.

Não lhes falta vocabulário. Muitas vezes, tampouco lhes falta inteligência ou capacidade de comunicação. São eloquentes, articuladas, apresentam argumentos convincentes e, não raro, ocupam posições de autoridade. O problema começa quando a segurança do discurso ultrapassa os limites da experiência que o sustenta.

No ambiente empresarial, essa distorção assume contornos particularmente interessantes. Multiplicam-se os especialistas em enriquecimento, os mentores de sucesso e os conselheiros de decisões complexas. Alguns conhecem profundamente a teoria, o que pode ser valioso. Outros, entretanto, confundem a capacidade de explicar um resultado com a competência necessária para produzi-lo.

Há uma diferença fundamental entre compreender como uma empresa pode gerar riqueza e ter sido responsável por construir uma. Entre conhecer os mecanismos de investimento e ter desenvolvido patrimônio a partir das próprias decisões. Entre observar um mercado e responder financeiramente pelos riscos de operar nele.

É necessário fazer uma distinção: ninguém precisa ter vivido todas as experiências para ensinar alguma coisa. A ciência, a pesquisa, a análise e o conhecimento técnico também produzem especialistas legítimos. A questão não é exigir experiência pessoal em absolutamente tudo, mas estabelecer uma proporção honesta entre aquilo que alguém afirma saber e as evidências que sustentam essa afirmação.

O problema surge quando a teoria é apresentada como experiência, quando a riqueza recebida é confundida com a riqueza construída ou quando a proximidade com o sucesso alheio é convertida em credencial de autoridade.

Herdar um patrimônio não é um defeito.

Casar-se com alguém financeiramente bem-sucedido tampouco.

Receber uma oportunidade privilegiada não diminui, por si só, o valor de uma pessoa.

O equívoco está em atribuir a si mesmo uma competência que os fatos não demonstram.

Ter patrimônio e saber construí-lo são capacidades distintas.

Preserva-lo, ampliá-lo e transmiti-lo também exigem competências próprias, que podem ou não estar presentes em quem o recebeu.

A mesma lógica vale para a crítica. Quem nunca precisou decidir sob incerteza, comprometer capital próprio, administrar uma equipe, enfrentar uma crise de caixa ou responder por um erro pode desenvolver análises inteligentes sobre essas situações.

Mas deveria reconhecer os limites de sua perspectiva. Existe uma diferença entre avaliar uma decisão à distância e tomá-la quando o custo do erro recai sobre quem decide.

Na vida empresarial, essa diferença não é acadêmica. Uma decisão pode parecer absurda para quem observa apenas seus resultados e revelar-se racional quando examinada à luz das informações disponíveis naquele momento. Da mesma forma, uma estratégia pode parecer brilhante em uma apresentação e mostrar-se desastrosa quando submetida ao mercado.

A experiência não torna ninguém infalível.

Empresários experientes também erram, especialistas podem estar equivocados e o sucesso passado não garante acertos futuros. A experiência, porém, oferece algo que a retórica, isoladamente, não proporciona: contato direto com as consequências, capacidade de reconhecer variáveis negligenciadas e compreensão mais concreta do preço de uma decisão.

Talvez o maior risco não esteja na existência de pessoas que falam sem experiência, mas na disposição de outras tantas para confundir convicção com conhecimento. Em uma época na qual a imagem pode ser cuidadosamente construída, a comunicação pode produzir uma autoridade aparente muito antes de existir uma trajetória capaz de sustentá-la.

Por isso, a pergunta relevante não deveria ser apenas quem fala melhor, quem demonstra mais confiança ou quem aparenta ter alcançado o sucesso. Deveria ser outra: qual é a origem do conhecimento que essa pessoa reivindica e quais evidências demonstram sua capacidade de aplicá-lo?

No empreendedorismo, assim como em qualquer campo que envolva decisões relevantes, é preciso aprender a distinguir quem conhece o caminho, quem o estudou e quem apenas aprendeu a descrevê-lo.

Porque uma boa explicação pode iluminar uma decisão. Mas a eloquência, por si só, não substitui a competência, e a aparência de autoridade jamais deveria ser confundida com a autoridade que nasce da experiência, do conhecimento e da responsabilidade.

Max Katsuragawa Neumann é empresário brasileiro, representante regional do CRA-SP, escritor, podcaster e articulista institucional.

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